quinta-feira, setembro 16, 2021
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O tango é negro: conheça Horacio Salgán, nome fundamental e pouco conhecido do gênero

Dono de estilo único, o músico foi inspiração para nomes mais conhecidos como Astor Piazzola

Horacio Salgán viveu cem anos. Um dos pioneiros do tango na Argentina, O músico era descendente de ex-escravizados, e remonta à origem do tango que, assim como o jazz, nasceu das mãos e mentes de negros e afrodescendentes. Uma versão da história ainda pouco conhecida já que os nomes de referência do gênero ficaram limitados aos artistas brancos, como Carlos Gardel e Astor Piazzola.

Nascido em 1906, Salgán foi considerado um menino prodígio quando aluno do Conservatório Nacional e, mais tarde, foi reconhecido mundialmente por seu estilo disruptivo no gênero do tango. Dedicou-se principalmente ao piano e seu estilo único foi fonte para músicos como Astor Piazzola, que costumava escapar nos intervalos de onde tocava com sua orquestra para ver Salgán no bar do outro lado da rua.

Pianista, compositor e diretor de orquestra, aos 20 anos integrava a orquestra de Roberto Firpo e fazia os arranjos da orquestra de Miguel Caló. Em 1944, fundou sua própria orquestra e lançou sua canção mais conhecida, “A fuego lento”, em 1955, um marco estilístico que abriu águas no gênero musical.

“O estilo de Horacio Salgán era único e um arranjo que passou pelas mãos dele se faz notar”, pontua Edgardo Sarri, radialista especializado em tango, que conduz o programa “Todo Tango“, na Rádio Melody. “Assim como ele, diversos outros músicos negros tiveram uma trajetória que deixou um legado fundamental para o tango, assim como muitas mulheres, que também não costumam ser mencionadas.”

O tango é negro

Ao subir no palco, a cantora Shirlene Oliveira costuma ressaltar que canta tango porque faz sentido, pela raiz negra do gênero. Mulher negra e migrante do Brasil, decidiu viver na Argentina para dedicar-se ao tango, e é testemunha constante da ignorância social sobre suas origens.

“O desconhecimento e a negação sobre as origens negras do tango, no país de nascimento do estilo, é triste. Enquanto nega sua própria identidade, a cultura e toda população empobrece”, afirma. “Minha experiência com o tango é de tenacidade, lido com comentários e situações que poderiam fazer qualquer artista desistir, porém, sigo determinada.”

“O tango é de origem preta e construído marginalmente, a partir da grande diversidade étnica e migratória”, afirma a cantora Shirlene Oliveira. / Amanda Cotrim

Como uma espécie de sintoma cultural do país, na Argentina não é costume falar, estudar ou saber sobre os africanos escravizados, que chegaram a compor 46% da população em 1778.

“A história do tango tem raízes populares, como o jazz”, afirma Edgardo Sarri, que destaca duas esferas fundamentais para entender o surgimento do gênero. “Está a esfera interna, que tem a confluência dos ritmos afrodescendentes, como o candombe – esse don don don que dá ritmo ao tango, que é lindo –; e está a externa, dos migrantes europeus que chegaram no século XIX e se instalaram nos cortiços, e trouxeram para o tango a ansiedade e a depressão, as histórias das pessoas perseguidas, fugidos de guerras.”

Em uma pesquisa sobre as origens do tango, o antropólogo Pablo Cirio, do Instituto Nacional de Musicologia Carlos Vega, descobriu um documento que registra pela primeira vez a palavra “tango”. Data de 11 de novembro de 1802, um boleto de compra de um “lugar de negros”, no bairro hoje conhecido como Constitución.

“A geração dos anos 80 construiu uma narrativa que deu os afroargentinos por desaparecidos da história”, conta Pablo Cirio no portal de cultura do governo nacional. “Nesse mesmo momento, se formavam as disciplinas de sociologia, antropologia, musicologia, que obedeceram a essa narrativa dominante, não a questionaram.”

Para o antropólogo, conhecer as raízes do tango é conhecer o gênero em si mesmo. “O tango tem origem negra e está vinculado à milonga urbana, e esta, com o candombe e outros gêneros afroportenhos menos conhecidos. E quando se escuta o candombe portenho, que sempre tem letra, dança, e se analisa a cadência da melodia, sua estrutura harmônica, você começa a escutar estruturas parecidas às de um tango antigo”, comenta. 

“A escuta é cultural, e fomos educados para não ver nem escutar os negros. Quando você escuta um tango ou uma milonga com os ouvidos abertos à diversidade, começa a perceber sua origem negra”, aponta Cirio.

Neste sentido, para Shirlene Oliveira, Horacio Salgán é uma das grandes referências que devem ser reconhecidas. “Salgán é uma referência das mais emblemáticas do tango, o menino afro do Abasto, que contribuiu às orquestras que dirigiu, e que sua musicalidade negra segue influindo até hoje”, destaca.

“É relevante desvelar as origens africanas do gênero, importante reconhecimento que enriquece a história, faz jus a todos os aportes de pessoas que sofreram discriminação e escárnio, ao iniciarem o movimento cultural ao redor do tango, como os compadritos, as primeiras maestras de baile, compositores, músicos, que fizeram parte dos primeiros momentos desse enorme presente e legado, hoje patrimônio cultural imaterial da humanidade”, completa a cantora.


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