Três mulheres cariocas, periféricas e negras produziram 3,6 milhões de tuítes que produziu o maior acontecimento político da mídia social no país

Três mulheres cariocas, periféricas e negras são os principais nós da rede de 3,6 milhões de tuítes que produziu o maior acontecimento político da mídia social no país

por JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO E KELLEN MORAES no Piauí Folha

Omaior acontecimento político-digital no Brasil foi liderado por três mulheres de três gerações diferentes. Os quatro disparos que atingiram Marielle Franco na noite de 14 de março ecoaram muito além do bairro do Estácio, onde ela foi executada, ou da cidade do Rio de Janeiro, onde era vereadora. Romperam fronteiras ao deflagrarem 3,573 milhões de tuítes. Nas 42 horas seguintes, mobilizaram 400 mil usuários do Twitter em 54 países e 34 idiomas. Mas os três nós que amarraram essa rede global têm muito em comum: são mulheres, cariocas, periféricas e negras.

“Nunca vi nada igual”, admira-se Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos de Internet e Cultura, o Labic, da Universidade Federal do Espírito Santo. Como fazem cotidianamente desde 2012, ele e sua equipe capturaram e analisaram os dados. Buscaram tuítes que combinavam “Marielle”, “vereadora”, “rio” e “morte”, entre outras palavras. Não é todo dia que Malini se admira com o que vê no trabalho – o Labic é uma das principais instituições acadêmicas especializadas no estudo de mídias sociais no Brasil, junto com a FGV-DAPP. Mas desta vez Malini se impressionou.

Durante o impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados,  em 2016, o Labic fez a mesma pesquisa. Os pesquisadores acharam 3,357 milhões de tuítes publicados sobre o tema ao longo de 72 horas. O impeachment estabelecera um recorde em eventos políticos – recorde quebrado pela reação ao assassinato de Marielle. Foram 200 mil tuítes a mais e em menos tempo. Não só.

A distribuição das publicações e o alcance dos compartilhamentos delas mudaram radicalmente nesses dois anos que separam um evento de outro. “A polarização política aparece muito mais diluída agora”, nota Malini. Em discussões ideologizadas, como foi no impeachment de Dilma, o mapa das relações entre os usuários costumava mostrar dois grandes grupos antagônicos tomando para si quase todo o espaço do debate digital. Não mais.

No gráfico produzido com os 3,6 milhões de tuítes sobre a execução da vereadora do PSOL, toda a parte central aparece dominada por veículos e pessoas ligadas a meios de comunicação. Mas eles orbitam em torno do perfil “@mariellefranco”. A vereadora é o nó central da trama: a ela se refere a maior parte dos tuítes. Mas isso não é o único sinal de implosão da bolha ideológica e partidária de antes. As manchas laranja (tuítes em inglês) e verde (espanhol) mostram grande alcance internacional.

Os antigos polos da direita (rosa) e da esquerda (verde mais escuro) foram desidratados. Seus maiores destaques são o “@psoloficial”, do partido da vereadora, e o da “@midianinja”. Quem ganhou espaço foi um novo grupo que costumava ficar alijado do debate político no Twitter. Desta vez, tornou-se o maior de todos e está pintado em lilás e azul claro. Reúne perfis de origens variadas, de youtubers a celebridades, passando por artistas e desconhecidos. Em alguns casos, ex-desconhecidos.

Com pouco mais de mil seguidores, o perfil @badgcat foi responsável pelo tuíte mais citado após o assassinato da vereadora do PSOL. Dizia:

“marielle morreu dps de denunciar abuso dos militares e a galera tá falando “morreu pelas mãos bandidos que ela defende”. acho que ela morreu pelas mãos dos bandidos que você defende, amigo”.

Mais de 33 mil retuítes transformaram sua dona no segundo nó mais importante da rede formada a partir da tragédia – atrás somente pelo da própria Marielle.

A autora do tuíte, a @badgcat, tem 17 anos, é negra e militante. Ela mora em Queimados, na Baixada Fluminense, a mais de 50 quilômetros do local onde a vereadora do PSOL foi assassinada. Milena Martins contou à piauí que não pôde ir ao protesto contra a morte de Marielle. Não teve dinheiro para a passagem. Mia, como é chamada, cuida da avó, de 95 anos, cega e surda.

Ela reclama que, depois de eleita, mesmo estando cada vez mais ativa como vereadora, Marielle havia desaparecido do noticiário. “A mídia tá muito ocupada em nos fazer acreditar que política é só Bolsonaro e Lula. Eles não nos deixam conhecer as Marielles.”

Informada pela piauí de que seu tuíte era recordista de compartilhamentos, @badgcat respondeu, por meio de seu perfil no Instagram: “Fico lisonjeada por poder dar voz à revolta.”

Conectada, a militante do movimento negro registrou no Medium: “Sou adotada por família branca e EXTREMAMENTE mais privilegiada do que grande parte dos negros brasileiros por esse simples fato. Sempre me portei como menina branca, visto que meus pais me criaram como se ‘raça não importasse’, dentro do discurso do ‘somos todos iguais’, e por isso eu nunca entendi exatamente por que não gostavam de mim, eu só sabia que não gostavam.”

Os milhares de RTs obrigaram @badgcat a desligar as notificações de seu celular. Junto com os elogios vieram as mensagens agressivas, as ameaças e o ódio. “A próxima a morrer é tu se ficar falando mt”, escreveu o perfil @FelipeA72601589.

Mas Mia não era a única mulher negra a falar muito e alto nas mídias sociais. Entre os 3,6 milhões de tuítes sobre o assassinato de Marielle, o que mais agradou internautas foi escrito por uma cantora de 80 anos de idade. Elza Soares escreveu:

“Das poucas vezes que me falta a voz. Chocada. Horrorizada. Toda morte me mata um pouco. Dessa forma me mata mais. Mulher, negra, lésbica, ativista, defensora dos direitos humanos. Marielle Franco, sua voz ecoará em nós. Gritemos.”

Recebeu mais de 50 mil “likes”. A cantora octogenária, carioca de Padre Miguel, juntou-se assim à adolescente da Baixada para tecer a rede digital que cobriu Marielle. 17, 38 e 80 anos. Três negras, três nós, três gerações – juntas na mesma indignação.

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