Resenha: Carnaval no Feminino

A história do Carnaval baiano através da vivência feminina

Publicação da Sepromi resgata perfis de 38 mulheres que ajudaram a construir a folia

 

Com o advento das músicas consideradas depreciativas e algumas, até, acusadas de incentivar a violência, o exemplo positivo na associação da folia momesca com a figura da mulher vem de um órgão público. Carnaval no Feminino, livro-reportagem produzido pela Sepromi – Secretaria de Promoção da Igualdade, supre uma lacuna histórica: mostrar que a trajetória da maior festa popular do planeta é marcada pela presença – e trabalho intenso – de gerações de mulheres que se sucedem na linha de frente e nos bastidores do evento.

Concluído em março de 2010, mas distribuído no início deste ano, quando a energia feminina regerá a folia 2011 (a terça-feira de Carnaval cai em 08 de março, Dia Internacional da Mulher), o livro reúne 38 perfis de mulheres que tem fortes laços com a folia, seja porque são artistas e dirigentes de blocos, ou ainda porque trabalham na festa. Não faltam também histórias das matriarcas da folia, que há 60 anos quebraram tabus e preconceitos e conquistaram um espaço à duras penas.

Carnaval no Feminino, com estrutura narrativa constituída por breves introduções e um encadeamento de perfis temáticos, faz a ponte entre as histórias pessoais de cada uma das biografadas e a evolução da festa baiana. As personagens escolhidas tem histórias de puro deleite, mas também de muita decepção. Ainda assim, o tom não é amargo e nem lamuriento. É um belo compêndio de trajetórias pessoais de superação que, ao leitor mais atento e crítico, ajudam a compreender a cultura afrodescendente local.

No palco e na rua – Entre os nomes conhecidos da mídia, estão no livro: Margareth Menezes, Carla Visi, Márcia Short, Vera Lacerda, Alaíde do Feijão e Negra Jhô. Mas é nas histórias da ialorixá Jercília ou da ex-rainha do Ilê Aiyê Ginga (que usa apelido em referência a rainha Nginga, de Angola), que revela-se a construção de uma teia de solidariedade que remonta às estratégias de sobrevivência da época colonial.

Contando sobre o presente, mas em conexão ao passado, Carnaval no Feminino mostra-nos o universo das ganhadeiras, que vendiam comida com seus tabuleiros equilibrados na cabeça e hoje, na barraca ou isopor, tiram o sustento de famílias inteiras em seis noites de insônia. Nas páginas dos perfis está também o passado das caixinhas de pecúlio, para juntar o dinheiro da alforria de outrora, reatualizadas nas “caixas” que angariam fundos para botar o bloco na rua em tempos de patrocínio escasso – e mídia mais escassa ainda – aos grupos de estética e ideologia afro.

Não falta a musicalidade herdada da África, que atravessou gerações nos comandos dos terreiros de Candomblé. E, tampouco, deixa-se de tocar na ferida da exploração do trabalho das cordeiras (mais discriminadas que os cordeiros, por serem mulheres), mas que, paradoxalmente, justo na corda é que reside uma das únicas opções dos mais pobres se inserirem na folia, dentro desse contexto de grandes blocos e da indústria de mega trios da axé music.

A lamentar, só o fato da tiragem ser restrita a dez mil exemplares distribuídos entre entidades culturais, quando deveria estar também nas livrarias. Leitura obrigatória para mulheres – e homens – não apenas afrodescendentes, mas de todas as cores de Salvador, cidade que como dizem os poetas, tem nome de homem e “alma” de mulher.

Ficha Técnica:

Carnaval no Feminino

Secretaria de Promoção da Igualdade (Sepromi) – www.sepromi.ba.gov.br

161 páginas / Distribuição gratuita

*A resenha foi publicada na edição deste sábado, 26/02/2011, do Caderno 2+, de A TARDE e no blog Luz sobre a escrivaninha.

 

Fonte: Lista Racial

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