“Quando o orçamento doméstico é estruturado em torno de parcelas, o futuro já está comprometido”

22/04/26
Por Kátia Mello [email protected]
Novo livro do geógrafo Kauê dos Santos revela como crédito e consumo aprofundam o endividamento nas periferias e reforçam desigualdades raciais, impactando especialmente as mulheres negras

A compreensão das dinâmicas contemporâneas de consumo, crédito e endividamento nas periferias brasileiras exige um deslocamento analítico que vá além dos números e alcance o cotidiano concreto das famílias. É nesse terreno que se insere o recém-lançado livro do geógrafo Kauê Lopes dos Santos e professor da Unicamp, Parcelado – dinâmicas do consumo na periferia (Ed. Fósforo), construído a partir de 150 entrevistas realizadas em bairros periféricos de São Paulo, como Brasilândia, Jardim Helena e Jardim Ângela, territórios marcados por maioria da população negra. 

Ao articular observação empírica, escuta sensível e análise crítica em sua narração, nesta entrevista exclusiva a Geledés, Lopes aprofunda a discussão de como o consumo, longe de ser apenas um indicador econômico, constitui um campo de disputas simbólicas, estratégias de sobrevivência e, sobretudo, um espaço onde se materializam as desigualdades raciais estruturais do país.

Ao tensionar as limitações das pesquisas tradicionais, centradas em dados quantitativos, o geógrafo evidencia que “não explicam como esse consumo acontece, onde acontece, ou o que motiva a compra de determinados bens, nem quais são os efeitos concretos desses objetos na vida das pessoas”. Nas periferias, especialmente entre as famílias negras, o consumo assume significados múltiplos: pode ser ferramenta de trabalho, afirmação de dignidade ou, de forma recorrente, fonte de tensão associada ao endividamento. Esse cenário se insere em um processo mais amplo que ele define como “capilarização das finanças” ou “inclusão subordinada”, no qual o acesso ao crédito se expande, porém sob condições profundamente desiguais, penalizando sobretudo mulheres negras.

Para o professor da Unicamp, nesse contexto, o endividamento deixa de ser um fenômeno pontual e passa a operar como uma engrenagem estrutural da vida cotidiana. Como aponta Lopes, “o orçamento doméstico (se torna) frequentemente pressionado, com alto comprometimento da renda com dívidas, o que dificulta a mobilidade social e, frequentemente, leva a situações de endividamento crônico”. Para mulheres negras — historicamente responsáveis pela gestão financeira das famílias — esse processo é ainda mais agudo, pois combina desigualdades salariais, precarização do trabalho e acesso desigual ao crédito. A dívida, portanto, não é apenas um efeito das condições materiais, mas um dispositivo que reorganiza o cotidiano, redefine prioridades e limita possibilidades.

“Para dar conta das prestações, muitas pessoas precisam ampliar sua jornada de trabalho”, afirma o professor, evidenciando como o presente passa a ser organizado em função de parcelas. Ao mesmo tempo, “quando o orçamento doméstico é estruturado em torno de parcelas que se estendem por 24, 36, 48 meses, o futuro já está comprometido”, produzindo uma sensação contínua de restrição e encurtamento do horizonte de escolhas. Trata-se, portanto, de uma captura que é simultaneamente econômica e subjetiva, incidindo de maneira particular sobre mulheres negras, que sustentam financeiramente seus lares em contextos de maior vulnerabilidade.

Ao dialogar com fenômenos recentes como a expansão das apostas online, as chamadas bets, Lopes aponta para uma nova face da financeirização da pobreza. Em uma lógica em que “a publicidade ‘produz o consumidor antes mesmo de produzir os produtos’”, promessas de ganho rápido se difundem em territórios onde direitos básicos permanecem insuficientes. As bets, nesse sentido, operam como uma extensão dessa racionalidade, ampliando riscos e aprofundando desigualdades ao extrair valor justamente de populações mais vulnerabilizadas. Desta forma, entre crédito, consumo e endividamento, configura-se um circuito que não apenas reproduz, mas atualiza o “ciclo cumulativo de desvantagens”, incorporando a dívida como uma variável central na manutenção das desigualdades raciais no Brasil contemporâneo. Veja abaixo a entrevista com o geógrafo na íntegra.

Geledés – Ao usar de sua sensibilidade e escuta direta para entrevistar 150 pessoas nas periferias de São Paulo, quais dimensões do cotidiano – especialmente ligadas ao consumo, crédito e sobrevivência – conseguiu identificar que não aparecem nas pesquisas tradicionais sobre consumo no Brasil?

As pesquisas tradicionais sobre consumo no Brasil são estruturadas, em grande medida, a partir de uma dimensão quantitativa que é de grande valia para nós pesquisadores das humanidades e das ciências sociais. Isso porque elas permitem analisar quais bens estão presentes nos domicílios dos brasileiros, em que quantidade e como esse consumo se distribui entre diferentes grupos sociais e regiões.

Esse tipo de informação é essencial para entender o dinamismo do consumo no país. Ao mesmo tempo que é de grande importância, esse tipo de pesquisa não é suficiente para captar o cotidiano de consumo dos brasileiros. Ou seja, não explicam como esse consumo acontece, onde acontece, ou o que motiva a compra de determinados bens, nem quais são os efeitos concretos desses objetos na vida das pessoas. No caso da minha pesquisa, centrada em moradores – em sua maioria negros – de bairros periféricos de São Paulo (Brasilândia, Jardim Ângela e Jardim Helena), o que aparece com muita força é justamente o peso desigual que o consumo pode ter dentro das famílias. Um mesmo bem pode representar coisas muito diferentes, dependendo da situação daquela família: pode ser um instrumento de trabalho, pode ser um marcador de dignidade, ou pode até mesmo ser uma fonte de tensão por conta do endividamento. Então entendo essas abordagens como complementares. Enquanto as pesquisas tradicionais oferecem um panorama quantitativo do consumo, a pesquisa qualitativa permite compreender as causas, os impactos e os significados desse consumo no cotidiano das periferias. E, no caso do meu livro, essas as análises foram sempre construídas articulando essas duas dimensões.

Geledés – Como a expansão do crédito para pessoas físicas – que alcançou aproximadamente R$ 2 trilhões em 2019 – marca a transição da exclusão bancária para uma “inclusão subordinada”, e como esse processo impacta concretamente as dinâmicas de consumo e inserção social nas periferias, em especial das famílias negras?

A expansão do crédito para pessoas físicas, especialmente ao longo das duas primeiras décadas do século XXI, marca uma mudança importante: a gente sai de um cenário de exclusão bancária para outro em que o acesso existe, mas de forma profundamente desigual. Por isso, eu prefiro falar em “capilarização das finanças” ou “inclusão subordinada”. Digo isso pois, existe um vocabulário, muito presente na economia e amplamente difundido, que tende a celebrar esse processo como “inclusão financeira”. 

De fato, houve uma ampliação do acesso ao crédito, todos sabemos, mas esse termo pode ser enganoso quando a gente olha mais de perto para as formas de como esse acesso se dá. E veja bem, quando somos críticos com relação ao acesso ao consumo via crédito, não estamos criticando o consumo em si. Ou seja, não se trata de negar a importância do consumo, muito pelo contrário. Em um país extremamente desigual como o Brasil, acessar determinados bens pode significar mais qualidade de vida, bem-estar e até reconhecimento social. O consumo é parte estruturante de qualquer sociedade do planeta. O problema é, como eu estava dizendo, que essa inclusão acontece sob condições desiguais. Nas periferias – e, em especial, entre as famílias negras, que historicamente ocupam a base da pirâmide social – o acesso ao crédito se dá, em geral, por meio das modalidades mais caras do sistema financeiro, com as taxas de juros mais elevadas. Esses são os dados que o próprio Banco Central apresentou em 2025: as mulheres negras são as que pagam as maiores taxas de juros dentro do sistema financeiro. Isso produz um efeito bastante concreto no cotidiano. São populações que já vivem em bairros com menor presença de infraestrutura e serviços públicos e que irão, ao mesmo tempo, pagar mais caro pelos mesmos bens de consumo, justamente por dependerem de crédito em condições desfavoráveis. Ou seja, além da desigualdade no acesso a direitos básicos, há também uma desigualdade nas condições de consumo. 

O resultado é um orçamento doméstico frequentemente pressionado, com alto comprometimento da renda com dívidas, o que dificulta a mobilidade social e, frequentemente, leva a situações de endividamento crônico. E isso se agrava ainda mais em contextos de instabilidade econômica, como aumento do desemprego ou queda de renda, ampliando os riscos de inadimplência e insolvência.

Geledés – Ao escolher distritos como Brasilândia, Jardim Helena e Jardim Ângela, que têm maioria da população negra, sustenta a tese de que a pobreza urbana na cidade de São Paulo é racialmente estruturada. Como isso se conecta ao processo histórico de racialização das desigualdades no Brasil?

A primeira metade do livro trata justamente do caráter racializado da produção do espaço urbano de São Paulo. Ora, se entendemos o espaço como uma instância socialmente produzida, ele não pode ser analisado desconsiderando o caráter racializado de sua produção. Isso porque a hierarquização racial dos sujeitos não é um elemento secundário, mas sim fundante, da própria formação das classes sociais no país. Apesar de tudo isso que eu acabei de dizer, durante muito tempo, uma parte importante dos estudos sobre a formação da cidade de São Paulo deixou essa dimensão em segundo plano. E isso não é casual, mas sim o resultado de uma escolha política de não enfrentar esse debate, mesmo existindo, desde pelo menos os anos 1960, uma produção consistente que articula classe e raça na interpretação da sociedade brasileira. Então, não é possível compreender a organização da metrópole paulistana sem considerar o peso da questão racial. Inclusive porque os sujeitos que constroem essa metrópole são, em grande medida, migrantes vindos de estados nordestinos, onde a população negra é majoritária, sobretudo entre os segmentos mais vulneráveis, exatamente aqueles que migraram. 

A partir de meados do século XX, são essas populações – pretas e pardas – que passam a ocupar postos fundamentais na construção civil, na indústria e nos serviços. São elas que viabilizam tanto a verticalização quanto a expansão horizontal da metrópole. E são também esses sujeitos que, por meio de práticas como a autoconstrução, tensionam os limites entre o rural e o urbano, produzindo as periferias onde hoje se concentram. Ou seja, ao olhar para esses territórios, o que se evidencia é que a pobreza urbana em São Paulo não pode ser dissociada desse processo histórico. Ela é, em grande medida, resultado de uma desigualdade que foi sendo construída e distribuída de forma racializada ao longo do tempo.

Geledés – Como dados como a diferença salarial entre mulheres brancas (R$ 1.526,84) e negras (R$ 1.243,29), mesmo com igual escolaridade, evidenciam o racismo como um mecanismo estrutural dentro da própria classe trabalhadora, e por que há tão pouco avanço político no enfrentamento a essa desigualdade, mesmo em governos que se dizem preocupados com as questões sociais e raciais?

Esses dados que você trouxe – e que aparecem no livro – evidenciam justamente esse caráter racializado da organização social brasileira. Eles mostram que não estamos falando de uma desigualdade pontual, mas de um padrão estruturante, que atravessa o mercado de trabalho e organiza, inclusive, as diferenças internas à própria classe trabalhadora. E essa questão avança menos do que poderia por um motivo central: ainda há uma grande resistência, por parte de segmentos com influência política e também acadêmica, em incorporar a variável racial nas análises. 

Posso falar isso a partir da geografia urbana, por exemplo. A gente está inserido em uma tradição que, por muito tempo, tratou a questão racial como algo secundário, quando não simplesmente ignorou o tema, sem maior autocrítica. Isso tem consequências diretas. Fica difícil produzir conhecimento consistente sobre a realidade do território sem considerar o peso do racismo. E, mais difícil ainda, é formular políticas públicas eficazes para enfrentar essas desigualdades se elas sequer são plenamente reconhecidas no diagnóstico. Nesse cenário, quem tem desempenhado um papel fundamental são os movimentos sociais, especialmente o movimento negro. Ao longo das décadas, são esses movimentos que vêm tensionando o debate público e propondo novas leituras sobre o território brasileiro. Sem essa atuação, a gente provavelmente continuaria interpretando as cidades a partir de referências externas, muitas vezes desconectadas do nosso processo histórico. Esse tensionamento tem produzido efeitos importantes. Ele contribuiu, por exemplo, para ampliar a presença de pessoas negras em espaços de produção de conhecimento, como as universidades, por meio da política de cotas raciais. 

E essa presença vem transformando o tipo de pergunta que se faz, o olhar que se lança sobre a realidade e os temas que ganham centralidade. É um movimento que ainda está em curso, mas que já tem produzido mudanças significativas, tanto na forma como entendemos o território quanto no potencial de construção de políticas públicas mais atentas às desigualdades raciais.

Geledés- Considerando que, em 2025, cerca de 71% das famílias paulistanas estavam endividadas, como se dá a interpretação da dívida como um mecanismo de captura do tempo, da subjetividade e do futuro das classes populares, especialmente de mulheres negras responsáveis neste país pela gestão financeira familiar?

Esses números são bastante alarmantes quando a gente pensa o cotidiano dos trabalhadores e, sobretudo, dos trabalhadores negros, que, como eu já mencionei, são aqueles que enfrentam as piores condições de acesso ao crédito, com as maiores taxas de juros. A dívida pode ser entendida como um mecanismo de captura do tempo por pelo menos dois caminhos. Primeiro, no presente. Para dar conta das prestações, muitas pessoas precisam ampliar sua jornada de trabalho. E isso, em grande medida, acontece no campo da informalidade: o famoso “bico”. Motoristas e entregadores de aplicativo, pessoas que fazem comida para vender ou outros pequenos serviços. 

As entrevistas mostram uma multiplicidade de estratégias para complementar renda. Ou mesmo trabalhadores autônomos que simplesmente estendem sua jornada, trabalhando até mais tarde para fechar as contas do mês. Ou seja, o tempo presente passa a ser organizado em função da dívida. Mas há também uma captura do tempo futuro. Quando o orçamento doméstico é estruturado em torno de parcelas que se estendem por 24, 36, 48 meses, o futuro já está comprometido.

Isso produz uma sensação constante de restrição, como se o horizonte de possibilidades ficasse mais curto. Não é só uma questão financeira, é também uma limitação sobre o que se pode fazer com o próprio tempo e com o próprio dinheiro no futuro: viajar, investir em outras coisas, ou simplesmente ter margem de escolha. E tem um ponto importante: muitas vezes, as pessoas estão pagando, ao longo do tempo, valores muito superiores ao preço original do produto, justamente por conta das taxas de juros elevadíssimas. Então, não é apenas o tempo que está sendo capturado, mas também a renda produzida a partir dos trabalhos dos entrevistados. Há uma percepção subjetiva e crítica sobre o endividamento: os entrevistados sabem o peso que isso tem. Mas, ao mesmo tempo, existe uma espécie de naturalização, às vezes até atravessada por um riso meio tenso, meio irônico. É como se o parcelamento fosse, ao mesmo tempo, uma solução necessária e uma fonte constante de preocupação.

Geledés – No livro, entrevistadas como Maria se planejam com os gastos, fazendo até planilhas, enquanto que homens como César não agem da mesma forma. A educação financeira deveria constar nos currículos escolares? E deveria haver um maior direcionamento educacional aos homens, retratados em pesquisa deste mês da Quaest como a fatia populacional que mais se endivida em apostas online (bets)?

Ao meu ver, a educação financeira é central nesse debate. Venho dizendo que a gente estruturou a sociedade de consumo a partir de um tripé: a obsolescência programada das mercadorias, a publicidade e o crédito, que viabiliza esse consumo, sobretudo para quem não tem renda mais alta. Isso organiza, em grande medida, o consumo das classes B, C, D e E. Pensar a educação financeira não pode se limitar a ensinar gestão do orçamento doméstico. Esse é um ponto importante, claro, mas insuficiente. Existe o risco de individualizar o problema do endividamento, como se ele fosse apenas resultado de descontrole pessoal. E não é. Ele também está diretamente ligado à forma como o sistema financeiro está estruturado. 

Por isso, uma educação financeira mais responsável precisaria combinar essas duas dimensões: o cotidiano das famílias – como organizar renda, gastos, planejamento – e uma leitura crítica do próprio sistema financeiro nacional, incluindo o funcionamento do crédito e as taxas de juros praticadas. Sem isso, a gente corre o risco de responsabilizar apenas a população e deixar de lado a responsabilidade do Estado e das instituições financeiras. Se essa formação for construída dessa maneira mais ampla, ela pode abrir caminho para pensar outro projeto de sociedade, um projeto em que o endividamento não seja quase uma condição permanente da maior parte da população. Esses cursos precisariam ser ministrados a praticamente todos os brasileiros bancarizados. E poderia incluir módulos específicos relacionados às bets, que vem acometendo a população de baixa renda (especialmente homens, como você mencionou) por todo o país.

Geledés – Embora seu livro não mencione explicitamente o endividamento em razão das bets, ele descreve uma dinâmica em que a publicidade “produz o consumidor antes mesmo de produzir os produtos” e aponta o uso crescente de aplicativos de crédito rápido. De que maneira essa racionalidade de “modernidade seletiva” – em que objetos e promessas de ganho chegam antes dos direitos básicos – permite compreender o avanço das apostas na periferia como uma nova face da financeirização da pobreza e da inclusão subordinada, que extrai valor de sujeitos historicamente explorados e reduz ainda mais sua margem de escolha?

Embora o livro não trate diretamente das bets, ele oferece algumas chaves importantes para entender esse fenômeno. Essa ideia de que a publicidade “produz o consumidor antes mesmo de produzir os produtos”, chama atenção para uma racionalidade em que o desejo, a expectativa e a promessa vêm antes das condições materiais concretas de vida. Isso se conecta com a ideia de “modernidade seletiva”. Ou seja, certos elementos da modernidade – aplicativos, crédito rápido, plataformas digitais, promessas de ganho imediato – chegam com muita velocidade às periferias. Mas outros, que seriam fundamentais para garantir condições mínimas de vida – como emprego estável, renda adequada, infraestrutura urbana e serviços públicos de qualidade – continuam chegando de forma muito insuficiente ou simplesmente não chegam. Nesse cenário, as bets aparecem como mais uma engrenagem dessa lógica. Elas operam oferecendo uma promessa de ganho rápido, muitas vezes mediada por uma estética de sucesso, consumo e ascensão social. Só que essa promessa se ancora justamente em populações que já estão em condições mais vulneráveis, muitas vezes com acesso limitado a outras formas de mobilidade econômica. 

Então, o que a gente vê é uma nova face da financeirização da pobreza. Não se trata apenas do crédito ou do endividamento tradicional, mas de mecanismos que extraem valor a partir da própria expectativa de ganho. E isso se articula com aquilo que eu chamo de “capilarização das finanças” ou “inclusão subordinada”: os sujeitos são incorporados a essas dinâmicas, mas em posições desvantajosas, arcando com riscos muito maiores. No limite, isso reduz ainda mais a margem de escolha dessas populações. Porque, ao mesmo tempo em que amplia o acesso a determinados circuitos – consumo, crédito, apostas –, também intensifica a exposição ao risco, ao endividamento e à instabilidade. É uma inclusão que não resolve a desigualdade, mas, muitas vezes, a reorganiza em novas bases.

Geledés – Diante do dado de que 92% dos entrevistados financiaram seus aparelhos celulares, como a articulação entre publicidade, obsolescência programada e crédito fácil atravessa o cotidiano de jovens negros, contribuindo para a produção de desejos e transformando o endividamento em um mecanismo de controle social?

O dado de que 92% dos entrevistados financiaram seus aparelhos celulares é bastante revelador, porque o celular hoje é quase um objeto-síntese dessa dinâmica. Ele não é só um bem de consumo: é ferramenta de trabalho, meio de comunicação, forma de acesso a serviços e também um marcador de pertencimento social. Quando a gente articula publicidade, obsolescência programada e crédito fácil, o que aparece é um circuito muito bem ajustado. A publicidade cria o desejo constante por atualização; a obsolescência – técnica – faz com que os aparelhos rapidamente sejam ultrapassados por versões novas e; o crédito entra como o mecanismo que viabiliza a troca, mesmo quando a renda não acompanha esse ritmo. No cotidiano de jovens negros das periferias, isso tem um peso ainda maior. Porque o celular também está ligado à inserção social, à forma de se apresentar no mundo – inclusive nas redes sociais – e, muitas vezes, à própria possibilidade de gerar renda.

O problema é que esse processo vai naturalizando o endividamento como parte da vida cotidiana. Trocar de aparelho, parcelar, assumir novas dívidas passa a ser visto como algo quase inevitável. E é aí que o endividamento começa a operar como um mecanismo de controle. Porque ele organiza o tempo – via parcelas –, condiciona o uso da renda e reduz a margem de decisão sobre outros projetos de vida. No fim das contas, não se trata apenas de consumir um celular, mas de entrar em uma lógica em que o desejo é constantemente produzido e renovado, enquanto as condições materiais seguem limitadas. E isso acaba prendendo esses sujeitos a um ciclo em que o consumo é viabilizado, mas ao custo de uma dependência permanente do crédito.

Geledés – De que maneira você atualiza o conceito de “ciclo cumulativo de desvantagens”, de Carlos Hasenbalg, ao incorporar a dívida como uma nova variável estrutural que atravessa a experiência de famílias periféricas, aprofundando desigualdades raciais e operando como uma tecnologia contemporânea de contenção social?

Diálogo com a noção de “ciclo cumulativo de desvantagens do negro no Brasil”, do Carlos Hasenbalg, justamente para mostrar que as desigualdades no Brasil não são episódicas, mas que elas se acumulam ao longo do tempo, atravessando gerações e diferentes dimensões da vida social. O que eu tentei fazer, com todo o respeito do mundo, é incorporar a dívida como uma variável central nesse ciclo.

Se antes a gente pensava esse ciclo a partir de elementos como acesso desigual à educação, ao mercado de trabalho, à renda e à moradia, hoje a dívida passa a operar como mais uma camada estrutural dessa engrenagem. Nas periferias – e, sobretudo, entre famílias negras – a dívida não aparece apenas como um recurso pontual para viabilizar o consumo. Ela se torna uma condição permanente, que atravessa o cotidiano, oferecendo as maiores taxas de juros.

E, nesse sentido, ela aprofunda o ciclo de desvantagens, porque compromete a renda futura, limita a capacidade de poupança e reduz as possibilidades de mobilidade social. Ao mesmo tempo, conforme já mencionei, a dívida atua como uma tecnologia de contenção. Ela organiza o tempo, disciplina o uso do dinheiro e restringe o horizonte de escolhas. Não é só uma questão econômica, é também uma forma de gestão da vida cotidiana dos negros no Brasil. As pessoas passam a tomar decisões constantemente condicionadas pelas parcelas, pelos prazos, pelos juros mais altos. Então, ao incorporar a dívida nesse debate, o que eu estou propondo é entender como esse ciclo cumulativo ganha uma nova dimensão no contexto contemporâneo.

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