quarta-feira, janeiro 25, 2023
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Panos africanos, tradição reinventada

São actualmente uma peça comum para a grande maioria das mulheres angolanas. Novas e mais velhas, urbanas ou rurais, mães de família ou profissionais de sucesso. Os panos africanos são transversais a toda a sociedade. E não podiam estar mais na moda…

por Joana Simões Piedade

As angolanas utilizam-nos para vestir no trabalho ou numa festa, para embrulhar as crianças e amarrá-las às costas, como toalha de mesa ou cortina em casa, ou para carregar as imbambas numa viagem. É difícil encontrar objecto mais polivalente e democrático do que estes panos rectangulares de algodão (e, em muitos casos, com mistura de fibras sintéticas) de cores vibrantes. Fazem parte da paisagem nacional, quer estejamos no mato, nos mercados de estrada ou nas ruas das principais cidades. E são comuns a todo um continente, no Quénia chama-se ‘kanga’, na África Ocidental, no Congo ou no Senegal é apelidado de ‘pagne’, em Moçambique são ‘capulanas’ e é comum terem entre os motivos estampados caras de presidentes, por exemplo.

Durante alguns anos vistos como panos antigos, fora de moda, coisa de mais velhas, os panos africanos têm conhecido um novo fulgor e estão a entrar nas preferências das gerações mais jovens. Para isso têm contribuído a admiração que causam no exterior e o facto de jovens estilistas nacionais, como Nadir Tati, estarem a resgatar a cultura dos panos e a colocá-los na moda.

«Desde muito nova sempre gostei de panos africanos, dava-lhes uso para tudo e foi pela paixão pelos nossos materiais que decidi desde muito cedo que seria estilista um dia», explica à Caju Rose Palhares, mentora da marca de pronto-a-vestir Kivesty, um dos sucessos da passada edição do Moda Luanda. «O mercado sempre se habituou a seguir modas. Quando registei a Kivesty, em 2008, muita gente disse que não usaria tecidos africanos, pois não gostava ou porque não era para a sua idade. Mais tarde, quando abri a loja há dois anos, as pessoas foram entendendo que eu apenas queria modernizar os nossos tecidos e tornou-se um sucesso. Afinal, a Kivesty é a primeira loja com roupas pronto-a-vestir em tecido africano», explica Rose Palhares.

Congoleses dominam costura

Hoje em dia existem cada vez mais marcas, pequenas empresas e particulares a confeccionarem acessórios com panos africanos. Malas, brincos, colares, bolsas para telemóveis, computadores portáteis e tablets, cintos ou porta-moedas, mas também o mais convencional pronto-a-vestir de camisas, calções, corsários, vestidos, saias, fitas para o cabelo ou chapéus. Pode-se encontrar de tudo e deixou de ser um exotismo de estrangeiros, para se estender aos próprios nacionais.

São muitos os particulares que compram os tecidos e levam-nos a costureiros e alfaiates, com desenhos ou fotografias dos modelos que pretendem. É o caso da artista visual Rita GT. «Costumo comprar panos africanos no mercado de São Paulo e uma peça custa normalmente 1.100 kwanzas», revela. Os tecidos são depois trabalhados, por diferentes costureiros que Rita vai conhecendo, sendo que os melhores «normalmente são Congoleses. E quanto mais peças se encomenda, mais fácil é conseguir negociar um bom preço», refere Rita, que possui um estúdio de arte, o ‘e-studio’, dedicado ao desenvolvimento da arte contemporânea em Angola.

A artista portuguesa com residência em Angola, formada em serigrafia e estudiosa dos tipos de impressão, tem utilizado vestuário feito com panos em alguns dos seus trabalhos artísticos: «Ando a explorar os padrões há algum tempo e a ‘padronização’ dos trajes de vestir, o que eles representam imediatamente na sociedade».

As observações e estudos que conduziu levaram-na a concluir que foi através dos holandeses, nos tempos da colonização, que os batique (ou batik, uma técnica de tingimento em tecido artesanal), se espalharam a partir da Indonésia e chegaram a África, tornando-se a partir daí um símbolo muito forte da maneira de vestir deste lado do mundo.

«Encanta-me o vestir os panos africanos porque é uma performance altamente significativa, que se vê nas ruas. Comecei a fazer roupas com estes tecidos, mas interessa-me usar cortes ocidentais com estes padrões, é como se estivesse a misturar duas culturas», sublinha Rose Palhares. É precisamente este género de fusão do pano tradicional com os cortes modernos que tem ganhado cada vez mais adeptas, nomeadamente as clientes da marca Kivesty, cujo ateliê e loja ficam na Ilha de Luanda.

Da Holanda para África

Para quem trabalha em média escala, como é o caso da Kivesty, ter nos panos africanos a única matéria-prima de trabalho pode levantar dificuldades. «Os nossos panos sempre foram muito difíceis de encontrar com um vasto leque de opções. Sem ser no trânsito, somos obrigados a comprá-los nos mesmos lugares, e acabamos por todos usar as mesmas estampas, às vezes até em peças idênticas. Outra das dificuldades é encontrar tecidos de qualidade, ou seja, que não debotem ou que não rasguem com facilidade», explica a estilista.

A dificuldade em encontrar padrões diferentes levou Rose Palhares a trabalhar com a marca holandesa Vlisco. «Há que escolher bem os tecidos para garantir maior satisfação. Uma peça de roupa deve durar uma eternidade, ainda que saia de moda. Nós criamos um conceito de família/tradição com os nossos clientes», refere aquela que é uma das mais recentes revelações da moda angolana.

Quando falamos em panos africanos, a marca holandesa Vlisco é uma das mais conhecidas a nível mundial e existe desde 1846. Resultado da disseminação da técnica do batique originária de Java, a Vlisco começou a desenhar para o mercado africano modelos que incluíam feitos históricos e provérbios locais, africanizando os padrões aos gostos e necessidades dos seus consumidores. As telas converteram-se, assim, em formas de comunicação não verbal das mulheres africanas, podendo transmitir vários tipos de mensagens através dos seus padrões geométricos e figurativos.

Nadir Tati, a mais internacional das estilistas angolanas, conhece bem a marca. «Pela Vlisco recebi o convite para vestir a actriz Rachel Mwanza, do Congo, para a cerimónia dos Óscares do ano passado, e fui assim a primeira estilista angolana a chegar a Hollywood», relembra à Caju, sublinhando que os panos africanos são antes de mais símbolo de história e cultura. «Os panos africanos vestem com elegância mulheres de todas as idades e de todos os grupos sociais. Os motivos ou as estampas são escolhidos de acordo com a região, a cultura e o país. As estampas que funcionam em países como o Egipto ou Marrocos não são as mesmas que funcionam no Senegal ou no Togo, e também não são as mesmas da Nigéria ou do Congo. Existe uma história por detrás do universo dos tecidos africanos, e existem as chamadas ocasiões especiais e apropriadas para o uso desta gama de tecidos», reforça Nadir Tati.

Tendo por base tecidos que viajam da Holanda, da China ou de outras paragens, à falta de uma indústria têxtil nacional activa, as mulheres de Angola continuam a manter a tradição dos panos. As mais velhas, com a utilização dos fatos feitos de panos coloridos, com cortes tradicionais, de mangas em balão, lenço na cabeça igual ao pano e saias longas; as mais novas conferindo aos tecidos africanos cortes mais actuais e modernos. Estilos diferentes que têm em comum passear pelas ruas da cidade a identidade africana, quer no dia-a-dia, quer em momentos especiais. «Tenho sempre reacções muito positivas aqui em Angola quando visto peças feitas com panos. É com muito orgulho que eu visto estas roupas e as pessoas sentem isso. Toda a gente me cumprimenta na rua, os homens mandam piropos e as senhoras vêm sempre falar comigo, como se eu pertencesse ao grupo delas, ao grupo das africanas orgulhosas da sua cultura», explica a portuguesa Rita GT. «Penso que é impossível ficar indiferente à beleza destes panos, mas acima de tudo ao que eles representam, e isso é realmente o que me interessa: o poder conceptual, político e cultural destes panos africanos», diz.

Porque, como conclui Rose Palhares, «enquanto para nós, angolanos, o pano africano remete para a nossa cultura, para o mundo é mais uma estampa fantástica que merece ser utilizada».

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Fonte: Sol

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