Revelação do pop, Mahmundi produz o próprio disco e quer ser hit nas rádios

Enviado por / FontePor Tiago Dias, do UOL

Marcela Vale ainda trabalhava em uma loja da rede de fast food KFC, no Rio de Janeiro, quando fez o que qualquer aspirante a músico poderia fazer: criou um perfil no extinto MySpace.

Entre toneladas de gigabytes de mp3, que ela acumulava no HD para estudos diários, e os pedaços de frango frito no dia a dia do trabalho, a carioca guardava sonhos aos 19 anos. “Eu queria ser guitarrista e produzir alguém”, conta ao UOL.

Os alvos eram os amigos que se aventuravam em realities shows de música: “Quando vocês começaram a fazer muito sucesso, me chamem para tocar guitarra”, pedia.

Nos últimos 10 anos, Marcela trocou o trabalho no fast food para ser técnica de áudio. Colaborou para a captação de som em projetos para o cinema e pilotou a mesa de som nas apresentações no Circo Voador para apurar ainda mais sua paixão. O artista perfeito a ser produzido, porém, nunca apareceu.

Decidiu ela própria gravar suas ideias nos EPs “Efeito das Cores” e “Setembro”. Virou sensação indie na capital fluminense. “Não aparecia ninguém com o timbre que eu imaginava e também não tinha quem bancasse a produção de alguém de 19 anos”, se recorda, aos risos. “Essa inocência da idade é uma coisa engraçada, né?”.

Hoje, aos 29, ela trocou o Rio de Janeiro por São Paulo, e assumiu de vez o codinome artístico criado na época, Mahmundi, e que dá nome a um dos discos mais interessantes do ano.

Assim como planejava, a multi-instrumentista assina a produção e dividiu as guitarras, sintetizadores e bateria com os amigos Lux Ferreira e Felipe Vellozo.
“Todos artistas que eu amo são produtores e músicos. Sou apaixonada pelo Phil Collins, pelo Genesis, e gosto desse conceito de mixtape, de como fazer um disco e como ele vai influenciar minha vida e na vida das pessoas”, ela explica.

Música de rádio

“Mahmundi” é realmente um petardo pop, calcado em batidas eletrônicas e refrões que remetem ao melhor do que a MPB produziu nos anos 1980. É fácil encontrar ecos de Guilherme Arantes em “Eterno Verão” e Marina Lima (com quem é frequentemente comparada) em “Quase Sempre”. “Eu fico feliz, mas não consigo traduzir minha música assim. Só quero fazer coisas de harmonias boas e de bons timbres”, resume.

“Hit” abre o álbum como uma carta de intenções. “Final de verão / Fiz um hit para entoar você”, Marcela canta sob uma profusão de sintetizadores e levada reggae. É o que ela vislumbra para a carreira. “Quero que minha música soe popular, que minha mãe ouça e se sinta confortável. É boa essa sensação de que as pessoas estão com você no fone”, explica.

“As pessoas reclamam muito do sertanejo e do pagode. Acho isso tão pequeno. Tudo que está na boca do povo é maravilhoso. Das sinfonias de Bethoveen a Beatles, é tudo música pop, é hit. Não gosto de músicas que eu preciso ficar entendendo. Música boa vem e acontece, conversa com você quando você está mal e quando você está bem”, observa.

Solar e simpática, Marcela parece ser a personificação do clima que permeia no disco. Mas exatamente num momento de grande conquista, em que seu trabalho está prestes a ser descoberto a um público mais amplo, ainda tem algo que a derruba.

Na parte do agradecimento no encarte, ela dedica o trabalho a cinco jovens que ela não conhecia, mas que foram cruelmente mortos pela Polícia do Rio de Janeiro em dezembro de 2015.

Na época, ela morava ao lado do Madureira, lugar da chacina. A notícia caiu como uma bomba. “Eu sou negra, sou mulher, eu morava no subúrbio. Se eu estou voltando da casa dos meus amigos, e passo de carro com mais quatro amigos negros, eu posso ser alvejada”, desabafa.

“Esses cinco jovens não vão ver isso acontecendo. Não era minha pretensão, mas sei lá. Eles não vão ouvir as minhas músicas”, lamenta.

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