Para você, antirracista

Aos meus amigos…

Um texto há tempos guardado, encorajado pelos acontecimentos das últimas semanas.

Vivemos um momento triste e histórico, presenciando inúmeras manifestações e protestos necessários em defesa das vidas negras e contra a brutalidade policial por nós sofrida, seja no Brasil ou não. As hashtags, do movimento #blacklivesmatter e #blackouttuesday, tomaram conta das nossas redes sociais.

Vejo essas participações como legítimas, mas não é só isso, sejamos consistentes e presentes! Não podemos de forma alguma deixar que essas ações se limitem ao meio digital, ou “likes”. O grande combate ao preconceito é diário, é uma vigilância constante de privilégios, lugar de fala e do sistema estruturalmente racista, em seu cerne.

Li ontem, um texto que acredito ser extremamente preciso que dizia – “o problema do racismo está nele ser enxergado apenas como a manifestação consciente de ódio, ele é muito maior que isso”. Verdade, como disse Abdias Nascimento, o real problema está difuso e profundamente penetrado no tecido social, psicológico, econômico, político e cultural da sociedade do país.

Convido vocês a pensar:

O racismo? Está na sala de aula, quando duas semanas atrás a estudante Ndeye Fatou sofreu ataques imensamente preconceituosos dos próprios alunos, em um colégio particular do Rio de Janeiro. Você, antirracista, já sentou com seus filhos para conversar sobre preconceito? Já se incomodou com o número de alunos e professores negros na escola do seu filho? Já pensou quantos autores negros estão nas leituras obrigatórias escolares? E você, já leu algum autor negro? Reflita!

O racismo? Está em uma reunião ministerial ter dividido tantas opiniões em todos os espectros da política duas semanas atrás e um fato não te incomodar: quantos negros havia naquela sala? Você, antirracista, já parou para pensar nas propostas antirracistas dos seus candidatos? Já parou para pensar quantos negros estão em cargos de decisão na sua empresa? Já parou para pensar porque, um país como os EUA, com pouco mais de 12% de população negra, teve seu presidente negro e nós não estamos nem perto? Reflita!

O racismo? Racismo está em você se dizer preocupado com o covid-19 e não se incomodar com o fato da mortalidade nos negros, na cidade de São Paulo ser 62% maior do que em brancos. Você, antirracista, já buscou entender como você pode ajudar? Já pensou como ajudar empreendedores negros na quarentena? Já pensou em quem é a maioria que está nas ruas nesses dias?

Se incomode, esse é o primeiro passo de uma luta DIÁRIA. Atentos, pois enquanto não reconhecermos nossos vieses inconscientes, não conseguiremos trazê-los a consciência, e assim mudar verdadeiramente preconceitos velados.

Esse texto teve um ponto de partida, meu avô Lázaro. Um homem sempre muito orgulhoso: pela sua negritude; por ter conseguido dar educação para todos seus filhos; por ter conseguido um diploma universitário, sendo o único negro em sua sala. Em 2019, segui seus passos, me formando na mesma universidade que meu vô, infelizmente ele faleceu antes da minha colação de grau, porém sempre penso… se ele visse a foto da formatura, provavelmente pensaria –“Voltei no tempo? ” – Reflita!

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