terça-feira, setembro 21, 2021
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Por que matam os nossos pássaros negros?

É preciso que olhemos as crianças e jovens negros que tiveram as suas vidas destruídas, além das estatísticas, para nunca nos esquecermos das dignas trajetórias que tiveram. Trajetórias imensamente dignas. A dita “política de segurança pública” que enseja mortes no Brasil tem assassinado, sobretudo, os sonhadores, devastando os que sonhavam e sonham com eles. “Perder um filho é o inverso das coisas”, diz meu avô. E com ele aprendi: é o inverso porque as trajetórias se findam incompletas. E o final, na verdade, nunca é o final só para quem partiu. Porque, por trás de tantos sonhos interrompidos, havia tantos outros compartilhados.

No país em que crianças e jovens são diariamente discriminados, violentados e mortos, é necessário falarmos das suas humanidades silenciadas. Eis aqui o Brasil das trajetórias que se perderam porque decidiu fazer do seu amanhã uma repetição inacabada do seu ontem e da violência travestida em “política de segurança pública”, uma maneira ininterrupta de acabar com vidas.

Cabe às instituições e à sociedade brasileira compreenderem a dor das perdas e romper os pactos institucionais que fazem de cada morte meros números somados, criando meios para que os seus jovens e crianças possam desfrutar do futuro. Futuro este cujo destino sempre refletiu na possibilidade de mudança nas vidas de tantos que pelo caminho os apoiaram e apoiam com afeto. Carece ao Estado brasileiro, este que assassinou na partida e na volta, que das asas deu lugar aos túmulos, que dos sonhos fez nascer os prantos e que da barbárie da morte fez o seu cotidiano, se autoquestionar: até quando? E quantas vezes mais? E ainda: quem são as crianças e jovens negros que tiveram as suas trajetórias atravessadas pela morte?

Em meio aos que se foram tínhamos Edson, alegre, conhecido carinhosamente como “Dinho” pelos amigos. Dinho, afetuoso, tinha Mel, uma cachorrinha que estava com ele desde que veio ao mundo. Já Jhordan era apaixonado por futebol, um “Pelé”, diziam, pela habilidade que tinha ao jogar peladas. E tínhamos o João Pedro, caseiro, que encontrava no lar o aconchego, a segurança e a sua paz.

João era tido como aluno modelo, dividindo a rotina entre a escola, idas à igreja e jogos no celular. Já Emily, como é comum nos inéditos da vida, estava prestes a comemorar, ansiosa, a sua primeira festa de aniversário. O tema da festa seria inspirado em Moana, personagem aventureira que com muita coragem busca compreender as suas origens ancestrais, enfrentando corajosamente o Oceano revolto. Tínhamos, ainda, Rebeca que, como tantas outras crianças, estava a descobrir o mundo. E a forte, heroína e inteligente Ágatha, apaixonada por balé.

Como todos nós, eles amavam. Quiçá uns amassem o sol que se punha cedo e outros a tarde que se findava alaranjada. Os dias de chuvas. Quem sabe, então, um filme que era sempre repetido, os seus livros relidos e os que ainda seriam lidos depois. Um time do peito e amizades sinceras. Talvez houvesse um filho que era o melhor amigo do pai e o orgulho estampado no rosto da mãe, os abraços dos avós e dos irmãos. Ou o amor de alguém.

O amor de alguém.

E em cada um deles havia sentimentos imensuráveis. Fosse pelo mar que desaguava nos pés ou pelo poema que lhes narrava a beleza dos campos. Sei que compunha em cada um deles a humanidade tamanha que –sempre injustamente– foi enterrada com sonhos. Possivelmente nunca saibamos com quais caminhos eles queriam construir a sua história. Entretanto, nós sabemos que havia, em cada um deles, a vontade imensa de seguir em frente.

Foram muitos destes que percorreram o caminho de ida à escola porque enxergaram nela um muro que poderia lhes blindar, mas que mesmo assim tiveram os seus corpos atravessados pela barbárie. Foram eles que na comemoração do primeiro emprego –interrompidos da vida por mais de 100 tiros– somam-se às estatísticas de uma política de morte. E foram tantos outros que comprovadamente inocentes tiveram as suas vidas engaioladas sem que pudessem realizar por completo as suas sublimes trajetórias.

Como nós que tivemos e temos as notícias diárias de tantas partidas, sequer um dia, poderíamos consentir em silêncio se eles também compunham um pouco da gente? Não iremos nos esquecer nunca dos que com sonhos parecidos –iguais ou diferentes– tiveram o amargor de tê-los enterrados com eles. Escrevo, neste final de ano, para todos os jovens e crianças negros que por diversos motivos não puderam mais sonhar. Sei que o Brasil os perdeu –e ainda os perde– porque se nega a aceitar que pássaros negros também podem voar.

E ficamos a acreditar no amanhã: “Será que o sol sai para um voo melhor? Eu vou esperar, talvez na primavera”. – Emicida

Richarde Júnior é graduando de direito e pesquisador (UFRJ) na seara técnico-jurídica sobre os desafios de implementação do direito à participação (judicial e extrajudicial) no contexto dos grandes projetos de desenvolvimento, como aqueles atrelados à atividade minerária e as pessoas, comunidades e grupos afetados/atingidos.

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