Respondendo racionalmente ao racismo cientificista do professor britânico da USP e a teoria da “Curva do Sino”.

Dr. Joseph Mengele (1911-1979), médico, cientista, músico, doutor em Medicina e Antropologia, pioneiro das pesquisas de manipulação genética em humanos, responsável por centenas de milhares de mortes e experimentos cruéis no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau.

Ciência, Ideologia e Cientificismo

Carlos Antonio Fragoso Guimarães, do  Para Além do Cérebro

Depois que o professor britânico, atualmente na USP,  Peter Leers Pearson, do Instituto de Biociências, tomou como “verdade científica” a tese defendida por James Watson da “superioridade da raça branca”, sem maiores reflexões e citações de outras pesquisas, convém destacar o problema da ciência, do cientificismo e do preconceito racial nas lides acadêmicas, que, feitas por pessoas, constituem-se de grupos de “especialistas” e, portanto,  de gente como todas as demais, mergulhadas em um contexto histórico e social específico que sustenta, financia, determina e dá as linhas gerais da pesquisa em ciência ou dos saberes que produzem e divulgam. Um título e/ou treinamento em determinada área de conhecimento não dá nem o dom da sabedoria global e muito menos uma transformação ética ou de caráter para melhor, reconhecendo a responsabilidade que se tem pelo saber adquirido sobre outras pessoas (veja-se o caso de Mengele e outros que usaram da ciência para fins anti-humanos) -, portanto, são passíveis de adotaram preferências e preconceitos culturais de aspectos irracionais e mesmo imorais, sem maiores reflexões.

É uma fraqueza bastante humana tomar as benesses que o treinamento científico e um pouco de sorte pode dar a alguns, com o reconhecimento de seus pares do campo acadêmico e científico, e daí achar que se sabe tudo, ou quase tudo. Dai para transformar a ciência, um empreendimento válido de busca de relações e explicações entre causas e efeitos entre eventos a partir de um método modelar de observação e/ou experimentação, para o cientificismo, que é a crença irracional que a ciência – e seu substrato filosófico clássico, o positivismo reducionista – é o único caminho válido e as explicações mecanicistas as únicas “verdadeiras”, é um pulo, constituindo um perigo ideológico e social, que foi apontado diversas vezes tanto por epistemólogos e filósofos da ciência, como Johannes Hessen, Thomas Kuhn, Paul Paul Feyerabend, Fritjof Capra, Edgar Morin e outros, quanto por filósofos da condição humana, fenomenólogos e existenciais, como Soren Kierkegaard, Friedrich Nietzsche, Karl Jaspers, Edmund Husserl, Miguel de Unamuno entre outros. Infelizmente, mesmo um grande cientista, como o co-descobridor da estrutura em dupla-hélice do DNA, como James Watson, pode cair nesta armadilha, como antes caira Lord Kelvin, Césare Lombroso, Fritz Harber (Prêmio Nobel de Química e criador do sórdido gás de cloro), etc .

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O sociólogo Anthony Giddens em seu livro As Consequências da Modernidade é bastante enfático ao apontar o sistema de “especialistas”- ou os sistemas peritos – como a atualização moderna dos antigos mestres e guardiães do conhecimento (sejam religiosos, políticos ou filosóficos).

Na sociedade moderna, mecanicista e cada vez mais impessoal, nos encontramos permanentemente dependentes da técnicos, especialistas ou, juntando ambos, de sistemas peritos abstratos, isto é, um complexo de ações e instrumentos técnicos criados e manitados por especialistas em múltiplos níveis e áreas, com os quais interagimos cotidianamente e que não exigem das pessoas um conhecimento aprofundado  sobre o seu funcionamento (a internet e o sistema bancário, por exemplo).
“Por sistemas peritos quero me referir a sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje”, esclarece Giddens (livro citado, p. 35 da edição da Unesp, 1991).  Estes sistemas, nos quais encontra-se integrado o conhecimento dos especialistas em áreas departamentais, influencia continuamente muitos dos aspectos da nossa percepção de mundo, do nosso ser e agir cotidianos. Por outro lado, os sistemas peritos atuam como mecanismos de diferenciação social e desencaixe – porque removem as relações sociais das imediações e percepção do contexto histórico e cultural ao mesmo tempo que criam novas classes com um poder construído em cima de um novo mito e promovem uma doação contínua de poder social aos especialistas como representantes de uma pretensa “verdade” compreendida e dominada por uns poucos “privilegiados”. Isso pode levar a uma nova forma de fundamentalismo com traços disformes pretensamente científicos, mas tão nocivo quanto as demais formas de fundamentalismo, seja religioso, seja político. Aliás, o cientificismo concretizou na forma de farsa o desejo de Augusto Comte: transformou-se numa espécie de religião laica.

Nas sociedades tradicionais, pré-modernas, a autoridade residia no saber de certos guardiães, assim socialmente entendidos: o padre, o xamã, o líder político, o curandeiro, o militar, pessoas que se diferenciavam pelo saber fazer, saber interpretar, saber agir dentro de critérios considerados legítimos e indispensáveis pela comunidade.  A legitimidade do moderno especialista também se funda no reconhecimento social baseado na crença do pretenso domínio de um saber, mas potencialmente, diante da maior democratização do conhecimento, este saber não pode ser um monopólio inquestionável e nem se pode estar seguro de que a posse deste garante-lhe que sua verdade será incontestável. Como bem esclarece  Antonio Ozai da Silva em seu estudo sobre Giddens, a sua posição enquanto perito advém basicamente do desequilíbrio entre as suas habilidades e informações e as do leigo”.

Para Giddens (p. 105):

1) a especialização é desincorporadora (abandono do conteúdo tradicional), não tem um local restrito (mas vários), é descentralizada e se baseia em princípios impessoais;

2) não está vinculada à verdade formular, mas à crença na possibilidade de que um saber “x” é correto;

3) o acúmulo de conhecimento especializado envolve processos intrínsecos de especialização;

4) a confiança em sistemas abstratos, sistemas peritos, não é gerada mecanicamente pelo saber em si, pelo saber esotérico de quem se especializou, mas no mito de que o especialista realmente sabe mais e melhor que os demais;

5) a especialização interage com a reflexividade institucional crescente, o que pressupõe processos contínuos de atualizações, ou seja, de perda e reapropriação de habilidades e conhecimentos.

Karl Popper foi outro epistemólogo que observou que a ciência não está edificada sobre pilares tão sólidos quanto comumente se imagina ou se é levado a imaginar, mas sobre a areia movediça das transformações da percepção, isto é, ela não tem fundamento tão estável. Modismos inteletcuais, teorias, explicações e interpretações mudam constantemente e o ceticismo metódico deveria ser, portanto, o seu princípio metodológico, assim como a ética deveria ser sua forma de controle.

A ciência, como mostra Giddens, Kuhn, Capra e outros, precisou se impor enquanto uma verdade real, pelo menos em seus primórdios, como uma áurea quase tão sagrada quanto o saber com quem ela rivalizava. Daí o desejo de Augusto Comte, pai do positivismo, de criar uma Igreja Positivista, uma Religião da Ciência – e todos sabemos o quão influente foi e, em certa medida, ainda é o positivismo. Deste desejo ficou o mito do novo sacerdócio da verdade laica e a busca constante para se tentar repassar uma áurea de científicidade a tudo, desde o uso “cirúrgico” de armas de destruição em massa às vendas de pasta de dentes “cientificamente” testadas e aprovadas. Porém, com o passar do tempo, ela perdeu em muito a áurea de autoridade que chegou a possuir. “De certa forma, isso provavelmente é resultado da desilusão com os benefícios que, associados à tecnologia, ela alega ter trazido para a humanidade”, ressalta Giddens (p. 109).

Se o conhecimento e técnicas adquiridos através da ciência, em si positivos e neutros, podem ser mal utilizadas pela propaganda para a venda de produtos, mesmo nocivos, o que dizer das teorias que podem ser utilizadas para “justificar” novas formas de segregação social, incluindo as “explicações genéticas” para a capacidade intelectual?

Vejamos uma discussão, feita por Cristiano Bodart, extraído do blog Café com Sociologia, sobre o viés preconceituoso e social presente na chamada “Teoria da Curva do Sino”, a partir de uma entrevista de Charles Murray, seguidor de James Watson, que retoma as antigas teses racistas da eugenia e do etnocentrismo da raça branca, e que foi tomada pelo Professor Peter Leers Pearson como “prova” da pretensa superioridade dos brancos em relação aos negros (e, se formos mais adiante na visão enviesada de Watson, aos latinos).

COTAS NA UNIVERSIDADE

 

Teoria da Curva do Sino e a naturalização das desigualdades sociais – Café com Sociologia

Por Cristiano Bodart

Você já ouviu falar da “Teoria da Curva do Sino”? Tal teoria defende, grosso modo, que negros e brancos têm QIs diferentes. Aponta que judeus têm, em média, um Quoficiente de Inteligência (QI) maior em relação as demais “raças”.  Afirma ainda que o QI dos brancos seria, em média, maior que dos negros. A teoria foi apresentada por James Watson e posteriormente (em 1994) por Charles Murray e Richard Herrnstein na obra “The Bell Curve” (A Curva do Sino, Free Press, 1994). Em 2007, a Folha de São Paulo fez uma entrevista com Charles Murray (aqui), que apresentou suas ideias ligadas a eugenia.

Nessa entrevista notamos contradições à teoria sociológica culturalista, aquela que defende que somos fruto de nossa construção cultural, a qual se dá por meio do processo de aculturação.

A “Teoria da Curva do Sino”, herdeira do etnocentrismo e do eurocentrismo, utiliza-se de testes de QIs, os quais estão influenciados pelo estado de pobreza. Aqui consiste o erro metodológico: testar a capacidade intelectual de pessoas que viveram em contextos sociais diferentes (contextos degradantes e contextos abastados, com acesso a cultura, saúde e esporte) e depois comparar os resultados.

Na entrevista dada a Folha de São Paulo, nota-se que o teórico se contradiz por várias vezes, reconhecendo a importância do contextos social e da experiência de vida de cada pessoa. Em sua entrevista existe, ao meu entender, um ponto merece ser levado em consideração: a questão de cotas raciais. Se reconhecemos que os problemas sociais estão ligados a situação social, não há motivos para termos cotas raciais, apenas. As cotas devem ser sociais (em primeira momento) e raciais (em segundo momento, mas não como definidor da cota). Ou seja, o indivíduo só poderá ser definido como cotista se sua condição social for desfavorável e a questão da cor da pele ser usado como um peso favorável sobre os brancos pobres, já que ser pobre negro é muito mais difícil do que ser pobre branco. Mas tal sistema de cota deve ser encarada como temporária e parte de outras políticas corretivas das disparidades de condições de acesso.

Teorias como essa têm sido utilizada para justificar históricas explorações do homem sobre o homem. Para justificar o  status quo, naturalizando as desigualdades sociais, como se estas não fossem resultados de nossa excludente história política.

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