segunda-feira, setembro 20, 2021
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Racismo estrutural: a banalização da expressão nas redes sociais

A ideia de liberdade é inspiradora. Mas o que isso significa? Se você é livre em um sentido político, mas não tem comida, o que é isso? A liberdade de morrer de fome?
                                                                              − Angela Davis

Os debates nas redes sociais sobre política, esportes, músicas, reality shows, entre outros assuntos, têm sido bastante calorosos e um campo abundante para o envolvimento das questões raciais. Em partes é muito interessante, já que nos deparamos com inúmeros pontos de vista que podem ajudar a formar nossas próprias opiniões. 

Nesses últimos tempos, o racismo tem ganhado maior dimensão, escancarando a influência no modo de vida social. Por exemplo, a visibilidade das ocorrências de manifestações racistas nos estádios de futebol. Na música e no cinema observamos artistas negros sendo objetificados e hipersexualizados. Em programas de TV, estigmas e estereótipos continuam nos atingindo. Nos espaços de poder, a ausência de pessoas negras segue demonstrando a farsa da “democracia racial”. Portanto, existem diversas questões que demandam de reflexões profundas para combater a normalização e reprodução das práticas racistas. No entanto, percebemos a banalização da expressão racismo estrutural em vários contextos. Qualquer notícia de casos de ofensa a uma pessoa negra, ou comentário racista dentro de um reality show, é o suficiente para essa expressão ser colocada em exaustão.

Não tenho dúvidas sobre a importância de discutirmos o racismo como elemento estrutural e estruturante na sociedade. Se não fosse a sua existência não teríamos milhares de pessoas negras sobrevivendo na marginalização e com chances mínimas de superação. Mas o racismo estrutural carrega demasiada complexidade para ser aplicado de maneira simplificada. A cientista política Iris Marion Young elaborou uma metáfora bastante didática acerca dessa expressão 

Se alguém pensa em racismo examinando apenas um fio da gaiola ou apenas uma forma de desvantagem, é difícil entender como e por que o pássaro está preso.  Somente um grande número de fios dispostos de uma maneira específica e conectados um ao outro serve para envolver o pássaro e garantir que ele não possa escapar.

Dessa metáfora, entendemos que o racismo estrutural contempla diversos mecanismos interligados, um arcabouço de obstáculos que mantém as cidadanias mutiladas, como diria o professor Milton Santos. Nesse sentido, a superação de qualquer um desses mecanismos não possibilita resolver a totalidade do problema racial. Devido a essa dimensão, a aplicação da expressão não pode ser resumida na ordem individual ou moral. O jurista e filósofo, Silvio Almeida, esclarece

 
Quando a gente fala de racismo estrutural, o adjetivo estrutural indica não ser apenas o resultado de atos voluntários, que se limitam ao plano individual. Ele é, na verdade, um processo. A gente só consegue entender como a raça configura as relações de poder em nível institucional e político se entendermos a força que o racismo tem na nossa vida. 

Diante desses ângulos, devemos atuar com responsabilidade nos debates públicos, escaparmos do senso comum e ampliarmos o espectro na análise do problema. Não podemos sintetizar as análises jogando conceitos como se a raiz do problema estivesse evidente. Isso dificulta qualquer construção estratégica para o encaminhamento do combate ao racismo, seja dentro dos movimentos e organizações, seja por aqueles que de alguma maneira estão enfrentando a opressão racial. De nada adiantará discussões irreflexivas, como se as expressões que leem as nuances dos problemas sociais conseguirão mudar o que está colocado em nossas vidas. A luta contra a opressão racial é um ato político, e, como tal, deve acontecer radicalmente sem ceder ao espetáculo que se tornou as redes sociais.

 

REFERÊNCIAS BILBIOGRÁFICAS

 

ALEXANDER, Michelle. A nova segregação: racismo e encarceramento em massa. São Paulo: Boitempo, 2018.

 

SANTOS, Milton. Cidadanias mutiladas. In: LERNER, Julio (Ed.). O preconceito. São Paulo: IMESP, 1996/1997, p. 133-144.

 


¹- O racismo estrutural no cotidiano do país, segundo este autor  Disponível em: < https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2019/02/12/O-racismo-estrutural-no-cotidiano-do-pa%C3%ADs-segundo-este-autor>. Acesso em: 22 abr.2020

 


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