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Racismo e Intolerância na Praça da República em SP Tradicional Roda de Capoeira do Mestre Ananias é ameaçada

Desde 1953 acontece na Praça de República a Roda de Capoeira do Mestre Ananias, neste domingo 02-08-2015, apesar dos esforços do Subprefeito da Sé – Sr. Alcides Amazonas, o espaço reservado para a roda foi retirado. No lugar havia barracas de alimentação.

por Pedro Neto via Guest Post para o Portal Geledés

Embaixo de uma árvore, num local bem apertado a Roda de Capoeira aconteceu com a presença de Mestre Ananias, Mestre Brasília e tantos outros fazedores da capoeira.

Se não bastasse, a Policia Militar foi chamada e de forma tranquila e educada conduziu um Boletim de Ocorrência. Não houve nenhuma briga nem tumulto.

O Fórum para as Culturas Populares e Tradicionais junto com a Associação Casa do Mestre Ananias esta agendando uma reunião entre a Subprefeitura da Sé, a Associação dos Feirantes da Praça, a Secretaria Municipal de Cultura, a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial e a Representação Regional do Ministério da Cultura em São Paulo para esta semana.

Neste próximo Domingo, 09-08-2015, a partir das 10 horas da manhã, venham todas(os) para a Praça da República, tragam seu respeito e alegria, pois a Roda não para.

Roda de Capoeira Patrimônio da Humanidade

A Roda de Capoeira foi inscrita na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Sobre o Racismo e Intolerância

Os negros, mulheres e homens, segundo os últimos dados do IBGE de 2010, são 50,7% da população brasileira. A esse respeito o Núcleo de Pesquisa “Relações Raciais: Memória, Identidade e Imaginário” da PUC SP que estuda as relações raciais no Brasil desde 1990 escreve:

“Existe um grande número de estudos sobre relações raciais no Brasil que mostram que há uma disputa entre duas grandes correntes, de um lado, uma que identifica harmonia nas relações sociais e, de outro, uma que afirma que há racismo no país. “O racismo, aqui, é definido como uma “[…] crença na existência das raças naturalmente hierarquizadas pela relação intrínseca entre o físico e o moral, o físico e o intelecto, o físico e o cultural”. (MUNANGA, 2000, p.24).

Grande parte dos estudiosos das relações raciais concorda com essa definição, tais como: Hasenbalg (2005), Paixão (2006) e Guimarães (2004). Para este último,

“Racismo, em primeiro lugar, é referido como sendo uma doutrina, quer se queira científica, quer não, que prega a existência de raças humanas com diferentes qualidades e habilidades, ordenadas de tal modo que as raças formem um gradiente hierárquico de qualidades morais, psicológicas, físicas e intelectuais. […] Além de doutrina, o racismo é também referido como sendo um corpo de atitudes, preferências e gostos instruídos pela ideia de raça e superioridade racial, seja no plano moral, estético, físico ou intelectual” (GUIMARÃES, 2004, p.17)”.”.

   O racismo institucional e todas suas formas de atuação são apontados como o principal motivo da invisibilidade da arte e da cultura negra na cidade de São Paulo. É recorrente a indicação do descaso, do reducionismo e do fortalecimento de estereótipos impostos aos fazedores e grupos em território onde se concentram grande número de afro-brasileiros.

O fato é que a maioria das ações é realizada pelos artistas, grupos, coletivos, ONGs e comunidades afro-brasileiras sem nenhum incentivo do poder público, ao contrário, em muitos casos as instituições do governo dificultam a realização das ações, por exemplo, quando criminalizam a circulação de grupos negros em ruas e praças fora dos períodos ditos “oficiais”, impondo-lhes ainda horário para início e término, restringindo limites territoriais ou solicitando cadastros em delegacias de polícia.

Marcos Legais

Artigos 215 e 216 da Constituição Federal de 1988 que se refere ao patrimônio material e imaterial. [“Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. § 1º – O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional…”] [“Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira…”]

Decreto-lei n.25, de 30/11/1937 que organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional. [“Art. 1º Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. § 1º Os bens a que se refere o presente artigo só serão considerados parte integrante do patrimônio histórico o artístico nacional, depois de inscritos separada ou agrupadamente num dos quatro Livros do Tombo, de que trata o art. 4º desta lei…”]

Decreto Federal n. 3551/2000 que institui o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e cria o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (aos cuidados do IPHAN) e também institui no mesmo órgão, o Inventário Nacional de Referências Culturais.

Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Imaterial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO (2003).

Leis Federais 10.639/2003 e 11.645/2008 que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”.

Convenção sobre a proteção e promoção da Diversidade das Expressões Culturais da UNESCO ratificada pelo Brasil por meio do Decreto Legislativo 485/2006.

Decreto Federal no. 6040/2007 que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.

Lei Federal 12.288, de 20/07/2010, Estatuto da Igualdade Racial.

Decreto 7.387 de 9/12/2010 que estabelece o Inventário Nacional da Diversidade Linguística – visa reconhecer e valorizar as línguas portadoras de referências à identidade, ação e memória dos grupos formadores da sociedade brasileira.

Convenção nº 169 sobre povos indígenas e tribais e Resolução referente à ação da Organização Internacional do Trabalho – OIT (2011).

I Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana (2013/2015), coordenado pela SEPPIR PR e que agrega os Ministérios do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Meio Ambiente, Saúde, Educação, Cultura, Planejamento, Orçamento e Gestão, Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Fundação Cultural Palmares, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação para as Relações Etnicorraciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana (17 de junho de 2004).

Que é Mestre Ananias?

 

foto Brígida Rodrigues
foto Brígida Rodrigues

Ananias Ferreira nasceu em 1924 em São Félix (BA), nesta região que vivencia a força e influência africana em solo brasileiro e que oferece a Capoeira, o Samba e o Candomblé como alicerces formadores da nossa cultura.

Junto a Plínio Marcos e Solano Trindade na cena teatral paulistana, Ananias contribuiu para dar visibilidade à riqueza do patrimônio espiritual e estético do Negro brasileiro. Sacudiu os teatros paulistanos (Municipal, Arena, São Pedro, TAIB, São Paulo Chic, entre outros) com os sambistas Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro, Zeca da Casa Verde, Talismã, Jangada, Silvio Modesto, João Valente, João Sem Medo e outros batuqueiros. Atuou na peça Balbina de Iansã, em 1970, e em Jesus Homem, em 1980 (ambas de autoria de Plínio Marcos. Esteve no elenco da primeira encenação de O Pagador de Promessas (dirigida no TBC por Flávio Rangel em 1960) e teve participação na trilha sonora da filmagem deste enredo, em cartaz nos cinemas dois anos após. Também participou dos filmes Brasil do Nosso Brasil (produzido por Xangô), Fronteira do Inferno Ravina (de Anita Castelane) e fez gravações com Jair Rodrigues, entre outros.

Pioneiro entre os capoeiristas a estabelecer residência na terra da garoa, Mestre Ananias está hoje em plena atividade e é enorme influência para gerações na tradição da Capoeira Paulistana e o representante do Samba de Roda do Recôncavo Baiano na capital.

Neste mais de meio século, conviveu com grandes capoeiristas baianos que viveram e passaram por São Paulo, como Zé de Freitas, Limão, Valdemar (do Martinelli), Hermógenes, Gilvan, Silvestre, Paulo Gomes, Suassuna, Brasília, Joel e muitos outros.

 

Fonte e mais informações sobre Mestre Ananias: http://mestreananias.blogspot.com.br/p/o-mestre.html

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