Tema recorrente na política, o aborto é um problema grave de saúde

Uma romaria de mulheres procura diariamente os hospitais públicos brasileiros. Depois de abortos clandestinos e malsucedidos, elas precisam de atendimento médico com urgência. São, em média, 256 a cada dia, 10 por hora. A mesma quantidade de vítimas de clínicas ou medicamentos clandestinos enfrenta a decisão pelo aborto sem qualquer suporte médico.

Por: Vinicius Sassine

Os hospitais mantidos pelos repasses do Sistema Único de Saúde (SUS) não fazem tantas cirurgias quanto as curetagens. São procedimentos que exigem anestesia, geral ou local, para a retirada de restos de placenta do útero. Necessárias depois de abortos provocados, são 500 curetagens por dia. É mais do que o dobro de procedimentos de retirada de útero e o triplo da quantidade de cirurgias de períneo, as duas cirurgias mais frequentes pelo SUS, depois da curetagem.

Em qualquer site de busca na internet, a digitação das palavras misoprostol e Citotec garante um retorno fácil de informações. Para misoprostol, o primeiro retorno é “onde comprar misoprostol”. Para Citotec, “Citotec preço”. O medicamento, indicado para combater úlcera gástrica, é amplamente vendido na rede a mulheres interessadas em abortar. A proibição da venda, em 1991, não inibiu o consumo do produto como abortivo. É, há 20 anos, o método mais utilizado pelas brasileiras para dar fim a uma gravidez indesejada.

Nem a hipertensão arterial, nem hemorragias e infecções matam tantas mulheres no parto em Salvador (BA) quanto os abortos malsucedidos. É essa a principal causa de mortalidade materna na capital baiana. Em todo o país, o aborto é a terceira ou a quarta causa — de acordo com cada região — de morte de mulheres no parto. A cada quatro dias, em média, morre uma brasileira que decidiu fazer aborto, levando-se em conta apenas os registros de mortes informados pelos hospitais ao Ministério da Saúde.

O comitê de mortalidade materna de Recife (PE) começou a perceber um aumento dos casos de meninas que se suicidam nos primeiros meses de gravidez. Os casos passaram a ser estudados pelo comitê, que busca as razões junto a familiares e médicos para evitar novas ocorrências. As mortes se somam às dezenas de outros óbitos de mulheres jovens, que decidiram abortar na clandestinidade e que sucumbiram após a última tentativa de socorro médico, na rede pública de saúde de Recife.

As constatações são inúmeras, seja nos dados oficiais do Ministério da Saúde, na rotina dos hospitais, no milionário comércio de medicamentos ilegais — trata-se de uma prática rotineira, que consome R$ 30 milhões do SUS todos os anos. O dinheiro é insuficiente para assegurar a saúde e a vida dessas mulheres.

Especialistas acreditam que o embate político na disputa presidencial deste ano reduziu a discussão a um mero aspecto religioso e fez os candidatos ignorarem o aspecto de saúde pública do aborto. O assunto passou a ser o mote do segundo turno das eleições, ganhou evidência, mas foi reduzido a posições contrárias ou favoráveis simplesmente.

“Se os candidatos querem seriamente discutir o aborto, não devem fazer disso uma moeda de troca com as religiões. Debater o aborto deve ser um marco da saúde das mulheres, não uma concessão religiosa”, afirma a antropóloga Debora Diniz, pesquisadora do Anis — Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, e professora da Universidade de Brasília (UnB). Debora é uma das principais referências no assunto. No início do ano, um estudo de sua autoria, a Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), mostrou que 15% das mulheres brasileiras já fizeram um aborto pelo menos uma vez na vida.

“A abordagem dos candidatos está completamente inadequada. O aborto não é uma carnificina nem é uma questão religiosa em si”, diz o professor de ginecologia da Faculdade de Medicina de Jundiaí Thomaz Gollop, coordenador de um grupo de estudo sobre aborto da Socidade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). “Como médico, é óbvio que não sou a favor do aborto, mas estamos lidando com preconceitos, e não com conceitos.” Gollop lembra que a proibição do aborto está prevista numa lei de 70 anos atrás. “Os costumes e a realidade mudaram completamente”, diz o pesquisador. A legislação penal garante a realização do aborto apenas para casos em que a gravidez é decorrente de um estupro ou oferece riscos de morte à gestante.

 

Fonte: Correio Braziliense

+ sobre o tema

Dilma aprova lei que reconhece feminino de profissões em diploma

Graduadas já podem pedir, por exemplo, substituição do termo...

Maior conflito do feminismo tradicional se deu com realidades locais

A constituição do feminismo no Brasil enfrentou dificuldades não...

Norma do Ministério da Saúde proíbe homens gays de doar sangue

Brasília - Motivado por uma campanha da empresa onde...

para lembrar

Congresso quer aprovar licença-paternidade de 15 dias

Aumento pode ser maior, se avançarem as propostas que...

Ela tem 16 anos e lançou uma petição online para revogar a lei antiaborto no Alabama

A estudante Jocelyn Wright ainda não pode votar, mas...

Três mulheres dividem o Prêmio Nobel da Paz de 2011

Três mulheres- a presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf,...
spot_imgspot_img

Alcance e capacitação profissional são desafios do SUS para tratamento de autismo

Na sala de estimulação sensorial, equipada com piscina de bolinha, rede e pula pula, a pequena Lara de Almeida, 4, é acompanhada por uma...

Primeiras doses da vacina do SUS contra dengue chegam ao Brasil

A primeira remessa da vacina contra a dengue que será oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) chegou ao Brasil neste sábado (20). O...

Burnout, abuso de drogas e tentativa de suicídio entram em lista de doenças relacionadas ao trabalho

O Ministério da Saúde divulgou nesta quarta-feira (29) uma atualização da lista de doenças relacionadas ao trabalho. Foram incluídas 165 novas patologias na portaria publicada no...
-+=