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Tempo de Pitanga: Diferenças entre Cinema de Ancestralidade e Cinema de Herdeiros

Pitanga é uma palavra de origem tupi-guarani que significa rubro-negro. Pitanga é  nome que rebatiza Antonio Sampaio desde que figurou em Bahia de Todos os Santos, filme de Trigueirinho Neto de 1960. O personagem Pitanga se tornou tão permanente na sua história quanto uma tatuagem de corpo e alma. Após 80 anos de vida e mais de 60 anos de carreira, Antônio Pitanga encarna com singularidade a história de quem ousou fazer cinema.

Por Viviane Pistache para o Portal Geledés

 

MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES – Abertura Oficial, Os homenageados; Camila Pitanga e Antonio Pitanga – Foto Leo Lara/ Universo Produções.

A 23a. Mostra de Cinema de Tiradentes abriu o nosso calendário de festivais celebrando a vida e obra do ator Antônio Pitanga e de sua filha Camila Pitanga. Na cerimônia de abertura do festival, Antônio Pitanga refere a si mesmo não como um homem apenas, mas como um quilombo. Camila, herdeira de tamanho axé, multiplica o legado numa perspectiva negra e feminista. 

O encontro de pai e filha nos possibilita saborear as experiências de duas gerações com palavras e imagens que a um só tempo adoçam e apimentam a reflexão. Pitanga é encantamento que provoca. Pitanga é griô que convoca para a sombra de sua copa grisalha para ensinar a gingar, atuar, lutar e gozar da vida. 

É uma fortuna testemunhar o modo como Antonio Pitanga compartilha a sua trajetória. De malandro figurante de Bahia de Todos os Santos, Pitanga se tornou corpo e alma  do Cinema Novo, Cinema Marginal e também se reinventa no Cinema Negro que emerge desde a Retomada. Um corpo negro no mundo, que lançou semente numa seara dominada pela monocultura branca que há tempos gera safras de herdeiros. 

Um breve esboço de uma possível árvore genealógica do nosso audiovisual revela de imediato alguns sobrenomes de tradicionais famílias do cinema e da TV: Abravanel, Amorim, Arraes, Barreto, Bodanzky, Braga, Bressane, Buarque, Carvalho, Casé, Cavalcanti, Costa, Dallevo Jr, Diegues, Giorgetti, Gonzaga, Guerra, Gullane, Jabor, Huck, Leal, Leão, Macedo, Marinho, Massaini, Meirelles, Morelli, Murat, Muylart, Padilha, Person, Petrus, Rezende, Rocha, Saad, Santos, Salles, Sganzerla, Saraceni, Solberg, Thomas, Torres, Venturi, Waddington, e por aí vai…

A intimidade com alguns dos nomes citados acima aponta tanto para movimentos que revolucionaram e reinventaram nosso cinema, quanto para nomes que fomentam a contrarrevolução política em curso que opera nosso audiovisual numa lógica de economia criativa. Censura do mercado aliada à censura política. 

Assim, são nomes que desbravaram nosso audiovisual tanto para abrir caminhos, transpor obstáculos, explorar novos territórios narrativos; quanto para amansar nosso audiovisual, esvaziando sua braveza para torná-lo culto, polido e civilizado conforme as normas imperialistas e eurocêntricas. Ou ainda, para torná-lo insípido fast food empurrado goela abaixo da população que consome TV aberta ou alguns canais de streaming. 

Num país em que o cinema é historicamente engolido por ondas de ameaças, é necessário se armar de imaginação como potência, tal como sugere o mote da 23a. Mostra. Desafiar a imaginação é tanto enfrentar os desafios de agora, como encarar vícios varridos para debaixo do tapete e que também comprometem nossas estruturas. 

Nesse sentido, a diretora e roteirista negra Renata Martins faz uma  provocação muito necessária: precisamos falar e ouvir a respeito do que ela denomina de “Cinema de Herdeiro”. Uma questão corajosa, tendo em vista que cinema é uma trama de relações sensíveis que pode eventualmente tocar na “fragilidade branca”, expressão cunhada por Robin DiAngelo. Segundo a autora (que é branca), “pessoas brancas vivem em um ambiente social que as protege e isola do estresse racial”.

São lugares de conforto e estabilidade que se perpetuam em instituições como classe, gênero, mídia, agências, produtoras, grandes estúdios, discursos dominantes. Nesse sentido, cutucar essa fragilidade branca pode provocar reações adversas no sentido de afastar a fonte de ameaças a esse  status quo. O boicote como forma de silenciamento de quem ousar fazer críticas ou denúncias é certamente um fantasma que ronda quem quer produzir novas histórias. Assim se fomenta um ciclo vicioso que se não impossibilita, pelo menos dificulta o diálogo aberto e honesto, além de manter a estrutura rota girando como sempre.

Sendo assim, como entender a trajetória de Antônio Pitanga que a um só tempo se recusou a ser um le bon sauvage¹; e ainda  se tornou um grande patrono negro da história do cinema nacional? Conforme define Camila Pitanga no documentário Pitanga, que co-dirigiu com Beto Brant, Pitanga-Pai é um grande capoeirista mental. Alguém que sabe avançar e recuar com movimentos precisos. O primeiro golpe de mestre foi arrebatar o Pitanga de Trigueirinho Neto, numa atuação meteórica que se tornou notória. 

O gingado seguinte foi aceitar ser apadrinhado por Glauber Rocha, que catalisa o encontro de Antônio com a formação teatral para lapidar seu grande talento inato. Pitanga foi co-criador das obras que protagonizou, a exemplo do filme A Grande Cidade de Cacá Diegues, que tornou notório seu trabalho de co-direção. Assim, progressivamente Pitanga foi fincando raízes e alçando vôos maiores. 

Pitanga Preta é ginja de pele e sabor rubro-negro, colores de Exu, a boca do mundo, (não por acaso, é também título do seu primeiro longa). Exu é mensageiro, patrono da comunicação,  senhor da sedução, do Eros, do prazer, do vigor da criação, da estratégia, da artimanha, da brincadeira, da liberdade, da festa, das encruzilhadas, das fronteiras tencionadas e superadas. 

Pra bagunçar as  estruturas racistas Antônio Pitanga é o estrategista que põe em prática o ditado Yorubá que diz que  “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”.

Nascido da força malê de Maria Natividade, Pitanga também foi filho espiritual e amigo pessoal da Mãe Menininha de Gantois que sempre o aconselhou em sua carreira, inclusive quando encarnou o personagem Firmino, do filme Barravento, obra de Glauber Rocha que dentre outras questões que levanta, critica as religiões de matriz afro. Eu ia ter que chutar trabalho de santo no filme. Ela ficou me olhando e disse: ‘meu filho, você não é artista? Vai lá e atue, pronto’”, conta Pitanga.

Sabendo jogar dentro e fora das regras, Pitanga nunca teve medo de “botar a mão na maçaneta”. Um detalhe interessante do documentário Pitanga é o movimento do ator entrar na casa de muita gente que foi fundamental na sua vida e obra. Figuras do calibre de Maria Bethânia, Otton Bastos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Angela Leal, Tamara Taxman, Sérgio Rezende, José Carlos Capinam, Cacá Diegues, Hugo Carvana, Zé Celso, Ruth de Souza, Léa Garcia, Zezé Motta, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Jards Macalé, Joel Zito, Lázaro Ramos, Milton Gonçalves,  Elisa Lucinda, Jorge Coutinho, etc. 

20200124 – TIRADENTES/MG – 23» MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES – Abertura Oficial – Foto Jackson Romanelli/ Universo Produções.

Para além das figuras apresentadas no filme, o fato é que Pitanga teve assento na mesa da branquitude, comungando afetos e trabalhos bem como ampliando espaços de atuação a partir de sua negritude. Antônio é um homem de encantamento e do fazer político. 

Em 64, durante  ditadura militar se exilou no continente africano e juntamente com Adhemar Ferreira da Silva, o homem do salto triplo, empreenderam uma busca pelas origens. Pitanga diz ter sentido sua ancestralidade pulsar  em Daomé, berço que elegeu num esforço heróico de recontar uma história apagada por Rui Barbosa quando queimou os arquivos da escravidão.

Para que mais gente preta tivesse a oportunidade de contar suas história,coordenou junto Benedita da Silva e com o cineasta negro e cubano Antonio Molina, a ONG Pró-Apoio Comunitário (PAC) para oferecer formação em cinema e audiovisual  para a juventude do Morro do Chapéu. 

Filiado ao Partido dos Trabalhadores, Pitanga chegou à vereança. Homem do candomblé,  desde 1992 é casado com a deputada Benedita da Silva, grande liderança da esquerda negra e que também é evangélica. Uma história de amor exemplar da união e do convívio possível e necessário entre diferenças religiosas. 

No documentário Pitanga também é constantemente lembrado e elogiado pela singular dedicação a sua filha Camila e a seu filho Rocco. Uma paternidade radicalmente poética que cunhou o sobrenome Pitanga como sinônimo de beleza  e verdade na vida cotidiana, nas telas e nos bastidores da arte e da política. Pitanga é brasão de nobreza da nossa dramaturgia. 

Para o catálogo da 23a. Mostra de Tiradentes, Elisa Lucinda escreveu um texto intitulado “Pitanga, nome de berço” no qual afirma: “Quando se trata dos Pitanga precisamos ter consciência de que se trata de uma dinastia que já existia. Vem de muito tempo, atravessando séculos. O mestre apenas a nomeou e cavalga com destreza sobre essa ancestralidade”

Sobre os filhos Camila e Rocco, Elisa diz que “são dois frutos da frondosa árvore, são dois atores inquietos que nem sonham em deixar essa peteca cair. Nunca teve moleza ali. Sabem que a vida é um desafio. São igualmente visionários, ousados e não se acomodam num a aparente conforto que não seja capaz de satisfazê-los ideologicamente.” 

Camila, também homenageada na 23a. Mostra é Embaixadora Nacional da ONU Mulher, além de ser  diretora do Movimento Humanos Direitos. Formada em artes cênicas pela UERJ e UNIRIO, tem uma sólida carreira na TV e nos palcos. A Mostra nos ofereceu a oportunidade de revisitar o filme de Beto Brant e Renato Ciasca “Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios” quase uma década após seu lançamento. A obra coroa a maturidade e densidade de sua atuação corajosa que tocou em muitos temas políticos como o desmatamento da Amazônia, a função da religião na vida dos povos indígenas,a jornada da protagonista emocionalmente estraçalhada e que se encontra dividida entre dois amores: o pastor e o fotógrafo, resvalando no mito do homem salvador e do príncipe que pode despertar  com um beijo. 

O filme também toca em delicados temas pessoais que flertam com a história de sua mãe, Vera Manhães. A família Pitanga é muito cuidadosa e discreta sobre os motivos de saúde que afastaram a Vera dos palcos da vida, ceifando precocemente uma carreira de muito talento e beleza. Mas como o Brasil é um país onde o racismo mata e adoece, uma matéria sobre Vera Manhãs, com trechos disponíveis na internet dá uma pitada dos obstáculos que enfrentou. 

Publicada em maio de 1975 na Revista Amiga o título do artigo levanta a questão: “Por que não fui Gabriela?”. A posição de Vera foi:  “Acho que essa pergunta não deve ser feita a mim, mas sim à direção da Globo.’ Acho Sonia [Braga] uma excelente atriz e na certa ela conseguirá levar o papel muito bem. O negócio é com a direção. Afinal, de todas as novelas de que participei, sempre fiz papel da empregadinha (O Cafona, Bandeira 2, O Bofe e alguns especiais). Não que eu tenha pretensões de ser uma grande estrela, não. Quero apenas ter as mesmas oportunidades que outras atrizes tiveram. A verdade todo mundo enxerga, menos a direção da Globo.’”

A matéria diz que apesar de Vera ter o fenótipo perfeito, “a Globo não se interessou e até desprezou a atriz, através de uma carta em que Boni – superintende de produção e programação da emissora – disse que Vera não tinha nem tipo físico para o papel e muito menos talento. Foi um fato bastante desagradável, que deixou muita gente constrangida, principalmente a atriz.” Além de escalaram Sônia Braga para o papel protagonista, ainda a submeteram a sessões de bronzeamento artificial para escurecer sua pele, um artifício também conhecido como black face

Face às crueldades do racismo cotidiano, quando Renata Martins aponta a necessidade de falarmos de Cinema de Herdeiro, ela convoca publicamente os herdeiros a falarem sobre como é fazer audiovisual  com estrutura e equipamentos à disposição somados aos privilégios da branquitude. 

Quando Elisa Lucinda diz que Pitanga é uma Dinastia, é um modo de celebrar o aquilombamento  de uma família cujas raízes ancestrais se espraiam e infiltram no sistema dos estabelecidos. 

Costurando apoios, amizades e alianças, Antônio persiste/resiste querendo contar história.    Malês, segundo longa de ficção a ser dirigido por Antônio Pitanga, é um projeto de filme quilombo que há uma década sonha em trazer um conjunto de atrizes e atores cuja face negra têm fortalecido sobretudo via TV, a construção de novos imaginários no seio da população negra. Nomes como Seu Jorge, Lázaro Ramos, Taís Araújo, Camila e Rocco Pitanga já estão escalados para dar vida à páginas de uma história da negritude brasileira comumente silenciada: a Revolta dos Malês. O sonho existe, porém o financiamento ainda está pela metade.

Vale negritar: Em nossa combalida indústria do audiovisual, sagazmente definida pelo cineasta Bruno Risas como “cosplay de indústria do audiovisual”, os sujeitos do nosso fazer cinematográfico ocupam posições distintas e desiguais em termos de acesso a recursos. Ao contrário de muitos sobrenomes tradicionais, a família Pitanga não possui os meios de produção nessa cadeia, de modo que sua atuação acaba esbarrando em muitos cerceamentos; ainda que tenham construído carreiras que são expressão pura da imaginação como potência. Uma família negra que se soma a outras para serem corpo e voz num sistema injusto que como um LP arranhado, reprisa narrativas que se alimentam das desigualdades de raça, gênero, classe e orientação sexual.

 

Viviane Pistache. Doutoranda em Psicologia e Cinema pela USP. Roteirista da O2 Filmes e crítica de cinema e teatro em parceria com o Portal Geledés. (Foto: Arquivo Pessoal)

 

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1-  Expressão fundamental colocada no primeiro longa dirigido por Pitanga em 1979, A Boca do Mundo

 


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