- O que perpetua o racismo é a negação, não o enfrentamento
- Maioria dos privilégios desfrutados na atualidade pelas elites e pelos não negros resulta de atos criminosos
Desde que comecei a escrever neste espaço, decidi não responder aos leitores que generosamente dedicam tempo para comentar sobre meus textos. Contudo, resolvi reconsiderar a decisão depois de uma conversa com a Ombudsman da Folha.
Durante o encontro de colunistas promovido pelo jornal neste mês, Alexandra Moraes me disse: “Ana, pode ser bom responder alguns comentários e até utilizar outros como gancho para novas colunas”. Resolvi acatar a recomendação e escrever sobre algumas considerações feitas a respeito da minha coluna anterior.
Quero muito sair do passado, e é exatamente por isso que escrevo tanto sobre ele.

Minha experiência de vida insiste em me lembrar cotidianamente que não dá para avançar sem reconhecer e considerar as causas que fizeram de nós uma sociedade extremamente desigual e racista até o talo.
Num tempo em que os esforços em prol da equidade racial são reiteradamente combatidos, falar sobre o racismo é falar sobre a política atual. E não há nada de divisionismo nisso, pois o que perpetua o racismo é a negação, não o enfrentamento.
A ONU reconheceu a escravização e o tráfico transatlântico de africanos como o maior crime cometido contra a humanidade. Decisão ovacionada pelo plenário. Apenas três países votaram contra, e a União Europeia se absteve.
O placar da votação diz muito sobre o presente e mais ainda sobre a política atual.
Sim, é preciso pedir perdão por um crime bárbaro e cruel praticado no passado e com repercussão até hoje. Independentemente da ascendência de cada um. E há muitas maneiras de reparação. Uma delas é a criação de fundos de desenvolvimento.
Se é fato que não devemos atribuir aos nossos contemporâneos os erros cometidos por gerações que os antecederam, também é inegável que a maioria dos privilégios desfrutados na atualidade pelas elites e pelos não negros resulta de atos criminosos e desumanos praticados por quem fez fortuna com a desumanização de milhões de seres humanos africanos traficados, escravizados e explorados até a morte.
Ana Cristina Rosa – Jornalista especializada em comunicação pública e vice-presidente de gestão e parcerias da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública)