A receita de Lima

Quais as repercussões do noticiário sobre corrupção de políticos e de empresários entre os negros? Saber que o Setor de Propinas da Odebrecht movimentou, em menos de dez anos, R$10, 6 bilhões, quantia superior ao PIB de muitos países, muda exatamente o quê na percepção das relações de dominação?

Por Edson Cardoso, do Brado Negro

edson_cardoso
Edson Lopes Cardoso

Estamos, ao que parece, mesmo considerando o nevoeiro ideológico que envolve o noticiário, mais ou menos conscientes de que essas cifras parciais são espoliações do fundo público. Nosso fardo, aquele depositado pelo racismo em nossos ombros, ficou mais leve? O que vamos reconsiderar? O que devemos, de posse dessas informações, invalidar?

Sabendo que nossa pobreza não é fruto do destino, nem da escravidão, tampouco decorre da cor da pele, vamos agora interpelar os empresários e banqueiros que se apropriam, com a cumplicidade de políticos de todas as legendas, do dinheiro que deveria financiar políticas públicas em nosso benefício?

O real é efetivamente real agora? E podemos seguir adiante sem responsabilizar essa cambada pelo processo extremamente árduo e doloroso que marginaliza mulheres e homens negros e dizima nossa juventude?

Essa clara oposição de interesses poderia contribuir para ampliar a consciência política dos negros? De modo inquestionável, o que resta à maioria é desemprego, degradação, violência. As calçadas e as valas estão cada vez mais cheias de corpos negros.

Os mais favorecidos, os mais ricos, como se justificam? Como continuarão a justificar seus privilégios e o controle privado da administração pública? O noticiário sobre corrupção deixa margem de manobra suficiente, para que os dominadores possam assegurar a continuidade da extorsão e da pilhagem. Quem duvida disso?

A exposição, pelos meios de comunicação e pela fala pomposa do judiciário, das entranhas de alguns processos de dominação é sempre matizada e muito esperta. O pano de fundo são, além da prisão de Lula, as reformas ( previdenciária, trabalhista, etc), que devem ser aprovadas pelos mesmos políticos desmoralizados. O cachorro chamado Vereador, lembram de Nicéia Pitta?

No jogo político institucional, ouvimos a súplica da ministra Luislinda Valois: “Sua benção, meu padrinho”. Parece que é tudo que temos ali. Você pertence a um grupo social considerado descartável desde o fim do escravismo e se vê, de repente, personagem, ainda que secundário, de uma cerimônia no Palácio do Planalto. Eu penso que ela estava muito propícia a aceitar o óbvio: quem não tem padrinho, morre pagão.

Posso apenas dizer que isso, o que entendemos como expressão da dominação, é aceito por muita gente nossa. Se você não se dispõe a construir, coletiva e politicamente, seu futuro, e não contempla mesmo essa possibilidade, a ideia do padrinho ganha espaço e conquista muitas cabeças.

Confrontamo-nos, em muitos contextos, com esse dilema: tomamos a benção ao padrinho nosso protetor, porque não acreditamos em nós e na política, ou, como disse Lima Barreto, no final de “Clara dos Anjos”, seu último romance, unimo-nos a nossos iguais e vamos enfrentar todos os que se opõem a nossa elevação social.

Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo

+ sobre o tema

Prefeitura de São José dos Campos retira obra sobre mulheres cientistas das escolas

A prefeitura de São José dos Campos (SP) recolheu...

A direita parlamentar parece ter perdido sua bússola moral

Com o objetivo de adular a extrema direita e...

Saiba quem são os deputados que propuseram o PL da Gravidez Infantil  

A Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira (12), a...

para lembrar

Por que o Brasil não consegue erradicar o trabalho escravo?

Quase 2 mil trabalhadores foram resgatados em condições análogas...

19/09 – Tracking Vox Populi/Band/iG: Após cinco dias, Dilma volta a subir

Com 53%, petista oscilou dois pontos dentro da margem...

Com PL do aborto, instituições temem mais casos de gravidez em meninas

Entre 1º de janeiro e 13 de maio deste ano, foram feitas 7.887 denúncias de estupro de vulnerável ao serviço Disque Direitos Humanos (Disque...

‘Criança não é mãe’: manifestantes em todo o Brasil protestam contra PL da Gravidez Infantil

Diversas cidades do país receberam na noite desta quinta-feira (13) atos de movimentos feministas contra o projeto de lei que equipara aborto a homicídio,...

É sórdido condenar vítima de estupro por aborto

É sórdido e apequena a política o Projeto de Lei que ameaça condenar por homicídio meninas, jovens e mulheres que interromperem gestações, ainda que...
-+=