Pesquisadora escreve 270 artigos sobre mulheres cientistas na Wikipédia

“Quanto mais você lê sobre essas mulheres sensacionais, maiores as chances de se sentir motivada e inspirada pela história pessoal delas”, contou Jess Wade

POR DANIELA SIMÕES, do Época 

JESS WADE, A PESQUISADORA BRITÂNICA QUE ESCREVEU 270 ARTIGOS SOBRE MULHERES CIENTISTAS NA WIKIPÉDIA PARA QUE ELAS NÃO FOSSEM ESQUECIDAS (FOTO: INSTAGRAM / JESSJESS1988)

Jess Wade, tem uma missão: mostrar ao mundo quem são as mulheres que conseguiram grandes feitos nas ciências. Para dar o devido reconhecimento a elas, a pesquisadora e pós-doutoranda em eletrônica plástica no Imperial College London começou pela Wikipédia. Foram cerca de 270 artigos escritos no período de um ano. “Eu tinha a meta de escrever um texto por dia, mas às vezes me empolgava e escrevia três”, disse em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

Existem grandes nomes de cientistas do sexo feminino ao redor do mundo, como a britânica Rosalind Franklin, pioneira no campo da biologia molecular, ou a primatologista e etóloga britânica Jane Goodall, conhecida pelas suas pesquisas com chimpanzés.

A ciência, contudo, não é uma área que atrai muitas garotas. Por isso, Jess reafirma que é importante celebrar e dar visibilidade a mulheres que tiveram feitos importantes. “A Wikipédia é um bom caminho para engajar as pessoas nessa missão, porque quanto mais você lê sobre essas mulheres sensacionais, maiores as chances de se sentir motivada e inspirada pela história pessoal delas”, contou.

Filha de médicos, Jess conta que a ciência faz parte de sua vida desde a infância. Mas ela só percebeu a desigualdade de gênero na área após ingressar no seu pós-doutorado. A jovem ficou impressionada com o fato de ser uma minoria na profissão. “Estar isolada é difícil e isso vale para qualquer grupo que não é bem representado”, afirmou.

A fim de mudar essa situação, Jess começou a dar palestras em escolas e a encorajar as meninas a se interessarem pela ciência. A abordagem é direcionada não somente às alunas, mas também aos pais e professores.

Estima-se que menos 9% dos engenheiros na Grã-Bretanha sejam mulheres. Uma campanha iniciada em 2016 e intitulada “9% não é o suficiente” queria mudar esse cenário, encorajando mulheres a se profissionalizarem na área.

Jess estima que sejam investidos de 4 a 5 milhões de libras (R$ 20 a R$ 25 milhões) no incentivo a mulheres nas áreas de ciências no Reino Unido, com grandes contribuições de bancos, empresas de engenharia e do governo. “Não são apenas alguns acadêmicos saindo e dando palestras nas escolas. São enormes investimentos em dinheiro”, afirma a jovem.

Segundo um estudo do Instituto de Física britânico, as mulheres representam apenas 21% dos estudantes na área. Essa porcentagem está estagnada há quase uma década. Uma estimativa recente sugere que levariam 258 anos para compensar essa desigualdade de gênero entre os cientistas.

Jess contou ao El País que sua inspiração foi uma estudante de medicina norte-americana chamada Emily Temple-Wood, que aos 12 anos já escrevia na Wikipédia. A jovem sofreu com comentários misóginos nas redes sociais e por e-mail. Para combater essa ação, Emily teve uma solução criativa: a cada mensagem com conteúdo depreciativo, ela escrevia sobre uma mulher pesquisadora em uma página na Wikipédia. A iniciativa ganhou colaboradores com o passar do tempo e o fenômeno foi nomeado de efeito Keilana (o nome que Emily Temple-Wood usava na plataforma).

No entanto, projetos assim não agradaram a todos. A pesquisadora britânica recebeu uma crítica pelo twitter de um pós-doutorando de Oxford que a acusou de usar a Wikipédia como meio de autopromoção e de forma a beneficiar suas amigas. Jess explica que não conhece pessoalmente nenhuma das personalidades antes de escrever os artigos.

É por meio da Wikipédia e das incansáveis iniciativas de conscientização dos jovens sobre a profissão que Jess espera transformar o ambiente de trabalho da ciência em um lugar melhor para todos. “Então, as meninas que ingressarem na profissão poderão entrar em um ambiente muito mais acolhedor”, afirma.

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