Por Direitos, Reparação e Bem Viver – Mulheres negras nas ruas e nas urnas!

23/07/26
Edição histórica celebra onze anos da primeira Marcha em 25 de Julho, mantém a exigência de justiça para Luana Barbosa e reivindica reparação, democracia e presença de mulheres negras nos espaços de decisão e poder.

Concentração às 13h na Praça Roosevelt, aula pública com Cida Bento, Lenny Blue e Astrogilda, leitura do manifesto e cortejo até o Theatro Municipal São Paulo.

A Marcha das Mulheres Negras de São Paulo realiza, no sábado, 25 de julho, sua 11ª edição, com concentração a partir das 13h, na Praça Roosevelt, região central da capital. Sob o mote “Há 10 anos por Luana Barbosa e por todas nós! Por direitos, reparação e Bem Viver! Mulheres negras nas ruas e nas urnas!”, a mobilização 11 anos da primeira Marcha paulista realizada em um 25 de Julho, em 2016, e recoloca no centro do debate público a exigência de justiça para Luana Barbosa, a defesa da democracia e o direito das mulheres negras de decidir os rumos do país. A data também celebra o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela.

Além do cortejo pelas ruas de São Paulo, a programação reúne formação política, memória, intervenções culturais/artísticas e ocupação das ruas. Entre os destaques anunciados pela organização está uma aula pública, em formato de roda de conversa de intelectuais mais velhas, com Cida Bento, Lenny Blue e Astrogilda. O encontro propõe recuperar a trajetória construída ao longo da última década, analisar os desafios do presente e projetar os próximos anos da organização política das mulheres negras. Também estão previstas a leitura coletiva do manifesto de 2026, intervenções da Marchinha para as crianças, além de apresentações artísticas como Luana Hansen, Ilu Obá de min, entre outras.

Dez anos de organização, mobilização, articulação e luta permanentes

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Acervo Marcha das Mulheres Negras de SP – 2021

A história celebrada em 2026 remonta à mobilização nacional de 18 de novembro de 2015, quando a Marcha Nacional das Mulheres Negras reuniu cerca de 50 mil mulheres em Brasília em torno do enfrentamento ao racismo e à violência e da construção do Bem Viver. Mulheres de São Paulo participaram dessa articulação e, no ano seguinte, deram continuidade à mobilização no estado: em 25 de julho de 2016, cerca de 3 mil mulheres ocuparam as ruas da capital na primeira Marcha das Mulheres Negras de São Paulo realizada nesta data.

A articulação paulista já vinha sendo construída quando, em julho de 2014, mulheres negras de diferentes organizações, movimentos, partidos, sindicatos, coletivos e trajetórias independentes realizaram, em São Paulo, o lançamento da mobilização nacional para a Marcha de 2015. A participação na Marcha de Brasília fortaleceu essa rede, que, diante dos retrocessos políticos de 2016 e da morte de Luana Barbosa, decidiu manter-se organizada e presente nas ruas.

Desde então, a Marcha se consolidou como um coletivo popular organizado e articulado por mulheres negras, com atuação que não se limita ao ato anual. Ao longo do ano, seus grupos de trabalho desenvolvem formação política, comunicação, acolhimento, documentação, projetos, mobilização e ações de incidência territorial. A organização se estrutura de maneira autônoma e horizontal, por meio de debates coletivos e da participação de mulheres de diferentes territórios, gerações, identidades, trajetórias e campos de atuação.

Mais do que uma comemoração de calendário, a 11ª edição registra dez anos de presença política contínua, durante os quais mulheres negras vêm formando lideranças, produzindo conhecimento, construindo alianças, acolhendo denúncias, disputando políticas públicas e afirmando um projeto de sociedade orientado pela reparação, pela democracia e pelo Bem Viver.

Justiça por Luana Barbosa

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A memória de Luana Barbosa atravessa a origem e o presente da Marcha paulista. Mulher negra, lésbica, periférica e mãe, Luana morreu em abril de 2016, em Ribeirão Preto, após uma abordagem policial onde foi brutalmente espancada por policiais militares diante do filho adolescente e morreu em consequência dos traumatismos sofridos.

A violência que interrompeu sua vida tornou visível a combinação entre racismo, lesbofobia, machismo e violência de Estado. Naquele primeiro 25 de Julho de 2016, a exigência de justiça para Luana levou milhares de mulheres negras às ruas. Dez anos depois, o manifesto reitera que nenhum dos responsáveis foi preso e que a família ainda aguarda justiça. Por isso, Luana não aparece como lembrança lateral ou símbolo abstrato: sua história organiza uma reivindicação concreta por responsabilização, memória e garantia do direito à vida.

Direitos, reparação e mulheres negras nas urnas

O manifesto de 2026 articula a luta contra a violência policial e o genocídio da população negra ao enfrentamento dos feminicídios, lesbocídios e transfeminicídios. Também reivindica trabalho digno, fim da escala 6×1 sem redução salarial, combate à informalidade e à retirada de direitos, fortalecimento da saúde pública, garantia dos direitos sexuais e reprodutivos e construção de uma política nacional de cuidados que reconheça a contribuição histórica das mulheres negras e assegure dignidade às mulheres idosas.

Na educação e na cultura, a Marcha defende o ensino público, os saberes negros, indígenas, quilombolas e dos povos de terreiro, a proteção dos saberes e manifestações culturais afro-brasileiras e periféricas e o enfrentamento à censura e à criminalização de expressões como o funk. O documento também denuncia o racismo ambiental e os efeitos desiguais da crise climática sobre comunidades negras, atingidas com maior intensidade por alagamentos, deslizamentos, falta de áreas verdes, poluição e insegurança hídrica.

A dimensão eleitoral aparece de forma explícita. O manifesto defende a derrota da extrema direita, a ampliação da presença de mulheres negras cis e trans nos espaços de poder, o cumprimento das cotas eleitorais e o enfrentamento à violência política. Também assume posição favorável à reeleição de Lula em 2026, atribuindo essa escolha à necessidade de impedir o retorno de um projeto político que, na avaliação da Marcha, aprofundou a violência, o desmonte de direitos e as desigualdades no país.

Cultura, ancestralidade e ocupação do centro

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Ilú Obá de Mim – Imagem: Rodrigo Pivas

A concentração começa na Praça Roosevelt, com música e atividades de acolhimento. Ao longo da tarde, o manifesto será lido, além de intervenções artístico- culturais e a roda com as das intelectuais negras mais velhas. Haverá novamente o acolhimento às crianças pela Marchinha.

O cortejo contará com o tradicional bloco Ilu Obá de Min e Luana Hansen e seguirá pelo centro de São Paulo, marchando por diversos pontos de referência e locais públicos, entre a Biblioteca Mário de Andrade e o encerramento no Theatro Municipal com a intervenção artística de Dandara Kuntê e Periferia segue sangrando. Ao atravessar esses pontos, a Marcha transforma a cidade em espaço de memória e reivindicação, conectando a organização política das mulheres negras à ocupação coletiva de lugares centrais da vida pública e cultural paulistana.

Esta é, antes de tudo, uma convocação para marchar, afirmando a força, memória e as trajetórias políticas construídas por mulheres negras que, ao longo de tantos anos, sustentam lutas, organizam territórios, formulam caminhos e transformam a sociedade. Convidamos todas as mulheres negras a ocuparem as ruas conosco e convocamos também pessoas, organizações e movimentos aliados a somarem-se ao que a Marcha representa, reconhecendo e respeitando o protagonismo das mulheres negras e assumindo compromisso concreto com o enfrentamento ao racismo, às desigualdades e a todas as formas de violência.

No dia 25 de Julho, a Marcha reafirma que mulheres negras não reivindicam presença como concessão. Reivindicam o direito de formular políticas, ocupar instituições, proteger suas comunidades e construir o futuro. A mobilização de 2026 reúne memória e projeto: justiça por Luana Barbosa, reparação histórica, Bem Viver e mulheres negras nas ruas e nas urnas.

Manifesto 2026

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