Os dalits, os negros e os pobres

Fonte: Jornal da Manhã
Por Julio C.O. Bernardo


Nosso país ficou estarrecido com o escabroso sistema de castas indiano ilustrado em recente telenovela global. É certo que essa aberração comportamental na Índia foi bem mais presente em tempos passados, continuando, no entanto, a assombrar, ainda, as paragens da terra de Gandhi. Na África do Sul, durante anos, os negros sentiram o amargo da segregação racial pelo apartheid, que enojou todo o planeta com tanta escassez de escrúpulos. Essas duas situações são capítulos macabros e ainda muito pouco resolvidos da história da humanidade. Nosso Brasil, entretanto, não se safa dessas máculas sociais, travestidas e camufladas. Temos nossos dalits, nossos negros, nossos pobres, nossos “menos”, em todo lugar. Em toda esquina há um alguém vítima de preconceito e maus-tratos.

Nossos dalits são os pobres que não têm o básico necessário em atendimento médico-hospitalar, são os muitos que não têm moradia digna, emprego decente ou oportunidades para rechear um pouco a sofrida vida com perspectivas de mudança.

O porteiro do prédio chique para o qual o morador nem diz bom dia, o gari varrendo a rua que nem é notado, o empregado subalterno menosprezado, a doméstica tratada como objeto, o picolezeiro esquecido, o pedidor de esmola fedido, o vizinho com os filhos famélicos, o microagricultor desamparado, o carteiro invisível, a prostituta renegada, os filhos do Brasil perambulando na sarjeta, os pacientes apodrecendo nas filas do SUS, os professores espancados e perdidos nos púlpitos das salas de aula despedaçadas, o entregador de água desconhecido, o office-boy quebra-galho ignorado,, os senis amontoados nos nosocômios da miséria e os andarilhos asquerosos do trecho são, todos eles, vítimas da mais lamentável moléstia espiritual: a indiferença e o preconceito.

Muitos dalits existem por aí, muitos pobres, muitos homossexuais, muitos seres-humanos tratados como criaturas inferiores. São muitos os filhos do Sr. José e da Dona Maria, sem chinelinhas de dedo, descalços sobre os espinhos do sertão, sobre os mangues ou sobre as favelas carregadas de tétano e difteria. Estão desprotegidos, jogados à própria sorte, degustando o próprio azar. O preconceito muda, muda de estilo, de forma, de cor, de nacionalidade, de classe social, de perfume, mas persiste no mundo, na sociedade brasileira sobretudo, arraigado na podridão mental de muitos ignorantes assoberbados de arrogância e maldade.

Olhar nos olhos de uma pessoa, cumprimentá-la demonstrando respeito e atenção, são medidas simples, plausíveis e auspiciosas. Nesse mundo inconstante de hoje, quase tudo é possível, ricos acordam pobres, sãos acordam doentes, distintos podem acordar invisíveis. Nossos filhos de hoje, por exemplo, podem ser os dalits de amanhã. Como você trataria seu irmão, sua filha, sua mãe? Somos do mesmo pó e a ele retornaremos. Pulvis est et in pulverem reverteris.

Não devemos cultuar a perfeição. Jamais seremos perfeitos, mas tratar o próximo como gostaríamos de ser tratados é um bom começo, um belo começo.


Julio C.O. Bernardo é professor.

Matéria original

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