Por uma universidade com a cara do povo brasileiro

06/04/26
  • A ampliação do acesso do povo às universidades se reflete nas esferas econômica, social e cultural
  • Multiplicam-se os ataques contra as ações afirmativas, especialmente contra cotas étnico-raciais

Ouso dizer, sem medo de errar, que a democratização do ensino superior com a implementação das cotas é a política pública mais eficiente e eficaz já adotada pelo Estado para enfrentar as inequívocas e múltiplas desigualdades que separam as elites das camadas populares da sociedade brasileira.

A ampliação do acesso do povo às universidades produziu um efeito que supera o campo da política educacional e se reflete nas esferas econômica, social e cultural ao abrir portas que historicamente estiveram cerradas aos mais pobres —em especial aos negros.

Vários estudantes sentados em carteiras escolares escrevem em seus cadernos em uma sala de aula. A maioria está de costas ou de perfil, concentrada na atividade. O ambiente é interno, com paredes claras e iluminação uniforme.
Estudantes em sala de aula durante aula de cursinho preparatório para primeira fase do Enem – Rafaela Araújo – 31.out.24/Folhapress

Graças às cotas, “filho de pedreiro não quer mais ser pedreiro”, pois sabe que deixou de estar predestinado a reproduzir a trajetória de baixa remuneração e nenhum reconhecimento profissional a qual seu pai foi condenado.

Mas como “alegria de pobre dura pouco” (diz o ditado), multiplicam-se os ataques contra as ações afirmativas —especialmente contra cotas étnico-raciais. Por ironia, as investidas de deslegitimação partem de setores das ditas “Casas do Povo”.

Felizmente as investidas parlamentares motivaram uma das maiores mobilizações de Movimentos Sociais Negros nos últimos tempos. Cerca de 20 mil pessoas se reuniram no Sambódromo do Anhembi (SP) no dia 31 para cobrar a ampliação do acesso ao ensino superior, num ato em defesa de uma “Universidade com a cara do povo brasileiro”.

Entre as medidas anunciadas pelo governo federal estão o aumento do apoio à Rede Nacional de Cursinhos Populares, a criação do Programa Escola Nacional de Hip-Hop, e a assinatura de um decreto que modifica o Prouni permitindo que os cotistas possam concorrer inicialmente às bolsas destinadas à ampla concorrência.

“As medidas formam uma cadeia causal de ação afirmativa, ajudando no acesso, na representatividade e no protagonismo das camadas populares dentro da universidade”, resumiu Zara Figueiredo, Secretária de Educação Continuada, Alfabetização de jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão, do MEC. Por uma Universidade com a cara do povo brasileiro.


Ana Cristina Rosa – Jornalista especializada em comunicação pública e vice-presidente de gestão e parcerias da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública)

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