Que sigamos o desenho da vida de Ecléa Bosi

“Quem aqui é da música?”, perguntou Ecléa Bosi no primeiro dia de aula. Uma turma enorme para a pós-graduação, cerca de 50 mestrandas, doutorandas e ouvintes de todas as unidades da USP.  “Falem comigo depois da aula, por favor.” Não sei como foi a conversa. Mas nas semanas seguintes colegas cantaram, tocaram violino e viola na sala de aula. Ecléa nos preenchia com frases poéticas carregadas de conceitos complexos. Sua fala baixa e pausada silenciava a turma enorme que se entreolhava, compartilhando conscientemente o privilégio de estar naquele lugar. Em intervalos definidos por ela, cantávamos emocionadas letras que se relacionavam ao tema da aula, como Bella Ciao, canção popular italiana, resignificada em protestos contra a primeira guerra mundial e depois pela resistência italiana durante a segunda guerra. Durante as aulas, além de ler Benjamin, acessamos a arte quase em sua aura.

Por Bianca Santana, da Revista Cult 

Foi no primeiro semestre de 2016 que cursei a disciplina “Cultura e Memória Social: a História Oral”, no Instituto de Psicologia da USP. Ecléa, cuja idade era alvo de especulações estudantis, passava pelas mesas onde lanchávamos alertando: já vamos começar, todos para a sala. Com sua bengala, corpo arcado, cabelos brancos muito bem penteados. A doçura no olhar não nos poupava de intervenções certeiras, por vezes duras, a quem falasse bobagem. A pasta de presença era checada semanalmente pela professora que fazia um risco vermelho onde faltava a assinatura. Na capa, os nomes de quem devia resenhas. Porque faltar uma vez era permitido, a partir da segunda falta, era necessário resenhar os textos da aula em questão. Uma das maiores teóricas do Brasil foi também professora dedicada ao ensino, comprometida em passar adiante aquilo que construiu nos quase 60 anos de Universidade de São Paulo.

Simone Weil, Oswaldo Xidieh, Hannah Arendt, Thomas Piketty e tantos outros autores. Intercalados com música, uma encenação de Fausto e causos saborosos. Como o da amiga calada, também professora da USP, que esteve com ela na organização de manifestações na praça da Sé contra a construção de uma barragem. “Vá lá, Ecléa, é preciso que você fale para a multidão”, disse a amiga, na ocasião. “Não. Vá você. Já passou da hora de ser nossa porta-voz”, incentivou Ecléa. Quem era a amiga? “Marilena Chauí, nossa grande porta-voz”, ria a professora de nossa surpresa repleta de encantamento. Quando aluna de graduação, foi colega de Iara Iavelberg, assassinada pelo regime militar, a quem citou emocionada mais de uma vez.

“(…) qual a forma predominante de memória de um dado indivíduo? O único meio correto de sabê-lo é levar o sujeito a fazer sua autobiografia. A narração da própria vida é o testemunho mais eloquente dos modos que a pessoa tem de lembrar. É a suamemória”, escreveu Ecléa no clássico Memória e sociedade: lembranças de velhos, publicado pela primeira vez em 1979, já na 18º edição. Gerações de pesquisadoras e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento beberam nos escritos de Ecléa sobre memória-sonho, memória-trabalho. Com ela aprendemos a fazer entrevistas respeitando o tempo de quem narra, criando vínculo. “Da qualidade do vínculo vai depender a qualidade da entrevista”, escreveu em “Sugestões para um jovem pesquisador”, editado na coletânea O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. Ecléa escreveu o que sempre julguei essencial na prática de jornalistas e pesquisadores, o que tenho buscado passar a alunas e alunos em suas palavras: “Se não fosse assim, a entrevista teria algo semelhante ao fenômeno da mais-valia, uma apropriação indébita do tempo e do fôlego do outro”.

Para Ecléa, a memória de uma sociedade está nas narrativas das pessoas, especialmente das pessoas velhas, de trabalhadoras e trabalhadores manuais. “Os feitos abstratos, as palavras dos homens importantes só se revestem de significado para o velho e para a criança quando traduzidos por alguma grandeza da vida cotidiana. Como pode a anciã justificar a glória do filho premiado na academia científica se ele não ajuda os sobrinhos pobres, ou se ele não cura o reumatismo da cozinheira?” Mais que em documentos ou discursos eloquentes, a memória de uma sociedade está nas narrativas das mulheres e dos homens que trabalharam nesta sociedade.

E quanto Ecléa Bosi trabalhou por nós! Como professora, pesquisadora, militante, idealizadora de projetos importantes como a Universidade Aberta à Terceira Idade.Espero que honremos seu legado e consigamos aguar e nutrir cada semente plantada por ela.  Afinal, Ecléa mesmo escreveu: “Os projetos do indivíduo transcendem o intervalo físico de sua existência: ele nunca morre tendo explicitado todas as suas possibilidades. Antes, morre na véspera: e alguém deve realizar suas possibilidades que ficaram latentes, para que se complete o desenho de sua vida”.

+ sobre o tema

Teoria que não se diz teoria

A separação entre teoria e prática é um histórico...

‘Perdemos cada vez mais meninas e jovens’, diz pesquisadora

Jackeline Romio participou da Nairóbi Summit e aponta os...

Sou mulher. Suburbana. Mas ainda tô na vantagem: sou branca

Ontem ouvi algo que me cativou a escrever sobre...

Por um feminismo de baderna, ira e alarde

Neste 8M, ocuparemos politicamente as ruas e as nossas...

para lembrar

spot_imgspot_img

Medo de gênero afeta de conservadores a feministas, afirma Judith Butler

A primeira coisa que fiz ao ler o novo livro de Judith Butler, "Quem Tem Medo de Gênero?", foi procurar a palavra "fantasma", que aparece 41...

O atraso do atraso

A semana apenas começava, quando a boa-nova vinda do outro lado do Atlântico se espalhou. A França, em votação maiúscula no Parlamento (780 votos em...

Fernanda Melchionna lança seu primeiro livro em Cachoeirinha neste domingo; “Tudo isso é feminismo?”

“Tudo isso é feminismo?” – uma visão sobre histórias, lutas e mulheres” marca a estreia de Fernanda Melchionna, no universo do livro. A bibliotecária...
-+=