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Povos indígenas no Brasil na visão de Eduardo Viveiros de Castro

Antropólogo revela faceta pouco conhecida de sua trajetória e fala da situação dos povos indígenas no Brasil

Por André Goldfeder Do Uol

Apontado pelo antropólogo e pensador francês Claude Lévi-Strauss como o “fundador de uma nova escola na antropologia” e referência para diversas áreas como a filosofia, a literatura e arte , Eduardo Viveiros de Castro é dono de uma das mais sólidas obras teóricas da antropologia contemporânea. Desta vez, no entanto, o que está em destaque é sua produção fotográfica, que a partir do dia 30 de agosto de 2015 estará em exibição no Sesc Ipiranga, na mostra Variações do corpo selvagem, cuja curadoria é assinada por Eduardo Sterzi e Veronica Stigger.

Viveiros de Castro conversou com a CULT a respeito desta faceta pouco conhecida de sua trajetória e da situação dos povos indígenas no Brasil.

 

CULT – Sua experiência com fotografia remonta a um período anterior a sua atividade como antropólogo e passa, na década de 1970, por exemplo, por colaborações como fotógrafo de cena com o cineasta Ivan Cardoso. Como se deu a passagem desse trabalho fotográfico para o registro dos povos indígenas?

Eduardo Viveiros de Castro A passagem se deu quando comecei minha formação como antropólogo e passei a trabalhar junto aos povos indígenas que conheci, os Yawalapíti do Alto Xingu, os Kulina do Alto Purus, os Yanomami da Serra de Surucucus e os Araweté do Ipixuna (Médio Xingu). Como gostava de fotografia e de fotografar, tinha uma câmera Pentax que ganhara em algum “rolo” (troca de algum objeto por outro com alguém que não me lembro quem), registrei o que via enquanto fazia o trabalho de pesquisa etnológico propriamente dito. Depois consegui uma velha Leica M2, um aparelho excelente, que troquei com o maestro Julio Medaglia pela Pentax (ele queria uma câmera reflex e uma teleobjetiva, e tudo o que eu queria era uma Leica…).

 

O senhor entende a fotografia como instrumento etnográfico?

Viveiros A resposta anterior já sugere que não. Não entendo, ou melhor, não uso a fotografia como instrumento etnográfico. Não faço o que se chama de “antropologia visual”, seja por meio de fotografia, seja de vídeo. Minhas fotografias são – ou pelo menos eu achava que eram, até os curadores da mostra me mostrarem (com perdão do trocadilho) o contrário – um mero registro pessoal, tanto estético como sentimental, de minha passagem por esses povos e lugares. Graças ao olhar de Veronica [Stigger] e Eduardo [Sterzi], que leram o meu acervo fotográfico sob o prisma de meus textos antropológicos, é que pude perceber que havia um fio que conectava minha forma de fotografar – forma e conteúdo – e minha forma de pensar, os temas principais que me interessaram como etnólogo das sociedades e do pensamento ameríndio. Em particular, eles me ajudaram a ver, no que eu via, algo que eu não tinha visto, pelo que lhes sou imensamente grato: que o tema da corporalidade e da importância da visão como operador conceitual das cosmologias ameríndias refletia-se de algum modo em minha atividade (não direi jamais trabalho) como fotógrafo amador.

 

O senhor acha que em suas fotografias estaria em jogo algo do conceito de “equivocação controlada”, ou seja, uma questão da tradução, que implica transformações recíprocas entre o sistema conceitual nativo e o sistema conceitual do antropólogo? Ou o registro não verbal desloca completamente os problemas da “objetividade” e dos excessos de sentido?

Viveiros Não saberia responder com segurança a essa pergunta. Tradução, se há, é apenas a tradução intersemiótica espontânea (em outras palavras, não controlada deliberadamente por mim) entre a palavra e a imagem. Não havia, de minha parte, qualquer intenção de controle, nem tentativa de restituição dos regimes de visualidade indígenas por meio do regime de visualidade intrínseco à fotografia (como imagem fixa, com a reprodução técnica das convenções da perspectiva pictória ocidental etc.). Digamos que se podem ler essas fotos como transformações, no sentido estruturalista do termo, de uma perspectiva sobre a perspectiva. Por outro lado, o fato da centralidade do corpo (humano e não humano) na ontologia do sensível vigente nos mundos indígenas certamente “passou” para as minhas fotos, como descobriram os curadores da mostra.

 

O olhar chega a ser um tema, seja metateórico, seja no que toca às cosmologias indígenas, que lhe interessa no campo da antropologia?

Viveiros Com certeza, essa é uma das dimensões de meu trabalho, como atesta a escolha do termo “perspectivismo” para designar o que poderíamos chamar de uma atitude metafísica fundamental do pensamento indígena. Mas a relação entre o olhar indígena – a questão das transformações que conectam os diferentes tipos de corpos (espécies animais, objetos, seres míticos etc.) que compõem um multiverso onde cada ser “vê” (no duplo sentido sensorial e conceitual) os demais seres do cosmos segundo os termos de seu próprio aparelho corporal – e meu olhar (no mesmo duplo sentido) de antropólogo branco, alguém dotado de um habitussomático-perspectivo diferente dos mundos da visão habitados pelos índios – bem, essa é uma relação que vim a explorar muito mais, ou pelo menos achava eu, no sentido conceitual do termo “olhar” que no sentido sensorial. A exposição problematiza essa minha impressão, na medida em que dá a ver a dimensão sensível de meu trabalho conceitual.

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Há diálogos com outros trabalhos e paradigmas visuais na sua produção?

Viveiros Não que eu me dê conta disso. Minhas fotografias traduzem minha cultura fotográfica formada no contato com a obra de diversos fotógrafos, não necessariamente aqueles que têm um trabalho significativo sobre as culturas extramodernas (ameríndias ou outras).

 

A presença da câmera implica condições e possibilidades específicas para suas interações em campo?

Viveiros Implica o estabelecimento de uma relação de intimidade e de familiaridade com as pessoas e paisagens fotografadas.

 

Para essa exposição no Sesc, os curadores elegeram o corpo como fio condutor que atravessa as imagens. Como esse problema começou a se colocar para seu trabalho antropológico e o que entra em jogo quando, no contexto do “perspectivismo multinaturalista”, “vestir uma roupa-máscara é menos ocultar uma essência humana sob uma aparência animal que ativar os poderes de um corpo outro”? Esse tipo de questão aparece nas fotografias?

Viveiros A escolha dos curadores foi muito arguta. São eles que me permitiram – ou me forçaram – a começar a pensar sobre esse tipo de questão. Como disse, a fotografia não era para mim uma resposta a essa questão como tal; a questão estava presente em meu espírito quando eu fotografava. Enquanto fotógrafo, sou um artista “naïf”. O que exatamente não sou enquanto antropólogo – nem artista (embora dê imensa importância à precisão da expressão verbal de minhas ideias), nem naïf, pois sei perfeitamente o que estou fazendo – e os limites do que estou fazendo – quando escrevo um texto antropológico, inclusive em suas implicações, digamos, filosóficas.

 

Seguindo a linha de força evidenciada pela curadoria, a potência de transformação e a política da alteridade implicadas por esse estatuto do corpo podem dialogar com problematizações não indígenas das relações ocidentais canônicas entre identidade, alteridade, corporeidade, e transcendência? Pensemos, por exemplo, em Hélio Oiticica, um de seus retratados.

Viveiros Sim, e essa é uma das linhas-mestras da exposição tal como concebida pelos curadores: o estabelecimento de um diálogo entre os regimes não canônicos de corporalidade que existem nos mundos indígenas e aqueles que se foram elaborando pela arte de vanguarda brasileira, especialmente por artistas como Hélio Oiticica, que teve enorme importância em minha formação intelectual pelo lado extra-acadêmico.

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O senhor falou sobre a antropofagia de Oswald, o devir-índio do “Meu tio o Iauaretê”, de Guimarães Rosa, o trabalho de linguagem e os devires em Clarice Lispector. O senhor identifica questões próximas em obras do universo das artes plásticas ou de outras artes?

Viveiros Seria preciso um livro para falar sobre isso… Mas já tive ocasião de dizer que meu trabalho sobre o perspectivismo indígena (tema que é uma transposição visual da problemática da transcorporação antropofágica, tema onipresente no imaginário ameríndio) tem suas origens históricas longínquas, ou pré-conscientes, em minha admiração pela proposta estética, metafísica e política que é a antropofagia no sentido oswaldiano. Quanto a Rosa, acho o conto “Meu tio, o Iauaretê” um dos textos mais diretamente “antropofágicos” já aparecidos em nossa literatura, ao tematizar de maneira “etnográfica” os motivos oswaldianos do matriarcado (a linhagem indígena e felina do lado materno do mestiço onceiro que vira onça) e da relação de desencontro cosmológico absoluto entre índios e brancos na história do Brasil. Quanto a Clarice, ela é a grande pensadora dos devires de nossa literatura – e de nossa filosofia: Oswald, Rosa e Clarice são os maiores pensadores brasileiros do século 20, no sentido de serem os autores que deram a maior contribuição filosófica ao pensamento “ocidental” oriunda de nosso país.

 

Em entrevista recente o senhor conta que, quando chegou à pós-graduação em Antropologia Social no Museu Nacional (UFRJ), no início dos anos 1970, antes de partir definitivamente para a carreira de pesquisador, o senhor vinha de uma vivência “com o pessoal do experimentalismo existencial o povo da arte, do cinema, da poesia marginal, do rock, das drogas, da revolução sexual”. Ao mesmo tempo, em artigo de 2007, “Filiação intensiva e aliança demoníaca”, o senhor se coloca – em um registro que já abarca mudanças de horizonte na filosofia – entre aqueles para quem “o evento puro que foi [maio de] 68 ainda não terminou, e ao mesmo tempo talvez nem sequer tenha começado”. Tomadas em conjunto, as fotografias da exposição testemunhariam alguma continuidade entre essas dimensões da sua trajetória, e entre esses diferentes campos e os problemas que colocam ao seu pensamento?

Viveiros Certamente. A exposição é “sobre” isso. Sobre a insurreição perpétua, subterrânea, que pulsa incessantemente por debaixo da torrente estercorária de hipocrisia, brutalidade e estupidez que define a história do Brasil tal como “feita” pelas classes dominantes. Se o Brasil é o “país do futuro”, é porque este é um país onde a conta de seu passado escravista, etnocida e ecocida ainda não foi cobrada. Mas vai ser.

 

Como o senhor analisa a atual política brasileira em relação aos povos indígenas?

Viveiros Ignorante, arrogante e genocida.

 

O que reserva o futuro para os povos indígenas no Brasil?

Viveiros A revolta.

 

O Brasil tem jeito?

Viveiros O Brasil não existe. O que existe é uma multiplicidade de povos, indígenas e não indígenas, sob o tacão de uma “elite” corrupta, brutal e gananciosa, povos unificados à força por um sistema mediático e policial que finge constituir-se em um Estado-nação territorial. Uma fantasia sinistra. Um lugar que é o paraíso dos ricos e o inferno dos pobres. Mas entre o paraíso e o inferno, existe a terra. E a terra é dos índios. E aqui todo mundo é índio, exceto quem não é.

 

 

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