Os sinos dobram por mim, por ti e por nós

A expressão “por quem os sinos dobram” surgiu em um texto do poeta inglês John Donne (1572-1631) e foi imortalizada quando virou título do aclamado romance de Ernest Hemingway, publicado em 1940. Sinos badalam para convocar e anunciar fatos, inclusive mortes. No texto, Donne alerta que, ao badalar pelas mortes, os sinos também estão badalando por nós, sobreviventes. O espírito da frase é de que somos todos humanos e a morte de qualquer pessoa nos afeta e diminui, sendo um pouco nossa também.

Morreram até agora mais de 425 mil brasileiros na pandemia. Morreu na semana passada Paulo Gustavo e, exatamente um ano antes, morria Aldir Blanc. Morri um pouco com Aldir. Morri um pouco com Paulo. Morri no Jacarezinho. Morri com os 425 mil brasileiros(as). Os sinos dobraram por eles e por mim, mesmo que eu siga vivo.

Bate o desalento quando lembramos as tantas e tantas mortes que poderiam ter sido evitadas se tivéssemos um governo que coordenasse ações, definisse políticas, respeitasse a ciência e fosse sensível ao sofrimento das pessoas. Dizem os cientistas que mais da metade das mortes no Brasil poderiam ter sido evitadas, aproximadamente 210 mil vidas.

Ao mesmo tempo em que assistimos atônitos ao colapso brasileiro, observamos mudanças históricas nos EUA. Quando Biden assumiu, em 20 de janeiro, morriam 3.000 pessoas por dia e, somente cem dias depois, reduziram-se a 700 as mortes diárias. Graças, portanto, à combinação de uma política rigorosa de proteção e distanciamento com a vacinação em massa e ao apoio financeiro aos mais pobres, cai a menos de 1/4 o número de mortes.

Biden prometeu que nos mesmos cem dias vacinariam 100 milhões de pessoas. Cumpriu a promessa e renovou-a logo a seguir anunciando que até 4 de julho, data da independência, serão 200 milhões os vacinados. E pensar que poderíamos ter vivido algo parecido no Brasil, que teve oportunidade de comprar vacinas, mas não o fez. Este é o preço que paga uma população com a escolha de sua liderança maior: aqui estamos pagando com vidas.

Nos EUA, Biden estabelece metas ambiciosas para a vacinação, planos para a superação da pandemia e estímulo à retomada da economia, convoca a Cúpula do Clima. Exerce liderança, dá diretrizes, define metas ambiciosas e, ao cumpri-las, ganha credibilidade e confiança da sociedade. E agora acaba de anunciar, em decisão histórica, a quebra de patente das vacinas, enfrentando a poderosa indústria farmacêutica e passando a mensagem de que em momentos de crise aguda o interesse comum é maior do que o privado.

Claro que para tomar uma decisão dessa importância foi feito um balanço entre o prejuízo causado à indústria farmacêutica e o prejuízo que teria toda a sociedade, empresas inclusive, com o risco do surgimento de novas variantes devido ao lento processo de vacinação global. A decisão leva em conta múltiplos fatores, mas nem por isso pode ser desprezada, muito pelo contrário. É uma decisão rara e de estadista. Os outros países que disputam a geopolítica das vacinas —Inglaterra, União Europeia, Rússia e China—, não se dispuseram a abrir mão das patentes e permanecem na defesa de seus interesses e de suas empresas, em detrimento da vida.

Até agora, aproximadamente 1,2 bilhão de pessoas (15% da população) foram vacinadas no mundo, sendo 87% nos países mais ricos —enquanto nesses países a média é de 1 a cada 4 pessoas já vacinada, nos países mais pobres essa relação é de 1 para cada 500—, o que evidencia a desigualdade nas crises, sempre penalizando os mais vulneráveis.

Só que a pandemia não respeita as fronteiras dos países: o vírus não tem passaporte nem visto, mas entra onde bem entender. Neste caso, portanto, o interesse de um país confunde-se com o interesse de todos e os EUA avançaram muito ao propor a quebra das patentes. O prolongamento desta situação coloca em risco o sistema, com a imprevisibilidade do surgimento de variantes e a ciclotímica paralisação da economia. Diante disto, foram os EUA e o governo Biden que assumiram o enfrentamento deste desafio global e passaram a ser referência para outros países do mundo.

No Brasil, uma grande quantidade de vacinas poderia ter sido adquirida em meados de 2020 (120 milhões de doses da Coronavac e Pfizer), mas o governo federal desdenhou da crise e não assinou os contratos. Planos anticíclicos, a exemplo dos EUA, poderiam reduzir o sofrimento da população, especialmente a mais vulnerável, estimular as pequenas e médias empresas e gerar oportunidades de trabalho e renda.

Muito há para se investir em infraestrutura, saneamento, habitação, saúde, educação, ciência e mobilidade, temas que farão as cidades mais resilientes a crises sanitárias e climática. Mas o governo é um deserto de ideias e não surgem propostas que induzam a retomada da economia e a geração de empregos, enquanto 53 milhões de brasileiros estão em situação de pobreza.

Não há projeto de país. E em uma prova de falta de sensibilidade e bom senso, o orçamento recentemente aprovado reduz as verbas para saúde (-21,5%), educação (-27%) e ciência (-28,7%), justamente as pastas que mais necessitam de recursos, evidenciando que o governo não aprendeu minimamente as lições da pandemia.

O avanço nos EUA surgiu depois de um nefasto governo Trump e só é possível graças a articulação entre diferentes tendências que influenciam a gestão Biden. É importante lembrar que no Brasil há lideranças —na sociedade civil e na política (em diversos partidos)—, capazes de construir um projeto à altura do país. Resta que minimamente se articulem por algo maior, pela superação deste momento que vivemos.

Por quem os sinos dobram?

Dobram pelos que perdemos, mas também por mim, por ti, por nós. Dobram por quem foi e por quem fica. Por todos nós, ameaçados de morte e atônitos diante de nossa fragilidade e finitude. Se esta visão humanitária emergir desta experiência pandêmica, será possível sonhar com tempos melhores.

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