terça-feira, setembro 21, 2021
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Sou branca, privilegiada, mas quero ao meu lado um país mestiço, diverso, diz Neca Setubal, do Itaú

Em 2 anos, Brasil passou a se ver racista, afirma; ela agora cuida da diversidade no banco após décadas dedicadas a causas sociais

Maria Alice Setubal, herdeira do conglomerado Itaú, celebrou há pouco seus 70 anos e após décadas se dedicando a questões sociais e nunca diretamente aos negócios do banco de sua família resolveu encarar uma nova frente de atuação: ser protagonista das demandas de diversidade tanto dentro das empresas das quais é acionista quanto em suas falas como figura pública.

Neca Setubal, como também é conhecida, passou a colocar o valor do diverso como norte de suas ideias seja no campo da educação, em que faz críticas severas à atual gestão do MEC, seja em um possível confronto político, em 2022, com Lula e Bolsonaro em uma disputa de segundo turno à presidência.

“Nessa situação, como eleitora, votaria Lula. Como cidadã e como figura pública, vejo que Lula tem um compromisso com a defesa da democracia e com todas as suas instituições. Ele também se compromete com o projeto de um país mais justo, menos desigual, no qual as diferentes vozes, brancas, negras e indígenas, poderão ser ouvidas.”

Cientista social pela USP, à frente da Fundação Tide Setubal, que dá suportes em vários níveis à população de periferia, Neca falou também sobre a importância da defesa da democracia e sobre o avanço do extremismo de direita no país.

Você nunca teve uma ligação direta com o banco Itaú, mas, nos últimos anos, está se dedicando à questão da diversidade na empresa. Como levar uma experiência do mundo social para um ambiente capitalista? São mundos diferentes, mas que estão dialogando mais. Tem a questão do ESG [sigla em inglês para práticas ambientais, sociais e de governança] que virou moda no Brasil, mas que veio para ficar. Talvez as coisas não aconteçam na velocidade que eu gostaria, mas estamos virando chaves. Muitas empresas, talvez não a maioria, estão mais a frente em questões de diversidade que as próprias organizações sociais. A área social tem um papel muito importante de pautar essa agenda nas fundações empresariais, mas, muitas vezes, também aprenderem com as empresas.

O Itaú tem trabalhado bem internamente as diversidades, com muitos projetos apoiados, inclusive que visam questões geracionais e regionais. São muitas frentes abertas. Há um esforço, mas é difícil. É um banco muito grande, com diversas áreas e lideranças. Não está todo mundo na mesma página ainda, mas há uma direção, um compromisso com várias agendas firmadas publicamente.

Mexer esses ponteiros exige muito esforço, o tempo todo. Se você não se mantém firme, derrapa e volta, os índices [de inclusão] baixam. É um esforço de mudança que não é fácil. É algo constante, de muita resiliência e engajamento.

Existe um compromisso real, que ganha consistência, mas eu gostaria que fosse mais rápido.

Mas os esforços hoje não estão muito centrados em raça, gênero e comunidade LGBTQIA+? Não tem ficado gente de fora? Sempre tem gente de fora. Diversidade de religião, por exemplo, é algo que ainda é pouco explorado. A questão regional também é importante, o quebrar o olhar paulistano sobre as coisas, por exemplo. Cada grupo tem suas subdivisões, seus mundos e suas demandas.

Tenho sido chamada para falar muito de questões de gênero e raça, devido ao trabalho na Fundação Tide Setubal. É um desejo social que veio com muita força, de vários lugares. Saímos de um conceito de democracia racial inexistente, que perdurou como um mito no Brasil, para, em dois anos, nos reconhecermos como um país racista, com o racismo estrutural.

Mas ainda há muito marketing e nem tanta efetividade nas ações de diversidade. Há indicadores concretos, que não são perfeitos, que podem mostrar resultados objetivos de inclusão. Há também o público que está muito atento para pressionar e para cobrar se houver derrapadas de empresas e isso pode levar a consequências graves. As empresas têm levado em conta tudo isso. Mas isso tudo não elimina o puro marketing. O fundamental é tomar uma decisão de mudança, virar a chave, conhecer.

Mas por que é preciso mudar? Que país você sonha e quer construir? Eu quero um país que seja brasileiro de verdade, que traga todos juntos. Não é modelo europeu ou americano, é o nosso modelo que precisa ser construído, um país diverso de verdade. Para esse país eu tenho atuado em várias frentes e sonho que tenha junto as questões raciais e de diversidade. Meu lugar de fala é de uma pessoa branca, privilegiada, mas que quer junto, ao meu lado, um país mestiço, diverso. Minha história foi construída assim. É ambíguo do lugar que estou, da história familiar que eu tenho, mas acho que sou respeitada por minhas ações ao longo da vida e posso falar dessa forma. Há os querem manter o rumo de fazer só um pouquinho e manter seus privilégios, mas há o rumo que eu sigo que é o de trazer todos juntos.

Você nunca pensou em desistir, em morar nas Bahamas? Muitos amigos falam que se Bolsonaro ganhar novamente já estão com tudo em vista para sair do Brasil. Eu digo que não, que nós temos de ficar e lutar tudo o que podemos para ele não ganhar. Qual a nossa responsabilidade de criar um país diferente? Em um curtíssimo prazo, daqui a 2022, é preciso fazer todo o possível para construir um espaço político de defesa da democracia. Neste momento é disso que se trata, união de forças que vão defender as instituições democráticas formais, mais justo e sustentável. Não dá para pensar para onde a gente vai, temos que pensar no que cada um pode fazer nesse prazo, mesmo que seja a atuação no grupo de WhatsApp da família. Tem dias difíceis, tem dias que você não acredita em quem se declara bolsonarista, mas, como dizia Eduardo Campos [morto em 2014, durante campanha eleitoral à presidência] não vamos desistir do Brasil.

A polarização segue forte no país, mesmo em um momento trágico, de pandemia. Isso assusta para um cenário de futuro eleitoral? Infelizmente, 2022 vai ser pior, mais violento, o que é minha maior preocupação. A polarização tem um lado extremado, que é o da extrema direita, que é muito violento. Não sou eu quem digo, o próprio presidente Bolsonaro que se autoexplica na questão das armas, por exemplo, que acha que pode xingar todo o mundo. O respeito à dignidade, aos direitos humanos não é a questão colocada. Do outro lado, está um grupo mais difuso, de várias vertentes, de esquerda, de extrema esquerda, que é pouco representada no Brasil, de centro-esquerda, de centro e de direita democrática, que se opõe ao primeiro. Se houver um segundo turno Bolsonaro e Lula, a tendência é de uma violência grande. Mas, o que vemos agora, é um extremo apenas.

Esse grupo mais violento é mais consistente, organizado, e tem apoio ideológico de fora. Ele ocupou um espaço que outros grupos não viram. Ele tem muitos representantes nas redes sociais, tem respostas para tudo e fake news para tudo. O outro lado ainda é muito disperso, com muitos matizes ideológicos. É difícil se contrapor a ele porque o discurso não se pauta pelas regras democráticas. Ao contrário, é o discurso de destruir as regras e se opor a isso é muito difícil. Você nunca sabe para onde eles vão atirar, o foco dele é sempre destruir. É assustador.

Um mito que caiu na pandemia é o de que somos um país pacífico, alegre e hospitaleiro. Somos, mas também somos muito violentos. Nossa história é de violência extrema. Estou assustada com o que estamos vivendo e com o que poderemos viver no futuro.

E o que você faria, como cidadã e como figura pública, num cenário Lula e Bolsonaro em um segundo turno em 2022? Como eleitora, votaria Lula. Como cidadã e como figura pública, vejo que Lula tem um compromisso com a defesa da democracia e com todas as suas instituições. Ele também se compromete com o projeto de um país mais justo, menos desigual, no qual as diferentes vozes, brancas, negras e indígenas, poderão ser ouvidas e apresentarem suas demandas e visões de mundo. Finalmente, acredito que Lula irá se comprometer com os acordos internacionais das metas referentes às mudanças climáticas, que são muito importantes para o Brasil. É muito importante que as lideranças do país se posicionem publicamente na defesa das instituições democráticas, comprometendo-se com uma visão civilizatória dos direitos humanos.

Como você, que atuou por décadas na educação, tem acompanhado os efeitos da pandemia nessa área? Chorei, literalmente, em vários momentos ao acompanhar esse drama. É uma tragédia. Vamos sentir o preço da defasagem escolar muito rapidamente. Sentiremos nos atendimentos, nas empresas, no nível de mão de obra, nos serviços e será dramático. Tudo piorou e as desigualdades vão aumentar ainda mais. Acompanhamos uma inexistência total de uma política de educação. O MEC foi totalmente omisso, tem responsabilidade enorme nesse resultado, não buscou parcerias, não reuniu governadores, organizações, nada. É uma responsabilidade enorme que temos de botar no ministério.

Raio-x

Maria Alice Setubal, 70

Formada em ciências sociais pela USP, com mestrado em ciência política e doutorado em psicologia da educação

Presidente do Conselho da Fundação Tide Setubal e uma das herdeiras do grupo Itaú

Em 2005, venceu o Prêmio Jabuti com projeto multimídia “Terra Paulista: Histórias, Artes, Costumes”

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