• O que perpetua o racismo é a negação, não o enfrentamento
  • Maioria dos privilégios desfrutados na atualidade pelas elites e pelos não negros resulta de atos criminosos

Desde que comecei a escrever neste espaço, decidi não responder aos leitores que generosamente dedicam tempo para comentar sobre meus textos. Contudo, resolvi reconsiderar a decisão depois de uma conversa com a Ombudsman da Folha.

Durante o encontro de colunistas promovido pelo jornal neste mês, Alexandra Moraes me disse: “Ana, pode ser bom responder alguns comentários e até utilizar outros como gancho para novas colunas”. Resolvi acatar a recomendação e escrever sobre algumas considerações feitas a respeito da minha coluna anterior.

Quero muito sair do passado, e é exatamente por isso que escrevo tanto sobre ele.

Pessoa fala no púlpito da Assembleia Geral da ONU em Nova York, com o emblema da ONU ao fundo e duas telas exibindo sua imagem. Público sentado observa a sessão no salão principal.
Presidente de Gana, John Dramani Mahama, discursa durante Assembleia Geral da ONU em Nova York – Jeenah Moon – 25.set.25/Reuters

Minha experiência de vida insiste em me lembrar cotidianamente que não dá para avançar sem reconhecer e considerar as causas que fizeram de nós uma sociedade extremamente desigual e racista até o talo.

Num tempo em que os esforços em prol da equidade racial são reiteradamente combatidos, falar sobre o racismo é falar sobre a política atual. E não há nada de divisionismo nisso, pois o que perpetua o racismo é a negação, não o enfrentamento.

A ONU reconheceu a escravização e o tráfico transatlântico de africanos como o maior crime cometido contra a humanidade. Decisão ovacionada pelo plenário. Apenas três países votaram contra, e a União Europeia se absteve.

O placar da votação diz muito sobre o presente e mais ainda sobre a política atual.

Sim, é preciso pedir perdão por um crime bárbaro e cruel praticado no passado e com repercussão até hoje. Independentemente da ascendência de cada um. E há muitas maneiras de reparação. Uma delas é a criação de fundos de desenvolvimento.

Se é fato que não devemos atribuir aos nossos contemporâneos os erros cometidos por gerações que os antecederam, também é inegável que a maioria dos privilégios desfrutados na atualidade pelas elites e pelos não negros resulta de atos criminosos e desumanos praticados por quem fez fortuna com a desumanização de milhões de seres humanos africanos traficados, escravizados e explorados até a morte.


Ana Cristina Rosa – Jornalista especializada em comunicação pública e vice-presidente de gestão e parcerias da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública)

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