domingo, outubro 2, 2022
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Quilombolas de Brejão dos Negros e da Resina colhem os frutos da sua luta

Comunidades de remanescentes de quilombos de Brejo Grande comemoram as boas safras de mandioca e arroz

Depois do reconhecimento e imissão de posse de suas terras, há pouco mais de um ano, a vida é outra para os quilombolas de Brejão dos Negros, encravadas numa bela, porém ainda carente região próxima à foz do rio São Francisco, no município de Brejo Grande, norte de Sergipe. Mesmo com todas as dificuldades ainda existentes, desde que passaram a ser os donos das suas terras, quando receberam o documento oficial de posse da Fazenda Batateiras pelo Incra (Instituto de Colonização e Reforma Agrária), em 1º de março de 2011, os quilombolas organizados plantam de tudo e já colhem os frutos do seu trabalho e da luta de muitos anos pelo reconhecimento e reintegração do seu território.

Na Batateiras, são 469 hectares agricultáveis, onde cerca de 50 famílias trabalham em regime de partilha comunitária, cada um com o seu espaço de plantio, onde escolhem o que vão plantar. No momento, a boa produção de mandioca, ou macaxeira, como preferem chamar, está pronta para ser colhida e comercializada, o que traz grande alegria para os produtores, mas também preocupação.

Segundo o técnico agrícola Juvenal Patrício, que com o apoio do mandato da deputada estadual Ana Lúcia (PT) presta assessoria aos quilombolas, as terras são boas para o plantio de tubérculos, leguminosas e hortaliças. A boa produção da mandioca, alerta, deve ser colhida logo, antes que fortes chuvas caiam e possam comprometer a colheita.

Mas com a colheita, surgem dois obstáculos para os quilombolas: a falta de uma casa de farinha – há o espaço já construído, mas falta o maquinário, avaliado em quase R$ 80 mil – e a falta de um comprador direto de toda a produção, o que traria mais retorno financeiro aos produtores.

“Essas terras são muito boas, tanto que estamos vendo aqui uma excelente produção de macaxeira. Mas como a comunidade ainda não tem uma casa para beneficiar a raiz e fazer a farinha, o preço não sai bom. E falta ainda comprador para a produção, o que vamos estar tentando buscar nos próximos dias um que compre toda a produção, antes que as chuvas venham forte e prejudique a produção”, aponta o técnico, que também é quilombola.

Preço melhor

Para Gilvan Pereira, 41 anos, quilombola, professor de Matemática e produtor na Batateiras, uma coisa puxa a outra. Tendo a casa de farinha, o produto já beneficiado atrai compradores e melhora o preço do produto.

“Hoje nós temos apenas a matéria prima. Com a casa de farinha, teremos o produto final com um preço muito melhor e mercado certo”, avalia.

Gilvan, nascido e criado em Brejão, é um claro exemplo de que a luta organizada e a persistência levam à conquista de direitos e de cidadania. Hoje ele planta além da mandioca, melancia e leguminosas como o feijão. Mas ele lembra que cresceu sofrendo na pele as agruras de ser quilombola dentro da terra de verdadeiros senhores feudais.

“Era tudo na mão dos fazendeiros da região. Eles tinham as terras, que viviam abandonadas, sem produzir nada, a não ser coco, e as pessoas não podiam plantar o que queriam. Melhorou cem por cento. Agora podemos plantar e criar animais dentro do que é nosso, sem medo de ninguém. É uma alegria só ver as pessoas trabalhando pra si, não para os outros”, comemora.

“Pena que ainda tem quilombola que não tem a consciência da luta e o valor da conquista. Essas pessoas não se reconhecem e acabam dando apoio aos fazendeiros. Isso é que precisa mudar. Nós estamos progredindo, andando com as nossas próprias penas, e eles continuam parados”, critica o professor e agricultor quilombola.

Ele destaca o papel do mandato da deputada Ana Lúcia, que sempre esteve com os quilombolas de Brejão e da Resina, outra conquista próxima à fazenda. “Não tenho dúvidas de que se não fosse a presença dela, talvez não estivéssemos nas condições que estamos hoje, com a posse das terras. Ela sempre acreditou nessa luta junto com a gente”, lembra.

Vida bem melhor

A quilombola Risalva dos Santos, há 27 anos na região, não gosta muito de relembrar do passado. “Foi muito sofrimento. É melhor nem lembrar”, diz. Ela prefere falar da vida a partir de março de 2011, quando a comunidade conquistou a titulação sobre a Fazenda Batateiras.

“Aí a vida começou a melhorar de verdade. Só não estamos melhor porque faltam a nossa casa de farinha e encontrar um bom comprador. Mas a vida é outra”, faz questão de pontuar com um sorriso, mesmo que tímido.

“Antes, não tinha situação ruim como a nossa não. A gente vivia que nem bicho bruto no pau. Agora a gente pode plantar de tudo e colher pra gente mesmo. Temos muito ainda por conquistar, mas a vida é outra quando se tem terra pra plantar”, exalta a agricultora quilombola, que faz questão de falar da sua roça. “A gente planta macaxeira, inhame, melancia, feijão, milho, coco, tomate, pimentão, cebola roxa. Planta de tudo e colhe bem. A terra é tudo pra gente”, conta.

Resina: produção de arroz se destaca

Nem o mais otimista dos quilombolas da Resina, às margens do rio São Francisco, em Brejo Grande, imaginaria uma safra tão boa de arroz cultivado nas lagoas em que, até dezembro de 2010, pertencia a um grupo de fazendeiros que irregularmente ocupava a área e não permitia qualquer tipo de exploração em nenhuma das oito lagoas que margeiam o quilombo sem consentimento.

Com o reconhecimento da área como pertencente à União, em 30 de dezembro de 2010, e o consequente trabalho do Incra de titular a área para fins de assentamento das comunidades tradicionais que ali vivem, o cenário mudou. Até então, as famílias quilombolas de Resina sofriam com as inúmeras ameaças, inclusive de morte, e com a queima de suas casas, destruição de roças, impedimento da pesca nas lagoas marginais e manguezais, entre outros tipos de violência. A Construtora Norcon – hoje Norcon-Rossi – chegou a adquirir terras na Resina para a construção de um grande resort, mas depois de muita resistência dos quilombolas e pressão social recuou da ideia.

Hoje os quilombolas comemoram a colheita dos frutos da sua luta e do trabalho árduo nas lagoas que cercam a região, antes propriedades privadas e inacessíveis à comunidade. O arroz vingou. Já foram colhidas e comercializadas 2.340 sacas de grãos de primeira qualidade. Outras três lagoas estão plantadas e, no final de julho, a expectativa é colher mais 3.000 sacas. Toda a produção está sendo comercializada em Alagoas.

“Pra nós é uma alegria só. Antes, vivíamos como excluídos. Hoje a gente planta o que quiser e colhe o resultado da nossa luta. A vida é outra”, comemora a líder quilombola Iraneide Machado dos Santos, 36 anos, agricultora e pescadora tradicional.

Ela lembra que antes só se plantava quando os fazendeiros deixavam, e sequer tinham o direito de explorar as lagoas, muitas cercadas e vigiadas por jagunços para impedir o acesso dos quilombolas.

“Agora é buscar melhorar, com o apoio da Emdagro, o nosso plantio para colher mais, e também se capacitar para conseguir vender melhor e ter mais retorno”, explica Iraneide.

Ela ressaltou não só o apoio da deputada Ana Lúcia, como também do ex-deputado federal pelo PT Iran Barbosa, que sempre acompanharam a luta dos quilombolas da Resina e resistiram, junto com eles, nos momentos mais tensos e difíceis.

“Eles sempre estiverem juntos com a gente, sempre nos apoiaram. Graças a eles, até a Justiça chegou aqui”, exaltou.

Iraneide denuncia uma nova estratégia dos fazendeiros, que tiveram que deixar a área por determinação da Justiça, para minar a resistência dos quilombolas e prejudicar suas plantações. “Estão cortando as nossas cercas e jogando o gado para dentro da nossa área, e o gado está comendo a produção. A gente já denunciou e o caso está na Justiça. Mas até que a Justiça resolva, como fica a nossa produção?”, indaga, com preocupação, a líder quilombola.

Felicidade só

José Francisco Possidônio dos Santos, o Chicão, 42 anos, é uma felicidade só. Natural da Resina, ele comemora a boa produção de arroz e a nova realidade vivida pela comunidade. “Essa é a maior riqueza que nós tem, a nossa terra. Antes a gente era muito massacrado, humilhado. Agora é uma felicidade só. Nós planta o que quer, tem a nossa rocinha, planta o arroz, pesca. Agora nós pode viver em paz”, fala, com um jeito peculiar e sorriso maroto.

Ele rememora o passado e conta que viu o pai, já falecido, sofrer muito com os fazendeiros. “Davam uma rocinha pra ele fazer, mas tinha de cuidar do coco. Quando o coco crescia, eles jogavam o gado e a gente tinha que sair. Ninguém podia fazer nada, porque as terras eram deles”, lembra.

“Foi muita luta. Eu mesmo fui ameaçado de morte e processado. Mas quem tem Deus e luta, não cansa por esperar. Um dia consegue”, reflete o quilombola ao lado da mulher, na sua casinha, de frente para o arrozal.

GEORGE W. O. SILVA

 

 

Fonte: Faxaju

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