sábado, setembro 18, 2021
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Oscar, Política e Música: A arte e nosso tempo

A música Fight For You, da H.E.R. que ganhou o prêmio de melhor canção original do Oscar domingo me lembra bem Marvin Gaye, a quem ela inclusive fez referência em seu discurso do prêmio. A música faz parte do filme Judas e o Messias Negro, sobre o assassinato de Fred Hampton, líder dos Panteras Negras, pela polícia dos EUA em uma emboscada, e sobre o informante que ajudou a polícia no plano para assasiná-lo. Este fato também é abordado pelo filme Os 7 de Chicago onde Bobby Seale, companheiro de Fred Hampton e também liderança dos Panteras Negras, é julgado junto com outros sete ativistas por uma ação contra a Guerra do Vietnã, chegando inclusive a ter as mãos e pernas algemadas e a boca amordaçada pela guarda por determinação do juiz em uma das audiências, em uma ação racista. Em um momento do filme, o assassinato de Fred Hampton é trazido a uma conversa por Seale, em que ele lamenta a morte do companheiro e incoformado aponta que se tratou de uma execução, pois não só não havia sinais como não havia condições para que Fred Hampton ou seus companheiros e companheiras resistissem.

Os 7 de Chicago, assim como Judas e o Messias Negro, também é um filme político. Aborda o julgamento político de ativistas contra a Guerra do Vietnã, após uma forte repressão que os militantes do movimento antiguerra sofreram, com a finalidade de culpá-los pela reação da polícia, forjando que houvesse ocorrido uma incitação à violência contra a polícia, por parte de oito lideranças de distintos movimento políticos e contraculturais. Uma destas lideranças era o Bobby Seale a quem me referi no parágrafo acima que, num dado momento é retirado da ação, sobrando os outros sete, por isto “Os 7 de Chicago”. Recentemente Lula indicou este filme em seu Twitter, em uma clara e debochada alusão à perseguição político-juridica que sofreu: “Pra quem tiver procurando um filme pra ver no fds… Os 7 de Chicago tá na netflix. Fala sobre um processo onde procuradores sabiam que os réus eram inocentes, mas seguiram com o caso por questões políticas… Bem interessante”. São as repetições da História, não por coincidência, mas porque as estruturas do mundo permaneceram as mesmas. Inclusive, Two Distante Strangers, filme que aborda os assassinatos policiais contra negros, ganhou o prêmio de melhor curta-metragem e, não coincidentemente, os Estados Unidos vivia mais uma onda de revolta contra o assassinato de mais um homem negro, morto semana passado pela polícia na Carolina do Norte, isto enquanto Judas e o Messias Negro, filme que se passa nos anos 60, e A Voz Suprema do Blues, nos anos 20, eram outros dos protagonistas da noite.

Outro notório militante contra a Guerra do Vietnã e pelos direitos civis do povo negro, é o já citado Marvin Gaye, que tem seis músicas na trilha do péssimo Destacamento Blood, filme que concorreu a melhor trilha sonora original, uma delas Inner City Blues que compõe uma das mais empolgantes Introduções de filmes que já vi, me fazendo acreditar que seria mais uma obra prima do Spike Lee. A abertura do filme traz trechos icônicos dos anos 60, em cenas reais, fotografias e cenas interpretando fotografias, como a ida a lua e o primeiro passo dado lá por Neil Armstrong, enquanto Marvin Gaye canta sobre o contraste da capacidade tecnológica da expedição e a miséria a que muitos humanos estão submetidos; a menina vietnamita correndo pelada após um ataque de napalm à sua vila; a execução com um tiro na cabeça, em Saigon, de um Vietcongue por um general vietnamita, aos olhos do mundo, em frente às lente da câmera de um jornalista estadunidense; os atletas Tommie Smith e Jon Carlos, que ergueram os punhos cerrados para o alto, no pódio das olimpiadas de 68 no méxico, em alusão aos Panteras Negras e a luta por direitos civis do povo negro nos EUA, gesto que lhes renderam suas suspensões da delegação olímpica dos EUA como punição; as lideranças negras Kwame Ture, Angela Davis, Malcom X, Bobby Seale e Fred Hampton, o assassinato em 1970 de 4 estudantes que manifestavam contra a Guerra do Vietnã, em Ohio pela polícia; o ataque a convenção nacional democrata reprimida pela polícia em 1968, retratada em Os 7 de Chicago; e Mohammed Ali, um dos maiores atletas de todos os tempo, explicando sobre sua recusa em servir ao exército do país na Guerra do Vietnã:

“Minha consciência não me permite atirar em um irmão, gente de pele mais escura, ou pobres e famintos, em nome dos Estados Unidos. Por que eu atiraria neles? Nunca me chamaram de ‘nigga’, nem me lincharam. Não me atacaram como cães, nem roubaram minha nacionalidade”.

Spike Lee deixou a desejar, mas dois dos principais filmes sobre a luta negra já feitos são dele: Faça a Coisa Certa e Malcolm X. Se não assistiu algum deles, corra e vá ver, são maravilhosos apesar de revoltantes, e extremamente importantes para compreensão do mundo. Sobre Marvin Gaye e sua influência na época, o artista teve o disco You´re The Man, em 1971, vetado pela gravadora que ele integrava, a Motown, e um dos motivos foi o descontentamento do dono da gravadora com a música de trabalho, que dava título ao disco, por se referir criticamente, mesmo que sem citar, ao presidente Richard Nixon. No ano anterior, sua música What´s Going On, que também era o carro chefe e dava nome ao disco que integrava, criticava a Guerra do Vietnã, mantida pelo Nixon. O disco You´re The Man só veio a publico em 2019. Marvin Gaye foi um pacifista que lutou por direitos civis e humanos, por uma sociedade mais pacífica, por ironia do destino (ou não, já que ele queria mudar a realidade justamente por ser violenta), em 1984 assassinado pelo próprio pai, enquanto tentava defender sua mãe de uma agressão dele.

2019 além de nos presentear com You´re The Man, já que o assunto aqui é Oscar, política e música, também foi ano em que um filme Green Book ganhou o principal prêmio da celebração, de melhor filme, além de levar o de melhor ator coadjuvante e melhor roteiro original. Apesar de controverso, pois aborda o racismo a partir do ponto de vista de um homem branco, o motorista do pianista de jazz Don Shirley, Tony Vallelonga, o filme é uma excelente comédia dramática, que nos traz reflexões profundas. A controvérsia se dá pelo fato de que a família de Don Shirley acusar a narrativa, a partir de Tony Vallelonga, de apresentar o Tony como um salvador branco que tivesse inciado o Don Shirley no mundo negro e fazer parecer que Don não fosse envolvido com a luta dos direitos civis negros.

A política parece ter dado a tônica do Oscar nas últimas edições, não que seja novidade pois artistas engajados no cinema não é novidade, mesmo que na repercussão dada pela grande mídia esta questão ser suprimida, atentando-se para questões meramente artísticas/técnicas, como fosse possível ser “meramente artista”, como se as/os artistas não fossem ligados ao seu tempo, e como se a política fosse algo que pudesse ser separar da realidade e, consequentemente, da arte. Adiantando um ano após o Green Book, e voltando um ano de onde estamos, Parasita e Coringa, foram os grandes destaques do Oscar passado, com mais destaque para o primeiro, que levou os principais prêmios. Coringa inclusive teve o azar de ser produzido no mesmo ano de Parasita, pois são os dois melhores filmes da década de 2010, duas obras primas que já estão entre os melhores filmes de todos os tempo. Parasita, inclusive, é a melhor alegoria sobre o capitalismo que já ví, está para nosso sistema político, como a Caverna de Platão está para o conhecimento.

Por Coringa, Joaquin Phoenix, ganhou merecidamente o Oscar de melhor ator em 2020 e fez um marvilhoso discurso na cerimônia ao receber o prêmio, sobre direitos humanos e direitos dos animais, em que equiparava as lutas negra, feminista, lgbt e a causa animal, como oriundas de um mesmo problema: a ideia de que um ser pode, ao seu prazer, dominar e explorar outros seres. Ao ver seu discurso, me lembrei de um texto que li anos atrás do filósofo e feminista transgênero Paul B. Preciado, intitulado “O feminismo não é um humanismo”, onde demonstra que o histórico do humanismo é um histórico da construção do direito do homem, e a condição da mulher está atrelada a condição dos animais: seres escravizados e mantidos em condição de produtores e reprodutoras.

Este ano quem levou o prêmio de melhor ator foi Anthony Hopikins, por Meu Pai. Ainda não vi o filme, mas pelas notícias que acompanhava até o anúncio, ele era favorito junto com Chadwic Boseman, este tanto pela possibilidade de receber uma homenagem póstuma, sendo sua útilma chance de vencer o Óscar, quanto pela sua brilhante interpretação do personagem Leves Green em A Voz Suprema do Blues. Levee é um personagem que nos dá um nó na garganta e, apesar de não tão direto quanto os filmes ditos até aqui, a sua história nos joga de cara no chão a confrontar os problemas sociais, não pela reflexão imediata mas pelo desespero, sua trágica história e sua conturbada forma de se relacionar nos arrancam do lugar comum e nos faz compreender perfeitamente o desfecho de sua história, um personagem violentamente empático, capaz de nos provocar contrariedade e solidariedade ao mesmo tempo. A Voz suprema do Blues é um filme e tanto, levou neste domingo as estatuetas de melhor maquiagem e peteado e de melhor figurino.

Dentre os destaques de domingo, Mank, o mais indicado, em 10 categorias, levou duas: melhor fotografia e melhor direção de arte. Voltando ao papo sobre repetições da história e ao twitte do Lula, foi inevitável traçar um paralelo com nossa política atual quando vi o filme, só que no caso às eleições de 2018, com as fake news do magnata da comunição William Hearst contra seu adversário político. O filme gira em torno da história da vida de Hearst, em como ela serviu de inspiração para Mank escrever o roteiro de O Cidadão Kane, então é um filme político, um filme sobre poder, afinal informação é poder e, na época, Hearst era dono de um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo, com jornais e produtora de cinema. Outro fato sobre política e comunicação que o filme traz é que os filmes escritos por Mank foram proibidos, pelo governo nazista, de passarem na Alemãnha, por causa de um roteiro que escreveu denunciado os horrores do nazismo. O roteiro intitulado The Mad Dog of Europe (O Cachorro Louco da Europa) foi comprado por um estúdio, mas nunca virou filme, só foi reproduzido no teatro. Após ver o filme fui pesquisar mais sobre o assunto: as produtoras de Hollywood vetavam filmes sobre o nazismo para não sofrerem embargos do governo nazistae não perderem a renda do público alemão.

Vi estes filmes todos há alguns meses já e, infelizmente, o grande vencedor da noite, Nomadland, não foi um dos que listei para ver na época. Mais recentemente vi noticiais de que era a aposta principal para os grandes prêmios da cerimônia, mas não tive ânimo para assistir mais nada. Este artigo fica em falta por isto e diria que, fechando este texto, iria correndo fazer o dever de casa e assisti-lo mas, apesar da vontade, são dias muito tristes em que falta ânimo para qualquer compromisso.

Dedico este texto a todas as vítimas das políticas de agravamento da pandemia, em especial a minha amada sogra, Du, e meu querido amigo, Gil, e também a todas e todos que sofrem a perda de alguém especial.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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