A polícia é a mesma em qualquer lugar? Por que o policial que matou um negro nos EUA foi inocentado

Os primeiros protestos em Ferguson tinham dois slogans: “Mãos ao alto, não atire” — se referindo às últimas atitudes de Michael Brown antes de ser morto — e “Justiça para Michael Brown.” Na mente dos manifestantes, a justiça só poderia vir com uma acusação de Darren Wilson, o policial que atirou nele. Não, ele provavelmente não iria para a prisão. Mas, se nada mais acontecesse, uma acusação iria mostrar que a vida de Brown importava. Que a vida de pessoas como Brown importava. E que as comunidades merecem respostas e explicações para a violência policial.

Do: DCM

Na segunda-feira à noite, o promotor do condado de St. Louis Bob McCullough disse que, após três meses de deliberações, os 12 membros do júri chegaram a sua decisão: Darren Wilson não seria indiciado. Em seu comunicado anunciando a decisão, McCullough explicou que o júri considerou pela evidência disponível que Wilson tinha motivos razoáveis para atirar em Brown, e não foi responsável por um crime.

tumblr_nfluy6GLUM1qjkyvso1_1280 tumblr_nflvhwO36a1s6ay6so1_1280 tumblr_nfltm4XZwK1tgb61mo1_1280

Nada disso foi uma surpresa. É extremamente raro um policial enfrentar uma acusação por atirar em alguém, ainda mais uma punição criminal. “O FBI relatou 410 homicídios justificáveis pela aplicação da lei em 2012″, observou o site Talking Points Memo em uma matéria de agosto: “O número de acusações é mínimo”.

E não são apenas tiroteios; no início deste ano, a polícia da Geórgia equivocadamente invadiu uma casa e feriu gravemente uma criança. A promotoria convocou um júri, e o júri votou contra a acusação. “A investigação de droga que levou a esses eventos foi apressada, desleixada, e, infelizmente, não de acordo com as melhores práticas e procedimentos”, escreveu o júri na sua decisão. Ainda assim, ninguém da força policial foi responsabilizado.

O fato é que a polícia pode matar por qualquer motivo, sem temer acusações criminais.

A verdade é que a lei dá amplo apoio para uso da polícia para força letal. Apenas dois meses antes de Brown ser morto, o Supremo Tribunal deu a sua decisão no caso Plumhoff v. Rickard, em que os autores foram processados depois que policiais puseram fim a uma perseguição em alta velocidade disparando 15 tiros no carro, matando o motorista e um passageiro.

O tribunal considerou que isso não era “força excessiva” em violação da Constituição. “É lógico”, escreveram os juízes em um parecer, “que, se os policiais têm justificativa para disparar contra um suspeito a fim de acabar com uma ameaça grave para a segurança pública, os agentes não precisam parar de atirar até que a ameaça não exista mais”.

Além disso, existem as normas gerais de uso de força letal pela polícia, que dão ampla liberdade aos funcionários que usam armas. A Suprema Corte permite que a polícia use suas armas em duas circunstâncias: para defender suas vidas e para deter um criminoso que escapou.

Se Wilson acreditava que Brown era um criminoso, ou cometeu um crime doloso, então ele foi justificado nos termos da legislação existente. E se Wilson acreditava que ele estava em perigo de perder a vida, a crença de que só tem que ser “objetivamente razoável” não é provável. Então, mais uma vez, ele foi justificado nos termos da legislação existente.

Quando você adiciona este clima de deferência legal às circunstâncias específicas do julgamento, inclusive a reputação do júri de McCullough de apoiar os policiais, o não indiciamento era quase inevitável. Exceto se algo extraordinário ocorresse, Wilson sairia livre. O sistema judicial simplesmente não está equipado ou mesmo disposto a prender policiais responsáveis por tiroteios e outros delitos. Ou, dito de outra forma, o simples fato é que a polícia pode matar por qualquer motivo, sem medo de acusações criminais.

O que quer dizer é isso: teria sido poderoso ver acusações apresentadas contra Darren Wilson. Ao mesmo tempo, a justiça real para Michael Brown, num mundo em que os homens jovens como Michael Brown não podem ser morto a tiros sem consequências — isso não virá do nosso sistema de justiça criminal.

Infelizmente, nós não vivemos em uma sociedade que dá dignidade e respeito para gente como Michael Brown. Em vez disso, temos organizado o nosso país para negar isso, sempre que possível, através de estereótipos negativos da criminalidade, através de segregação e negligência, e através do espetáculo que vemos em Ferguson e St. Louis, onde a polícia está habilitada a aterrorizar sem conseqüência, e os residentes são condenados e atacados quando tentam resistir.

1 2 3 4

tumblr_nfkfh8RAEd1qi3lspo1_1280
Se o racismo e alguma coisa que você esta cansado de ouvir, imagine como estão exaustos as pessoas que vivem isto todos os dias – Jon Stewart

 

tumblr_lwimwwvfkk1qgy1iqo1_500
Se você não esta com raiva, você não esta prestando atenção

tumblr_nfkznn2kuq1rmhoofo1_1280 tumblr_nfkznn2kuq1rmhoofo4_1280 tumblr_nfl2ermiiX1ram4lgo1_1280 tumblr_nfl33aepZg1ram4lgo1_1280 tumblr_nfl33lXBGc1ram4lgo1_1280 tumblr_nfli74dSWW1s43xpbo1_400 tumblr_nfli74dSWW1s43xpbo2_400tumblr_nfli74dSWW1s43xpbo4_1280 tumblr_nfli74dSWW1s43xpbo3_400

+ sobre o tema

James Cone, teologia negra da libertação e luta antirracista

No dia 28 de abril de 2024, completa-se 6...

Por que mandaram matar Marielle Franco? Essa agora, é a pergunta que não se cala…

Seis anos depois e finalmente o assassinato de Marielle...

Mulheres sambistas lançam livro-disco infantil com protagonista negra

Uma menina de 4 anos, chamada de Flor de...

Poesia: Ela gritou Mu-lamb-boooo!

Eita pombagira que riscaseu ponto no chãoJoga o corpo...

para lembrar

spot_imgspot_img

Crianças do Complexo da Maré relatam violência policial

“Um dia deu correria durante uma festa, minha amiga caiu no chão, eu levantei ela pelo cabelo. Depois a gente riu e depois a...

Instituto Odara lança dossiê sobre a letalidade policial que atinge crianças negras na Bahia

O Odara - Instituto da Mulher Negra torna público o documento “Quem vai contar os corpos?”: Dossiê sobre as mortes de crianças negras como consequência...

Polícia Civil de Alagoas prende homem por injúria racial e ameaça

A Polícia Civil, por meio da seção de capturas da Dracco, realizou nesta terça-feira (9), o cumprimento de um mandado de prisão contra um...
-+=