Qual Natal queremos celebrar e comemorar

O que você quer ganhar no Natal, este ano? As respostas dadas por 70 crianças e adolescentes de uma entidade socioeducativa de Jales, nos últimos dias, surpreendeu as educadoras que lhes dirigiram essa pergunta e tem emocionado quem toma conhecimento do que disseram. A maioria disse que queria uma cesta básica, pois, como afirmou uma dessas crianças, em casa está faltando tudo, até mesmo comida.

Por Guilherme Botelho Junior para o Portal Geledés

Como celebrar e comemorar o Natal no Brasil, hoje, sabendo que o país vive situações sociais alarmantes? Os desempregados ainda são milhões. Muitos têm emprego informal, sem garantia de direitos. A violência cresce até mesmo nas escolas. Os professores são mal remunerados. Os hospitais continuam precários e superlotados. Os ecossistemas são destruídos. A disparidade de renda é grande. O acesso à alimentação, à habitação e à terra é restrito. Movimentos sociais que lutam por direitos da classe trabalhadora são reprimidos.

Os índices assustadores de violência confirmam a tragédia na qual nos encontramos. Resta-nos esperança? Sim, esperança. Não a confundamos com expectativa. A expectativa é passiva. A esperança é ativa. Para compreendê-la, comparemos com uma mulher grávida. Todo o seu ser vai se transformando em vista do novo ser que ela gera. Amando-o ela se engaja. A esperança é assim, nos encoraja nos compromete com a novidade que desejamos.

Qual Natal desejamos e nos comprometemos, então, celebrar e comemorar? O Natal da futilidade ou da fraternidade? O Natal da ganância ou de ações em favor dos socialmente excluídos? O Natal da extravagância ou da convivência saudável? O Natal do genocídio contra a juventude negra ou do respeito à vida? O Natal da corrupção ou da honestidade? O Natal dos vícios ou da sobriedade? O Natal mercantilista ou humanista? O Natal dos analfabetos políticos ou dos cidadãos conscientes e responsáveis? O Natal de todos os desejos ou do que é essencial?

O essencial, sem dúvida, é Jesus Cristo. É seu Natal que celebramos e comemoramos. Saibamos, pois, distinguir o que é verdadeiro e o que é fútil na forma que o Natal é comemorado. Inspiremo-nos, para isso, na exortação do apóstolo Paulo: “Não vos conformeis com as estruturas deste mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito” (Rm 12,2).

Celebremos, pois, o Natal como um novo nascimento, aprendendo com as crianças e os adolescentes, a desejar o que é, na realidade, necessário; aprendendo também com os mais calejados na vida, a lutar pelo que é justo. Que tal, então, engajarmo-nos para que todos recebamos a tão sonhada cesta básica, por exemplo, do trabalho em condições dignas, de gestões econômicas e políticas incorruptíveis, da sustentabilidade ambiental e do desenvolvimento humano integral?

Renovemos, pois, nosso engajamento com o aniversariante, festejado no Natal, de gestar uma coexistência humana realmente justa e fraterna. Que nossos projetos pessoais e sociais correspondam ao que celebramos no Natal. Que esse Natal seja, portanto, digno de um novo nascimento. Assim como “o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz” (Mt 4,16), que nossa luz seja Jesus Cristo. Ele, sim, nos conduz pelos caminhos da justiça e da paz.

Dom Reginaldo Andrietta, bispo de Jales/SP

+ sobre o tema

Concurso unificado: saiba o que o candidato pode e não pode levar

A 20 dias da realização do Concurso Público Nacional...

Estudo mostra que escolas com mais alunos negros têm piores estruturas

As escolas públicas de educação básica com alunos majoritariamente...

Show de Ludmilla no Coachella tem anúncio de Beyoncé e beijo em Brunna Gonçalves; veja como foi

Os fãs de Ludmilla já estavam em polvorosa nas redes sociais...

Geledés faz em Santiago evento paralelo para discutir enfrentamento ao racismo nos ODS

Geledés - Instituto da Mulher Negra realiza, de forma...

para lembrar

Lugar de fala e ético-política da luta

O lugar de fala é o lugar democrático em...

BID: Negros são maioria no empreendedorismo, mas não colhem louros de serem o próprio patrão

Segundo especialista em Desenvolvimento Social, negros têm menor acesso...
spot_imgspot_img

Educação antirracista é fundamental

A inclusão da história e da cultura afro-brasileira nos currículos das escolas públicas e privadas do país é obrigatória (Lei 10.639) há 21 anos. Uma...

Refletindo sobre a Cidadania em um Estado de Direitos Abusivos

Em um momento em que nos vemos confrontados com atos de violência policial chocantes e sua não punição, como nos recentes casos de abuso...

Refletindo sobre a Cidadania em um Estado de Direitos Abusivos

Em um momento em que nos vemos confrontados com atos de violência policial  e  não punição, como nos recentes casos de abuso de poder...
-+=