No dia 29 de julho, em São Paulo (SP), a Coalizão Negra Por Direitos fará o lançamento do Quilombo nos Parlamentos 2026. A ocasião reunirá lideranças políticas, ativistas, intelectuais e candidatos para pautar a sub-representação negra no parlamento, as estratégias de enfrentamento ao descumprimento das cotas e os caminhos para consolidar bancadas negras no Congresso e nas Assembleias.
“O Quilombo nos Parlamentos não é uma lista de nomes. É um trabalho que oferece formação, apoio político, comunicação, proteção jurídica, fiscalização do financiamento e compromisso programático. Queremos eleger uma força coletiva capaz de enfrentar a extrema direita e de colocar a agenda negra no centro do projeto nacional”, afirma Douglas Belchior, ativista da Coalizão Negra por Direitos, em entrevista ao Portal Geledés.
A ação busca alcançar uma atuação política coletiva, suprapartidária e enraizada na luta do movimento negro. A edição deste ano contará com a presença de nomes como: Sueli Carneiro, de Geledés – Instituto da Mulher Negra; Cida Bento, do CEERT; Hélio Santos, do CEDRA; Rosa Negra, do MNU; Sandra Maria, da CONAQ; e Monica Oliveira, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco.
Além disso, também estarão presentes candidatos e candidatas às Eleições de 2026. É o caso de Benedita da Silva (PT – RJ), Marina Silva (REDE – SP), Leci Brandão (PCdoB – SP), Paulo Paim (PT – RS), Macaé Evaristo (PT – MG), Anielle Franco (PT – RJ), Áurea Carolina (PSOL – MG), Orlando Silva (PCdoB – SP), Erika Hilton (PSOL – SP) e Talíria Petrone (PSOL – RJ).
A Coalizão Negra por Direitos destaca que o cenário eleitoral de 2026 exige atenção redobrada, haja vista as fraudes em autodeclarações raciais e ofensivas legislativas que fazem retroceder direitos conquistados. Soma-se a isso o avanço da extrema-direita, que recusa qualquer agenda antirracista efetiva.
Para Douglas Belchior, o relançamento acontece num momento decisivo. “Em 2026, mais uma vez estaremos decidindo quem terá poder para aprovar o orçamento, proteger direitos, enfrentar a violência de Estado e determinar quais vidas serão tratadas como prioridade”, diz.
“O próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reconhece que houve crescimento das candidaturas negras, mas esse aumento não se converteu, na mesma velocidade, em pessoas eleitas. O dinheiro continua chegando tarde, mal distribuído ou concentrado em candidaturas escolhidas pelas cúpulas partidárias. A máquina eleitoral permanece branca, masculina e profundamente desigual”, acrescenta.
Nesse sentido, o Quilombo nos Parlamentos cumpre também o papel de fiscalizar o cumprimento das cotas eleitorais de gênero e raça e fortalecer candidaturas comprometidas com a justiça racial.
A incidência do movimento negro no parlamento
A iniciativa Quilombo nos Parlamentos foi criada em 2022, quando apoiou mais de uma centena de pré-candidaturas negras em todo país. O objetivo da frente vai além da ocupação de cadeiras no parlamento: passa pela transformação da condução do poder e dos rumos do Brasil.
Foram 120 candidaturas apoiadas e 26 pessoas eleitas, que juntas, receberam mais de quatro milhões de votos. Ao todo, foram conquistadas oito cadeiras na Câmara dos Deputados e 18 em assembleias legislativas, além de 97 suplências.
“Mas o resultado não foi apenas eleitoral. O Quilombo revelou lideranças, organizou uma agenda comum e demonstrou que o movimento negro pode atuar de maneira coordenada na disputa institucional sem perder sua autonomia. Também confirmou que não basta eleger pessoas negras; precisamos eleger pessoas negras organicamente ligadas aos movimentos negros e comprometidas com a vida do nosso povo”, destaca Douglas.
Segundo os organizadores, a iniciativa visa construir uma atuação política coletiva, comprometida com a defesa dos direitos da população negra, o enfrentamento ao racismo e a disputa por políticas públicas que promovam justiça e reparação.
O ativista pontua que o a incidência do movimento negro tem sido decisiva para mudanças no parlamento. Ele explica que essa atuação acontece nas ruas, nos partidos, nos tribunais, nas audiências públicas e por meio dos mandatos comprometidos com a luta antirracista.
“Foi a atuação política acumulada pelo movimento que criou ambiente para conquistas como a distribuição proporcional de recursos eleitorais às candidaturas negras, decidida pelo TSE em 2020 após consulta apresentada por Benedita da Silva. Em 2023, a Câmara criou oficialmente sua primeira Bancada Negra, com direito a voz e voto na reunião de líderes. Avançamos ainda na atualização da Lei de Cotas, na equiparação da injúria racial ao racismo, na transformação do 20 de Novembro em feriado nacional e, agora, na luta pela PEC da Reparação”, afirma.
Enquanto houver racismo, não haverá democracia
A ação parte da premissa “Enquanto houver racismo, não haverá democracia”, manifesto da Coalizão Negra Por Direitos lançado em 2020 que pautou o enfrentamento ao racismo como elemento central para a conquista da cidadania plena.
De lá prá cá, o movimento negro alçou algumas vitórias. “A luta fez o Estado se mover. Eleitoralmente, derrotamos o governo Bolsonaro, reconstruímos políticas de igualdade racial, conquistamos novas leis, criamos a Bancada Negra e levamos a reparação para dentro do Congresso. O racismo deixou de ser tratado apenas como problema moral e passou a ser discutido como estrutura de poder, orçamento, território e decisão política”, diz.
No entanto, ainda há uma série de desigualdades a serem superadas. O ativista destaca algumas delas: nunca tivemos uma mulher negra no Supremo Tribunal Federal (STF); em 2024, o Congresso aprovou emenda que substituiu a distribuição proporcional de recursos às candidaturas negras por um piso de 30% e perdoou descumprimentos anteriores dos partidos; e pessoas negras foram 77% das vítimas de homicídio em 2024 e tiveram 2,7 vezes mais risco de ser assassinadas que pessoas não negras, segundo o Atlas da Violência 2026.
“Portanto, avançamos na consciência pública, na legislação e na presença institucional. Mas ainda não alteramos, profundamente, a distribuição racial da riqueza, da segurança, do orçamento e do poder. Nosso trabalho permanece atual porque nunca foi só denúncia. É uma medida da nossa democracia. Enquanto o Estado continuar eficiente para produzir morte negra e lento para garantir direitos, continuaremos lutando”, afirma.
Serviço
Quilombo nos Parlamentos 2026
Data: 29 de julho de 2026
Horário: a partir das 17h
Local: Clube Holmes – Avenida Paulista – São Paulo