Respondemos com vida ao Partido da Morte

Enviado por / FontePor Atila Roque*, do O Globo

Eu tinha 23 anos quando experimentei pela primeira vez o gosto da morte violenta. A notícia me chegou sem aviso nem preparação, a quente. Meu pai tinha sido assassinado. Um único tiro, no coração, aos 51 anos, tinha encerrado a sua vida.

No dia seguinte, antes mesmo do funeral, na delegacia, a morte me foi outra vez oferendada, agora a frio: “Se você quiser, nós damos um jeito no bandido que fez isso”. Com o coração partido, um gosto amargo na boca, disse que não. Se soubessem quem era o assassino que arrancou para sempre um pedaço da vida de tantos que amavam o meu pai, que o prendessem.

Até hoje me sinto mal por não ter continuado a conversa para saber até onde ela iria. E me culpo por não ter tido a força emocional de pressionar por uma investigação. As razões e circunstâncias do assassinato de meu pai nunca foram devidamente esclarecidas. No jornal do dia seguinte se falou em tentativa de assalto. Pode ser, nunca saberemos. Mas nunca me arrependi de não aceitar a oferta de vingança sumária.

Essa lembrança voltou forte enquanto acompanhava, com horror, o desenrolar da chacina do Jacarezinho, onde 28 vidas foram perdidas, inclusive a do policial André Leonardo de Mello Frias, 48 anos. E, também, as de Jonathan, Jonas, Márcio, Carlos, Rômulo, Francisco, Cleyton, Natan, Maurício, Ray, Guilherme, Pedro, Luiz, Isaac, Richard, Omar, Marlon, Bruno, Pablo, John, Wagner, Matheus, Rodrigo, Toni, Diogo, Caio e Evandro. Os jovens mortos variavam entre 18 e 34 anos, a maioria negros.

As notícias da chacina trouxeram de volta a dor de perder alguém para a violência e a lembrança da sugestão da execução de um “bandido”, oferecida com naturalidade naquela delegacia, há mais de 30 anos. Naquela oferta estava a promessa de chacina, o princípio de todas as chacinas. As que vieram antes, as que vieram depois e as que ainda virão. A ideia violenta e bárbara que o policial pode matar impunemente porque ninguém se importa com a vida daquele classificado como bandido, em geral qualquer jovem negro morador de favelas e periferias.

A vida chacinada não merece nenhum luto. O corpo deve ser rapidamente descartado, sem perícia. A narrativa construída pela polícia é aquela que alimenta (e se alimenta) do racismo, dos preconceitos e do sentimento de abandono de uma sociedade que se acredita refém do crime e abandonada pelo Estado. Sempre foi essa a base do apoio aos grupos de extermínio e às operações policiais que deixam muitos corpos no chão, como nos habituamos no Brasil e no Rio de Janeiro, em particular.

Governantes, políticos e apresentadores de programas sensacionalistas sempre se alimentaram do discurso do “bandido bom é bandido morto”. Vimos isso acontecer novamente na entrevista coletiva, orgulhosa da matança no Jacarezinho, concedida pela Polícia Civil e nas declarações rasas e apressadas do General Mourão, reduzindo todos a bandidos. O governador do Rio, por sua vez, aproveitou para mobilizar apoio à violência policial, como tem sido a regra no estado.

A manipulação do medo, da raiva, do preconceito, historicamente está na origem de grandes sofrimentos. O fascismo se alimenta e manipula paixões demasiadamente humanas, dirigindo a violência contra um outro que precisa ser exterminado ou suprimido. Nos últimos tempos, temos visto essa tendência avançar perigosamente. O governo Bolsonaro e seus aliados apostam na mobilização de um programa político nunca apresentado de maneira tão descarada e desumana na história do Brasil, uma espécie de “Partido da Morte”.

O desprezo pela vida, que já levou a mais de 430 mil mortes por Covid, resultado das ações do Planalto, tem muito a ver com a chacina do Jacarezinho, assim como tem a ver o pouco-caso com o desaparecimento das crianças de Belford Roxo e com a impunidade de tantas mortes nas mãos da polícia.

A morte seletiva de populações desprezadas por uma visão racista e mesquinha com a vida humana é um programa do Partido da Morte. Contra isso precisamos adotar a máxima da escritora Conceição Evaristo: eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer. Nossas vozes e nossas vidas importam.

*Historiador, cientista político e diretor da Fundação Ford no Brasil

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