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Tragam-me a cabeça de Lima Barreto

Ancorado no tripé loucura, racismo e eugenia, monólogo com o ator Hilton Cobra homenageia o escritor

Por Rosane Borges, da Carta Capital 

O ator Hilton Cobra ao lado de projeção da imagem do escritor Lima Barreto

Ninguém põe em dúvida.

Entre as marcas que vincam o já envelhecido 2017, podemos pôr em destaque a luz do holofote que se projetou sobre o escritor Lima Barreto. Jorraram em profusão biografias (inéditas e reeditadas), láureas e homenagens, com a Flip sintetizando a pompa e a circunstância.

Soerguendo-se do pântano para o qual a crítica literária o empurrou, Lima converteu-se na pérola mais preciosa da ostra extraída das águas tormentosas deste ano.

Eis que em meio às homenagens e publicações, a peça “Traga-me a cabeça de Lima Barreto”, monólogo em que o ator Hilton Cobra celebra os seus 40 anos de carreira, se encarrega de nos dar a ver um escritor ancorado nos dilemas/problemas/desafios nucleares que desenharam os contornos de um Rio de Janeiro (capital da Primeira República e da cultura literária do país) ávido pelos ventos da modernidade que sopravam mundo a fora ao mesmo tempo em que não se desapegava de um servilismo escravocrata, de uma aversão aos ideais republicanos.

É nesta atmosfera anfíbia que Lima Barreto transita, refletindo as ambivalências de seu tempo (crítico ácido do sistema, o escritor dos excluídos não se deixava tosquiar feito um carneiro, mas também exigia, paradoxalmente, reconhecimento das estruturas pelas quais alimentava repulsa, postulava reconhecimento da Academia Brasileira de Letras).

São vários os enquadramentos possíveis para se ter acesso ao escritor. “Traga-me a cabeça…” o faz apoiando-se de maneira equilibrada no tripé loucura – racismo – eugenia. Em tom abreviado, a peça discorre sobre uma imaginária sessão de autópsia do crânio de Lima Barreto, conduzida por médicos eugenistas na década de trinta. A pergunta que movia os higienistas era: “como um cérebro considerado inferior poderia ter produzido uma obra literária de porte se o privilégio da arte nobre e da boa escrita é das raças tidas como superiores?”

A partir deste questionamento, o monólogo revolve as várias camadas de um escritor que foi reconhecido pelo establishment durante muito tempo tão-somente pela chave da literatura social como o porta-voz dos que nada têm. Tal “reconhecimento” deu de ombros para a riqueza formal de sua obra, cego à inventividade dos seus textos (mito que a Flip se encarregou de desfazer, enfatizando que a escrita de Lima inspirou toda uma linhagem da literatura em língua portuguesa).

Este é dos tópicos essenciais da peça, que reatualiza as proverbiais comparações entre Machado de Assis e Lima Barreto (e, neste caso, o próprio Lima se encarrega da zombaria), ao modo como se fez com Tolstói-Dostoiévski, Saramago-Lobo Antunes. Talvez seja esse um dos pontos de conexão que enovelam o trípé loucura, racismo e eugenia.

A loucura de Lima Barreto que acessamos por meio da peça não é apenas fruto do racismo e suas interdições, ainda que potencializadores de uma vida infausta (não podemos esquecer de suas agruras: pelas críticas à imprensa no livro Recordações do escrivão Isaías Camina, é excluído do quadro de colaboradores do “Correio da Manhã” e seu nome vira um interdito nas páginas do jornal, mesmo trinta anos depois de sua morte).

É também uma loucura genial, tal como a de um James Joyce ou de um Samuel Beckett. É uma loucura “herdada” do pai. É uma loucura que sai pelo mundo tentando agenciar novos/outros arranjos capazes de enfrentar as dificuldades de uma vida talhada pelas consequências dos frames que foram emoldurando a trajetória do escritor (arrimo de família em virtude da neurastenia do pai, abandono da Escola Politécnica, alcoolismo…). Consciente de sua condição vulnerável, anunciava: “Se em vida me submeti às mais sórdidas humilhações, em morte não cederei”

O racismo, sempre ele, cimenta uma plataforma em que, progressivamente, Lima Barreto vai sendo expelido de uma cena literária que se espelhava nas “belas letras europeias”, resistente a ceder espaço aos subalternizados e excluídos. A eugenia era o projeto que poderia assegurar o bloqueio dos indesejados na gestão do comum, nos destinos da vida nacional. Mas Lima resiste, não cede, mesmo pagando um preço altíssimo por isso, margeando terreno minado por essa ordem de coisas, abrindo, para um tempo futuro, uma avenida à estreita margem de manobra imposta a ele.

A peça, o ator, o teatro

O que dizer da peça “Traga-me a cabeça de Lima Barreto” para além de qualificá-la como uma homenagem ao escritor sob determinados prismas? Muitas coisas e um pouco mais. Em termos estritamente cênicos, o monólogo marca o reencontro do ator Hilton Cobra com a obra do escritor.

Em 2008 o ator, produtor cultural e fundador da companhia teatral Comuns protagonizou a versão cênica de Luiz Marfuz para O triste fim de Policarpo Quaresma.

Também escrita por Luiz Marfuz e dirigida por Fernanda Júlia, “Traga-me a cabeça de Lima Barreto” cerca-se de especialistas de altíssimo gabarito (entre eles, Lázaro Ramos é um dos que emprestam sua voz para a leitura em off de textos de apoio à cena) e nos brinda com uma das melhores formas de se reeditar as discussões entre arte e política.

A performance de Hilton Cobra é uma esplêndida feitura de como o teatro, em sendo arte, pode oferecer uma brecha para reposicionar a vida em outro patamar. Desde a caverna de Platão até as críticas contemporâneas da sociedade do espetáculo uma questão acompanha, como pedra no sapato, o papel do teatro em relação ao espectador: liberar os dominados das ilusões.

“Traga-me a cabeça…” faz diferente. Ao invés de laborar em torno de uma pedagogia do olhar, o monólogo nos provoca a enxergar um Lima Barreto, entre vários possíveis, com olhos de ver. Antes de considerar que “quem vê não sabe ver”, pactua com a plateia um deslocamento. O monólogo pede vênia a Lima Barreto e, com esse gesto, nos faz reconhecer a alta magnificência de um ator que, do do alto dos seus 40 anos de carreira, perturba a boa rotina do mundo.

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