Sobre brancos “pisando em ovos” (com as discussões raciais)

FONTEPor Fabiane Albuquerque, enviado ao Portal Geledés
Foto: Adobe

Na sociologia aprendemos uma regra básica: se um fenômeno se manifesta em diversos indivíduos, ele existe fora deles. Por isso é geral, é social. E, se é geral, é estrutural e estruturante. Trata-se de mulheres brancas que, com frequência, escrevem em perfis e páginas pretas dizendo estarem “pisando em ovos”, com relação às discussões raciais e às práticas antirracistas. Elas manifestam grande desconforto e incômodo, dizendo serem “mal interpretadas”, acusadas de mal intencionadas ou incoerentes nos seus discursos e ações. O mais interessante deste fenômeno, de “pisar em ovos”, é que elas manifestam isso abertamente para negros e negras, através de desabafos, reclamações e, muitas delas, terminam com palavras agressivas e/ou ataques. É pensando nelas que escrevo as reflexões a seguir. 

Recentemente, uma feminista branca escreveu-me o seguinte: “Estou exausta de ser chamada de branca. Tudo o que eu faço é porque sou branca”. Li, reli e pensei: “Olha só, ela, que não conheço, vem até mim, expressar a sua exaustão”. Não houve uma aproximação de solidariedade para com o racismo que vivencio, mas para falar de si mesma. A sua exaustão devia-se ao fato de ser, o tempo todo, racializada, assim como fazem conosco. A nossa racialização tem nos matado há 500 anos, privado da riqueza, de participar da política e da cultura ao pé de igualdade com os brancos. E, quem sobreviveu, ainda tem que assistir ao extermínio dos seus todos os dias. Mas eu jamais fui numa página de mulher branca dizer que estou exausta, esperando compreensão, pois o meu cansaço é escoado de outro modo. Após insistir por diversos dias no mesmo assunto, constatando que eu não lhe daria a atenção e o afago que queria, ela escreveu: “Ouvi de um amigo negro, que deixou o Movimento Negro, que estão organizando a morte de gente branca”. Ela ouviu de alguém, ela não foi ameaçada por nenhum negro. Lhe respondi indicando uma leitura fundamental: “Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX”. É óbvio que ela não leu e sequer levou em conta a indicação. Reparem, de novo o seu suposto antirracismo não está centrado nos negros, mas em si mesma, nos seus medos, no seu cansaço, no seu ego. E, a mulher continuou insistindo até que um belo dia, depois de uma publicação sobre um trecho racista de um dos livros de Simone de Beauvoir, escreveu: 

Foto: Enviada pela autora

Ora, Ora, Ora! Em nenhum momento a ofendi ou levei a discussão para o lado pessoal. O que fiz foi reforçar o fato de ela ser branca. Porque brancos ficam tão ofendidos em serem chamados de brancos? Porque perdem o lugar da universalidade, da não marca, dos que veem sem serem vistos, dos que classificam sem serem classificados. Não demorou muito para outras mulheres aparecerem dizendo que estão se sentindo como se estivessem “pisando em ovos”. O significado desta expressão é: agir com muita cautela. Quem disse que é negativo? Vamos para o problema.

A maioria das mulheres brancas, das camadas médias e altas, nunca se relacionaram com negros e negras em posição de igualdade. Sempre foram as professoras, as patroas, as clientes…  Sempre falaram e pouco se importaram com a visão de mundo da população negra. E, quando se importavam, eram à frente de Organizações Sociais e de Assistência, agindo de forma paternalista, com uma proteção que não deixa o outro ser por conta própria. É sempre o outro que precisa delas, da sua bondade, conhecimento, valores e ajuda material. Agora que o debate sobre racismo se impôs na sociedade brasileira e tantas vozes negras afirmaram-se com legitimidade, elas acham a postura de cautela uma afronta à postura de liberdade incondicional que sempre tiveram, inclusive estar, o tempo todo, na posição de protagonistas. 

Num texto que publiquei no Portal Geledes, mulheres brancas disseram que se sentem pisando em ovos, pois tudo o que fazem, pode ser interpretado como falso antirracismo. Não faltaram vozes para as consolar, inclusive de negros, adulando-as e pedindo-lhes para não desistirem da luta. Esta postura é uma chantagem conosco. Repito, é uma chantagem. Um branco antirracista não precisa de legitimidade de ninguém, nem de brancos, nem de negros, para lutar. A luta não requer confirmação o tempo todo dos oprimidos, sobre estarem certos ou errados. Mulheres que dizem pisar em ovos estão, no fundo, dizendo: “sejam mais dóceis conosco, porque podemos abandonar vocês a qualquer momento”. Pois é justamente não sendo dóceis, nem seguindo os protocolos da branquitude, que testamos os aliados. Se pisar em ovos é desconfortável, imagem caminhar, descalças, sob espinhos uma vida inteira!

Quando percebem que a chantagem não funciona, passam a patologizar a ativista negra com frases como “raivosa”, “amarga”, “vai curar as suas feridas”. Parecem que todas têm o mesmo repertório, pois agem, na maioria das vezes, de forma ordenada. Primeiro a abordagem fazendo-se de vítimas, receosas de se machucarem com as “cascas dos ovos”, depois angariam comoção de alguns e, se não funcionar, agridem ou choram. O desconforto é saudável nas discussões e na construção do conhecimento, mas, para brancos, que nunca o experimentaram em relação aos negros, é uma grande desorientação. Veja, a pessoa que diz pisar em ovos, não consegue se deslocar para tentar ver as coisas do ponto de vista de negros e negras, são os negros que precisam ir até ela e tentar explicar de forma que se sinta confortável, na linguagem dela, no tom de voz que ela escolheu.

Brancos e brancas deste tipo, com demasiada sensibilidade, precisam de uma Jane Elliot na vida. E falo sério. Jane Elliott, estadunidense branca antirracista, fez um experimento com pessoas brancas nos Estados Unidos, mostrado no documentário Olhos Azuis, de 1996. A professora, indignada com a segregação racial e o tratamento que os negros recebiam, abraçou a luta e todas as suas consequências. Inclusive aquela de ter os filhos agredidos na escola e o negócio dos pais boicotado até a falência pelos seus iguais. Ela jamais se lamentou dos negros (pelo menos publicamente) ou reclamou das diversas formas de militância, se o que fazia agradava ou não, nem foi atrás pedir bajulação. Neste ponto, acho que a segregação dos Estados Unidos tornou os antirracistas daquele país menos hipócritas, pois, por lá, se é antirracista ou não, e isso é claramente demonstrado, não só em palavras, mas em ações que podem resultar em mortes. Não tivemos uma lei proibindo casamentos interraciais, uma lei Jim Crow, que segregou negros em guetos, por isso, brancos devem claramente demonstrar de que lado estão. No Brasil, o racismo dissimulado, deixou os “antirracistas” mais “gelatinosos”, lê-se, inconsistentes. 

No documentário, Elliot colocou um grupo de brancos, todos de olhos azuis, para experimentarem na pele o que é ser rebaixado apenas pelas características físicas, como a cor dos olhos. E, o grupo que faria isto era formado por brancos e negros. As provocações que ela faz, durante os encontros, é de tirar qualquer branco da zona de conforto, provocando emoções das mais variáveis, ferindo a sensibilidade de muitos dos presentes. Ela jamais cedeu a esta sensibilidade, ao choro, ao constrangimento. Em uma das cenas, uma mulher branca que deveria humilhar um branco de olhos azuis diz: “Eu não posso fazer isso. Não é da minha índole”. Elliot pergunta se ela já impediu algum branco de fazer isso com um negro e a resposta foi negativa. A conclusão é que quando você não age de forma a evitar, você soma-se ao racismo. E a índole neste caso? 

Os brancos e brancas brasileiras precisam de algo assim, que os tirem desta sensibilidade pedante e os façam confrontar os próprios limites para a luta. Antirracismo não procura aceitação e confirmação de negros, é uma escolha ética de vida que deve ser seguida mesmo nas piores das condições. Buscar conforto, palavras de incentivo com negros e negras é, de novo, nos colocar na função de cuidadoras e serviçais emocionais. Brancos que precisam disso, pesam muito mais na luta do que ajudam. 


Fabiane Albuquerque e “Cartas a um homem negro que amei”. (Fonte: Arquivo FA)

Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia e escritora


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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