Onda negra, medo branco

Nunca uma frase resumiu de forma tão perfeita o imaginário da população branca no século XIX, como o livro de Célia de Azevedo: Onda negra, medo branco. Mas em que consistia esta onda negra? No cenário mundial, ocorrera a revolução em São Domingos, onde os negros se rebelaram contra a escravidão e proclamaram a independência do Haiti. No Brasil, nas três primeiras décadas do século XIX, ocorreu uma onda de insurreições de escravos na Bahia, organizadas pelas nações haussás, nagôs e maleses: “Marinheiros e caiados/todos devem se acabar/porque só pardos e pretos/ o país hão de habitar.” Canções e acontecimentos como estes devem ter ecoado por Nova Friburgo e não se sabe se foi por conta da onda negra que o medo branco se estabeleceu entre os friburguenses, registrando-se em ata da Câmara uma terrível insurreição.
Em 1835, espalhou-se a notícia da possibilidade de uma insurreição de escravos em Friburgo e nos municípios vizinhos. Havia a denúncia de que um grupo de escravos do 3° distrito do Rio Preto vagavam armados pelas fazendas e estradas, transmitindo aos cativos da região que haveria uma sublevação no dia 25 de dezembro. O fiscal relatou naquela época:
“…os sustos em que se acham os moradores deste distrito pelos estados de insubordinação dos escravos que diariamente vagam pelas estradas e fazendas da vizinhança, armados e proferindo palavras tendentes a uma sublevação no dia 25 do corrente, com a notícia de que pretendem assenhorear-se do armamento da Companhia das Guardas…” .
Segundo relatos, o problema da rebelião se originava do fato de haver um excessivo número de escravos administrados por poucos feitores. Além do mais, alguns administradores das fazendas eram também escravos, o que os fazia temer ainda mais pela facilidade de apoderar-se do armamento. A população estava tão apavorada com a possibilidade de uma insurreição que alguns estavam até determinados a desocuparem suas casas temendo serem achacados pelos revoltosos.
Nestes momentos de tensão, as “novidades” corriam soltas como o de haver 800 escravos evadidos, reunidos nos matos para entrar em ação. A Câmara mencionou o “perigo a que todos estaríamos expostos ao desastre que resultaria uma tentativa de insurreição”. A partir de então, criou-se posturas recrudescendo as normas em relação aos escravos posto que achavam-se “ameaçados já a perecer a cada momento nas garras de tão ferozes inimigos.”
O problema das tensões era em função de um significativo aumento do plantel de escravos em algumas fazendas. Por conseguinte, passou-se a exigir que fazendeiros com poucos administradores limitassem o número de escravos, já que não tinham condições de dar segurança aos seus próprios estabelecimentos. Para o caso de fazendas que necessitassem de grande número de escravos, a Câmara propôs uma tributação proporcional ao número deles. Com este imposto, os municípios com forte concentração de cativos investiriam na segurança com o emprego “de tropa paga”, com número de guardas proporcional ao de escravos.
Os escravos detidos, considerados os “cabeças” da sublevação ou “sociedade secreta”, portariam um peso sob seu corpo de 9 libras de ferro por período determinado, com um registro contendo seus nomes, gravidade do delito, prazo em que deveriam conservar o peso, o nome do seu senhor e a denominação da fazenda. Os senhores que antes do prazo determinado retirassem dos seus escravos os respectivos pesos, sofreriam penas por desobediência, que variavam entre multa e prisão. A insurreição era um crime de ação pública e caberia à Câmara a punição dos infratores.
Pode-se afirmar que Nova Friburgo teve suas tensões sociais em relação à escravidão. Há referência de vítimas do grupo “13 de Maio”, possivelmente formado por ex-escravos que teriam provocado distúrbios logo após a abolição da escravidão, o que denota que Friburgo era um verdadeiro barril de pólvora, povoando no imaginário da época o medo branco diante da onda negra.
O senhor e seus escravos
O senhor e seus escravos

Fonte: Atas de Câmara Municipal de Nova Friburgo

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