quarta-feira, agosto 10, 2022
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Se perdeu na tradução? Feminismo negro, interseccionalidade e política emancipatória

Neste ensaio, foco em como as ideias e práticas de interseccionalidade mudaram de forma e propósito conforme foram traduzidas nos diferentes contextos materiais, sociais e intelectuais.  Para tanto, mapeio as mudanças de contorno do feminismo negro e da interseccionalidade em três períodos: (1) como o feminismo negro, no contexto de movimento social, adotou perspectivas de raça, classe, gênero e sexualidade como sistemas de intersecção de poder, (2) como essas ideias chegaram à academia inicialmente sob a rubrica de estudos de raça/ classe/gênero e subsequentemente foram nomeadas e legitimadas como interseccionalidade; (3) as implicações da legitimação acadêmica de interseccionalidade para as políticas emancipatórias contemporâneas.

 

Por Patricia Hill Collins, da Revista Científica de Comunicação Social da FIAM-FAAM

Abstract

In this essay, I focus on how intersectionality’s ideas and practices shifted shape and purpose as they were translated within varying material, social and intellectual contexts. To focus my argument, I map the changing contours of Black feminism and intersectionality across three periods in time: (1) how Black feminism within social movement settings fostered perceptions of race, class, gender and sexuality as intersecting systems of power; (2) how these ideas travelled into the academy initially under the rubric of race/class/gender studies and subsequently became named and legitimated as intersectionality; and (3) the implications of intersectionality’s academic legitimation for contemporary emancipatory politics.

Keywords: black feminism; intersectionality; emancipatory politics.

 

Ou a liberdade é indivisível ou não é nada além da repetição de slogans e avanços temporários, míopes e passageiros, para poucos. Ou a liberdade é indivisível e trabalhamos em conjunto por ela ou você estará em busca de seus próprios interesses e eu dos meus June Jordan (Jordan, 1992, p. 190).

A intelectual afro-americana June Jordan não esteve interessada na liberdade somente para afro–americanos, mas para todas as pessoas oprimidas. Uma leitura atenta de seu trabalho mostra que seu foco na liberdade imprimiu um ímpeto interseccional ao feminismo negro assim como estreitou laços entre movimentos sociais do século XX. Como uma mulher negra que cresceu nos Estados Unidos, Jordan compreendeu como a ideia de liberdade foi fundamental para a cultura, a filosofia e a política afro-americana (Kelley, 2002; King, 1996; Ransby, 2003). Jordan estava familiarizada com o quanto uma história de racismo, sexismo, exploração de classe, xenofobia e homofobia contradiziam a ideologia dominante do sonho americano. Poetisa, ensaísta e crítica cultural, Jordan se recusou a perceber as injustiças sociais como naturais, normais ou inevitáveis e simplesmente ignorá-las para se dedicar à produção criativa. Em vez disso, seu trabalho intelectual e político refletiu uma política emancipatória. (Jordan, 1985; Jordan, 1992; Jordan, 1998).

Jordan se baseou no avanço de políticas emancipatórias, conquistadas pelos movimentos sociais, em que predominavam grandes ideias como liberdade, igualdade, justiça social e democracia participativa. No trabalho de Jordan, assim como no de Angela Davis, Toni Cade Bambara, Shirley Chisholm, Alice Walker, Audre Lorde e outras feministas negras do período, pode-se encontrar uma declaração forte e precoce sobre interseccionalidade, em que a “liberdade é indivisível”, tanto intelectualmente quando nas múltiplas lutas políticas. Jordan argumentou que o feminismo negro exigia esforços contínuos para desmantelar a intersecção, as relações estruturais de poder de raça, classe, gênero e sexualidade, que reproduziram as injustiças sociais de uma geração à outra. Mas ela também viu que as mulheres afro-americanas jamais poderiam ser livres se perseguissem apenas o próprio interesse. A luta não tratava apenas de análises abstratas da liberdade, mas sobre as formas que as iniciativas de justiça social deveriam assumir para dar vida a políticas emancipatórias. A ideia de interseccionalidade e a solidariedade política que a sustentava tinham o objetivo de tornar a liberdade significativa para pessoas cujas experiências de vida estavam circunscritas pelo racismo, o  sexismo, a exploração de classe, o nacionalismo, a religião e a homofobia. A luta por liberdade de que June Jordan participou e as políticas emancipatórias em que esteve envolvida foram árduas, mas também cheias de esperança.

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Se perdeu na tradução? Feminismo negro, interseccionalidade e política emancipatória

 

 

 

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