OJ Simpson é personagem central de documentário favorito ao Oscar

Todo atleta busca troféus, consagração de trabalhos que envolvem sacrifício e boa dose de talento. Não há dúvida de que o ex-running back Orenthal James Simpson, ou apenas O. J. Simpson, reunia esforço e dom natural, tanto que deixou seu legado como um grande jogador de futebol americano, mas não é só isso que faz dele parte central de um filme de oito horas e cinco capítulos que é favorito a ganhar o Oscar de melhor documentário, na noite deste domingo à noite, em Los Angeles, cidade que abrigou grande parte da montanha russa que é sua vida. A TNT transmite a partir das 21h.

O documentário transcende a batalha nos tribunais em meados dos anos 1990 que dividiu a sociedade americana entre aqueles que acreditavam que O. J. havia matado violentamente sua ex-mulher, num bárbaro homicídio duplo (que incluiu Ron Goldman, amigo dela), e os que confiavam em sua inocência. O diretor Ezra Edelman – o mesmo de “Magic & Bird” – volta às origens dos problemas raciais na Califórnia, ponto central do julgamento.

OJ Simpson durante seu julgamento, em 2008 Foto: Issac Brekken / AFP

Ao mesmo tempo que o estado no Oeste era um convite aos negros do Sul, que ali conseguiam comprar casas, a segregação ainda era realidade. Em 1965, distúrbios em Watts resultaram em 34 mortes. Foi a poucos quilômetro de distância que, dois anos depois, o jovem O. J. seria catapultado à fama com atuações espetaculares pela University of Southern California.

É neste contexto que surge O. J. – apelido que remete às suas iniciais e à forma como os americanos chamam o suco de laranja (orange juice). Atlético, talentoso, carismático e bonito, ele se tornou um improvável garoto-propaganda para grandes marcas num país que ainda vivia resquícios do movimento dos direitos civis. O ex-jogador, no entanto, jamais flertou com o discurso de Malcolm X ou Martin Luther King, Jr. O filme retrata um homem que se via acima dessa questões. Não era negro ou branco.

– Sou O. J. – dizia, colocando-se num patamar exclusivo, que o excluía da necessidade de levantar bandeiras.

DA FESTA AO INFERNO

Queridinho dos Estados Unidos, ele foi o primeiro escolhido no draft de 1969 para os Bills, da cidade de Buffalo. O clima gélido e a população proletária da localidade ao norte do estado de Nova York pouco tinham a ver com sua personalidade. No auge da fama, O. J. era um homem de Hollywood, cercado majoritariamente de homens ricos e brancos, que desfrutavam de sua companhia numa mansão em Brentwood, Los Angeles.

A vida que parecia ser uma festa para O. J. tornou-se um inferno na noite de 12 de junho de 1994, quando sua ex-mulher, a belíssima Nicole Brown, e Ron Goldman foram assassinados a facadas. Cinco dias depois, quando deveria se entregar à polícia, ele fugiu pelas estradas numa caçada humana com contornos épicos, numa cena surreal, transmitida ao vivo em rede nacional e com direito a ovação de fanáticos nas ruas.

Não há dúvidas de que a reação da contestada polícia de Los Angeles, escoltando o veículo de um fugitivo, era completamente diferente do comportamento geralmente dispensado a negros na cidade. Quatro anos antes, o negro Rodney King fora espancado por policiais brancos. Apesar de a cena ter sido flagrada em vídeo, os agressores foram inocentados num controverso julgamento.

A vida de O. J. nos momentos de sucesso já renderia livros e filmes, mas foram os lances trágicos que ajudaram a fazer dele um filão. A Netflix exibe uma série de dez capítulos sobre o astro. Em “The People v. O. J. Simpson: American Crime Story”, Cuba Gooding Jr atua como o ex-jogador e John Travolta é Robert Shapiro, parte do Time dos Sonhos de advogados que transformou o julgamento em um capítulo do debate racial nos EUA – e que conseguiu a absolvição de seu cliente.

Sem jamais ter a inocência presumida pela opinião pública, Simpson perdeu seu status até que, em 2007, envolveu-se num roubo na tentativa de recuperar antigos pertences em Las Vegas. Sua condenação a 33 anos de prisão é tida por muitos como um punição tardia pelo duplo homicídio que não o condenou.

 

+ sobre o tema

CineB Solar promove três exibições gratuitas de Doutor Gama em São Paulo

O CineB Solar, parceria do Sindicato dos Bancários de São...

Ouça ‘Somewhere’, música inédita de Jimi Hendrix

RIO - "Somewhere", música inédita gravada por Jimi...

Arqueólogos descobrem esqueletos de 3 mil anos com arteriosclerose na África

foto SUSIE GREEN/BRITISH MUSEUM   Os esqueletos com arteriosclerose  foram encontrados...

Lemonade, da Beyoncé, chega às plataformas de streaming três anos após lançamento

O disco que era exclusivo da plataforma Tidal estará...

para lembrar

A Origem e Consolidação do Racismo no Brasil

1- Constituição e Racionalização da Exploração Escravista na Antiguidade Mário...

Estremecimentos no meio diplomático

A notícia sobre as declarações do cônsul geral do...

E se o Brasil negro voltasse à África?

Com direção de Lázaro Ramos, Namíbia, não!, em temporada...
spot_imgspot_img

Leci Brandão – Na Palma da Mão em curta temporada no Imperator

Com direção de Luiz Antonio Pilar e texto de Leonardo Bruno, musical que celebra vida e obra da artista se apresenta no Imperator Vencedor do Prêmio Shell de Teatro na categoria "Direção" Nome incontornável da música brasileira, compositora e intérprete de...

Podcast Pessoas: Temporada Vidas Negras é destaque do mês no Museu da Pessoa

Nele, cada episódio apresenta a edição de uma entrevista que compõe o acervo do Museu da Pessoa no formato storytelling. O Podcast, lançado em 2020,...

MinC vai lançar plataforma de streaming voltada ao audiovisual nacional

O Ministério da Cultura está se preparando para lançar, ainda no segundo semestre deste ano, uma plataforma de streaming dedicada à produção audiovisual brasileira. Idealizado pela Secretaria do Audiovisual...
-+=