Thuram “surpreso com a violência da divisão na sociedade brasileira”

No Brasil a convite do Museu de Arte do Rio de janeiro (MAR), onde participou ao longo da semana de eventos sobre o racismo, o ex-zagueiro francês Lilian Thuram disse neste domingo, em entrevista exclusiva à AFP, ter ficado “surpreso com a violencia da divisão na sociedade brasileira”.

Neste domingo, Thuram, que foi campeão mundial com a seleção francesa em 1998, visitou o Complexo do Alemão e encontrou crianças e escritores locais numa biblioteca da comunidade.

“Aprendi coisas sobre a história brasileira e sobre personagens-chave que poderiam, talvez, pelo seu percurso, aproximar as pessoas. Mas fiquei surpreso com a violência da divisão na sociedade brasileira. Na França, temos às vezes uma imagem idealista do Brasil, que seria um país mestiço, onde todo mundo vive junto, em harmonia e samba o tempo todo. Mas não é nada disso. Entre o asfalto e a favela, temos dois mundos diferentes, é inacreditável. Os afro-descendentes formam 90% da população brasileira, mas quando vemos os jornais, percebemos muitas ausências e um predomínio de pessoas de cor branca. Percebemos que a hierarquia que existia antigamente ainda existe hoje. Eu não esperava ver isso ao viajar para o Brasil”.

“Sim. Cada um de nós deveria saber que carrega consigo a história do mundo, a história desta hierarquia das cores de pele. Somos marcados por esses preconceitos. Quando era jogador, perguntei a companheiros de equipe brasileiros porque havia negros no Brasil e eles não sabiam responder. Perguntei se havia racismo no Brasil e eles disseram que não. Se quisermos resolver um problema, temos que ter consciência dele. Se pensarmos que não há sexismo nas nossas sociedades, nunca vamos entender as hierarquias entre homens e mulheres. É exatamente a mesma coisa com o Brasil. Cada um de nós vem de uma cultura racista”.

-Você se juntaria aos manifestantes que reclamam do dinheiro público gasto em estádios e não em saúde e educação?

“Não sou brasileiro, então não vou me juntar aos manifestantes, mas entendo totalmente o movimento. Em um país com problemas com saúde e educação, há pessoas para as quais essas prioridades passam antes da construção de estádios. Parece óbvio que essas pessoas denunciem verbas investidas em estádios no lugar de hospitais”.

– Você também se disse espantado com o fato de algumas crianças negras se auto-definirem como brancas…

“Basta olhar para aquela criança para entender que é afro-brasileira, ou seja, em um determinado momento da sua genealogia, houve africanos. Na história da escravidão, inventamos homens brancos e homens de cor. Se há uma gota de sangue negro, essa pessoa será negra. Criamos o hábito durante séculos de dizer que há pessoas brancas e não-brancas. Os brasileiros que viveram isso na pele querem uma mudança de conceito, querem que as pessoas sejam vistas além da cor da pele.

 

 

 

Fonte: Terra

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