Seu ‘amor livre’ não chega na favela

Durante minha vida nunca havia imaginado que existiria uma outra forma de relacionamento. O contexto que estou inserido, é um contexto extremamente machista e LGBTfobico.

Enviado por  Ítalo Barbosa de Oliveira para o Portal Geledés 

Foto: Kevin Kozicki/Image Source/Getty Images

Vivenciava, dentro de casa, um relacionamento extremamente abusivo. O machismo sempre esteve presente por onde andei, seja em casa ou na rua, onde passava maior parte do meu tempo.

Durante minha infância/adolescência, sempre estive muito próximo dá vida real nas ruas. Cresci muito próximo de traficantes, usuários, aviãozinho, assaltantes, enfim, mais uma vez, o machismo esteve próximo de mim. O crime é machista.

Meus pais, com muito esforço, me puseram pra estudar fora do bairro, para me afastar das amizades que fiz aqui. Chegando na escola, um outro mundo.
Eu era o que pode-se dizer, o mais vivido. Era o negro, gordo, numa escola particular.

Entre os homens, era o centro. Sempre tive muita vivência pra contar. Lembro de quando falava de cocaína, maconha… Eles mal bebiam cachaça, ainda.
Entre as meninas, chamava atenção daquelas que se encantam pelos ‘almas sebosas’.

Mas no rolê, era o mundo real. Era o negro, quase sempre sem dinheiro no bolso. Os caras fortaleciam esse corre. Não me deixavam na mão.
Mas nas relações afetivas? Aí é diferente. As preferências são sempre os outros. Era foda…

Sempre tive uma carência muito grande afetivamente. Em casa, não tinha nenhuma figura que pudesse me encostar.
Chorar? Era vergonhoso, não tinha nenhum ombro pra escorar também. Sempre quis alguém… Nunca havia parado pra pensar sobre isso.

Mas depois descobri um tal de ‘amor livre’. Essas coisas que a classe média adora discutir na universidade.
Tive oportunidade de conhecer alguns adeptos, quase todos atendem aos mesmos padrões. Geralmente são os ‘bonitos’ esteticamente – que atendem aos padrões-, que nunca sentiram o gosto do desprezo, da humilhação afetiva, os secundários do rolê. Se aproximam mais da galera que geralmente é paquerado, que é procurado pra passar o número do celular, enfim…

Aqui, no mundo real, na periferia, o negro já é secundarizado. Imagina a mulher preta.
Esse suposto mundo desconstruido, na verdade, é só um outro padrão formulado. A lógica monogâmica é abusiva e cruel.
Mas sua desconstrução, não pode atropelar a subjetividade de nenhum favelado.
O papo fora do seu mundinho, é diferente.


 

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

+ sobre o tema

Capa de NOVA ESCOLA sobre gênero tem repercussão recorde

Imagem do menino Romeo com roupa de princesa, que...

Ministra Luiza Bairros destaca programas da Seppir no Encontro Nacional com Novos Prefeitos e Prefeitas

Ministra Luiza Bairros destaca programas da Seppir no Encontro...

Mãos femininas ordenham o autossustento

Assunção, Paraguai, 30/7/2010 – Há um ano, Ramona Pereira...

Sete ensinamentos do feminismo para a teoria política

O feminismo, em suas diferentes vertentes, desvelou os mecanismos...

para lembrar

Governo quer livro didático com temática homossexual

O governo quer que sejam incluídos nos livros didáticos...

A mãe preta já encheu sua mamadeira, vá mamar em outro lugar!

Esse negócio de mãe preta ser leiteira já encheu...

Desmentida por José Serra, Sheila reafirma que mulher dele fez aborto

'É muito fácil declarar alguns valores que o mundo...

Recheados de estereótipos, sites unem alemães a esposas brasileiras

Antropóloga analisou sites e agências de casamento especializadas em...
spot_imgspot_img

1ª Parada Negra LGBT de BH acontece no próximo sábado (25/5)

No próximo sábado (25/5), data que marca o Dia da África, acontece em Belo Horizonte, a 1ª edição da Parada Negra LGBT. O evento acontece...

Em ano olímpico, Rebeca Andrade ganha homenagem da Barbie e quer inspirar outros sonhos

Rebeca Andrade, 25, possui uma longa lista de conquistas. A ginasta é medalhista olímpica, vencedora de ouro e prata, bicampeã mundial, medalhas nos jogos Pan-Americanos...

O mapa da LGBTfobia em São Paulo

970%: este foi o aumento da violência contra pessoas LGBTQIA+ na cidade de São Paulo entre 2015 e 2023, segundo os registros dos serviços de saúde. Trata-se de...
-+=