Sem esmalte

Você deve ser um cara legal, Miguel. E a questão do feminismo é tão séria e importante que mesmo caras legais como você escrevem tolices

Por Maria Ribeiro Do O Globo

Miguel,

Acabei de ler seu artigo “As feminazis e as mulheres do Brasil”, publicado ontem, neste mesmo bat-espaço, neste mesmo jornal, e queria esclarecer duas ou três coisinhas. Ou confundir, pro Tom Zé ficar mais feliz. Olha, Miguel, não sei se você acompanha os números do feminicídio no Brasil. Imagino que sim. Isso sem falar nos estupros, nos salários desiguais, no assédio, na exploração sexual, na jornada tripla. Eu sei, esse papo tá chato, estamos meio monotemáticas. Mas tem tanta coisa chata que a gente tem que conviver, não é? Dentista, por exemplo. Um porre. A violência na Maré. Inadmissível. Não é um assunto agradável, mas meio que não dá pra não falar. Inclusive vai rolar uma manifestação agora no dia 24, você tá convidado. A gente pode ir juntos e depois conversar sobre o “Paterson”, último filme do Jim Jarmusch, você viu? Achei gênio.

Eu sei. Tá rolando uma patrulha. Eu mesma já me peguei sendo consideravelmente preconceituosa. Como assim a Juliana Paes vem falar que é feminista de batom? Acontece o seguinte. Bom, você nos chama — nós, as feministas de 2017, de “Sem Esmalte”. Pois bem. A “Sem Esmalte” aqui precisa admitir que você tem certa razão quando fala de despeito. Eu tenho mesmo inveja da Juliana Paes. A mulher já é linda, talentosa, tem aquele corpo, aquele sorriso, aquela leveza, e ainda quer ser engajada? Nananinanão. Não se pode ter tudo nessa vida. Ela que seja linda e não venha dar opinião política (contém alguma ironia, ok?).

Também concordo quando você fala de apartheid. De fato. Estamos vivendo uma certa autoafirmação, de modo que às vezes é necessário algum radicalismo. Você acha que não me doeu não relativizar o episódio José Mayer? Doeu muito. Zé é meu amigo. Sua mulher, Vera Fajardo, é minha comadre, sem falar que é uma das mulheres mais incríveis que conheço. Mas o amor, aqui, é dizer “não”, como fazemos com filhos pequenos. Porque não pode mais, Miguel. Nem fumar no avião, nem andar na frente sem cinto, nem assediar colega de trabalho. Não pode mais.

Quando uma figurinista da Globo de 28 anos toma coragem e escreve um artigo denunciando um ídolo nacional, ela sinaliza pra uma menina de 16, lá no sertão do Piauí, onde o machismo faz a festa ainda mais que aqui nas cidades grandes, que, talvez, quem sabe, uma hora, ela possa ter voz contra um patrão abusador. E ela também sinalizou pra Sem Esmalte aqui, acredita? Uma Sem Esmalte do Rio de Janeiro e com terceiro grau completo, supostamente forte, que já conta 41 anos, inscrita no CPF, e que ainda assim passa por situações do século XVIII, como se sentir constrangida por jantar sozinha em restaurantes com pegada romântica.

Dei um Google em você. Desculpa a minha ignorância — enorme e infinita —, mas eu não te conhecia. Você é um jornalista importante, Miguel. Escreveu livros, é poeta, escreveu sobre o Mário de Andrade, manja de Tunga, trabalhou no “Última Hora”, era vizinho e fã do Antonio Candido, foi editor da Ilustrada e deste Segundo Caderno aqui. Você deve ser um cara legal. E a questão do feminismo é tão séria e importante que mesmo caras legais como você escrevem tolices.

Desculpa, parceiro, mas dizer que as mulheres brigaram por espaço para se envolver em falcatruas, e usar Adriana Ancelmo e Mônica Moura como exemplo é de uma ingenuidade imensurável. A corrupção é tão democrática quanto a infidelidade, Miguel. E, nesse caso, além de democrática, é machista. Duas mulheres fazendo tabelinha do mal com seus maridos é de uma tristeza shakesperiana. Antes tivessem roubado sozinhas e por conta própria.

Mas volto ao seu texto. Sobre Eleonora Menicucci, socióloga e ex-ministra da secretaria de Políticas para as Mulheres de Dilma Rousseff, e que acaba de ser condenada — por uma juíza mulher — a pagar 10 mil reais de danos morais ao “ator” Alexandre Frota por tê-lo chamado de estuprador, você apenas cita a sua decepção (dela, Eleonora) com a falta de sororidade, ou cumplicidade feminina, pra usar um termo menos da moda. Mas você conhece bem a história? Ouviu o sujeito falar na televisão que havia “finalizado uma mulher já desmaiada”? Conhece suas declarações? Por outro lado, você tem razão em questionar a bandeira do gênero nesse caso. Qualquer juiz honrado, homem ou mulher, deveria estar do lado oposto ao do Alexandre Frota.

Enfim. Vou ler seus livros, Miguel. Somos colegas de jornal, sentimos a morte do Antonio Candido, acho que estamos no mesmo time. Te digo, de coração, que precisamos ser mesmo muito feministas porque ainda somos machistas. Não nos desqualifique, companheiro. Releve os exageros e as unhas malfeitas, e amplie o quadro. Também sou fã da beleza, e ela pode ser maior do que você sugere, independendo inclusive de idade, sexo e atributos óbvios.

Tamo junto, Juliana. Não sou de batom, mas não vivo sem rímel e lápis preto.

+ sobre o tema

Boston elege 1ª mulher prefeita após 200 anos governada por homens brancos

leita prefeita de Boston com bandeiras progressistas, Michelle Wu...

Seis mulheres indígenas que vale a pena seguir nas redes

Elas estão na linha de frente da luta contra...

Colômbia descriminaliza aborto até a 24ª semana de gestação

A Corte Constitucional da Colômbia decidiu, nesta segunda-feira (21),...

Exploração sexual na Espanha: uns traficam, outros montam o bordel

Fonte: UOL Notícias Mónica Ceberio Belaza e Álvaro de Cózar Em...

para lembrar

Estudos de gênero, trajetórias de mulheres e história das ciências no Brasil

Apresentação do trabalho de pesquisa da Dra. Mariana M....

Garoto de 8 anos ganha aula de maquiagem de presente de natal

Ethan, fã da drag queen Jefree Star, ganhou de...
spot_imgspot_img

Medo de gênero afeta de conservadores a feministas, afirma Judith Butler

A primeira coisa que fiz ao ler o novo livro de Judith Butler, "Quem Tem Medo de Gênero?", foi procurar a palavra "fantasma", que aparece 41...

Sonia Guimarães, a primeira mulher negra doutora em Física no Brasil: ‘é tudo ainda muito branco e masculino’

Sonia Guimarães subverte alguns estereótipos de cientistas que vêm à mente. Perfis sisudos e discretos à la Albert Einstein e Nicola Tesla dão espaço...

A Justiça tem nome de mulher?

Dez anos. Uma década. Esse foi o tempo que Ana Paula Oliveira esperou para testemunhar o julgamento sobre o assassinato de seu filho, o jovem Johnatha...
-+=