Um homem exemplar: Dono de casa fala sobre igualdade entre os gêneros

Há muito a ser refletido sobre a misoginia nessa significação do trabalho doméstico. Será que as funções do lar seriam tão desvalorizadas caso fossem consideradas uma função do homem de classe média e alta? Com a fala de Cláudio, é perceptível que a coisa pode mudar de peso a depender de quem desempenha esse papel

Por Jarid Arraes

Embora o Feminismo tenha conquistado cada vez mais espaço na mídia e em debates políticos, ainda existem questões que dificilmente ultrapassam as citações teóricas. Uma delas é a divisão do trabalho doméstico e o cuidado com as crianças, que continua sendo um problema feminino sem o engajamento dos homens; nem mesmo daqueles que se identificam com as políticas de esquerda.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres dedicam, em média, 27,7 horas semanais aos afazeres domésticos, enquanto os homens dedicam apenas 11,2 horas por semana, menos da metade. A situação permanece igual mesmo para as mulheres que trabalham fora de casa, muitas delas sobrecarregadas com uma jornada tripla de trabalho e cuidado com os filhos, causando prejuízos em todas as esferas subjetivas e profissionais. A partir do recorte de raça, chama atenção o fato de que muitas mulheres negras acabam realizando a faxina, o preparo de alimentos e o cuidado das crianças de outras famílias, mas precisam repetir todas essas atividades quando retornam para casa, pois não contam com a ajuda dos homens com quem convivem. O próprio termo “ajudar” já indica o ritmo dos avanços femininos nessa pauta; oferecer ajuda não é equivalente a compartilhar uma obrigação. Vários homens até se disponibilizam para auxiliar as mulheres, lavando uma louça ou deixando as crianças na escola, mas esse tipo de atividade continua sendo encarado como essencialmente feminina.

A situação pode ser desanimadora, mas há homens exemplares que dividem de forma igualitária os cuidados do lar. Embora ainda raros, eles iniciam a pavimentação de um caminho pouco trilhado pela população masculina do Brasil. Cláudio Henrique dos Santos é um desses homens, que decidiu ir além da divisão de tarefas e escolheu, conscientemente, se tornar um “dono de casa” para que sua esposa pudesse crescer profissionalmente sem impedimentos.

Com 42 anos de idade, formado em Jornalismo e pai de uma menina de 7 anos, Cláudio mora na Pensilvânia e conta suas experiências no livro “Macho do Século XXI”, disponível em todo o Brasil. Nas redes sociais, Cláudio compartilha conteúdo voltado para discussões sobre igualdade entre os gêneros. Sua decisão e o início da jornada como “homem do lar”, no entanto, não foi fácil:  “Tive que aprender do zero. Eu era o cara mais machão do mundo. Não lavava um prato em casa. Quando eu era jovem, minha mãe era quem fazia tudo em casa. Ela até que tentava me colocar para fazer as coisas em casa, mas eu ajudava muito pouco. No almoço do domingo, as mulheres faziam o trabalho doméstico e os homens íam assistir futebol na televisão. Minha mãe nunca reclamava, então eu achava que estava tudo bem. Depois que casei, eu e minha esposa podíamos pagar alguém que fizesse o serviço da casa e eu nunca me preocupei com isso. Eu não sabia nem fritar um ovo e acabei aprendendo tudo na marra, principalmente por causa da minha filha”, conta de modo divertido.

Sua filha é mesmo uma personagem principal nesse enredo, pois para Cláudio a educação livre de estereótipos é a melhor maneira de ensinar e garantir igualdade. “Se eu tivesse um menino talvez não tivesse mudado tanto minha visão das coisas”, reflete. Cláudio conta que no começo sua filha estranhava o fato de que nas reuniões escolares, ele era o único pai presente. Hoje, isso é motivo de orgulho e engajamento, pois Cláudio faz questão de conversar com seus amigos sobre o assunto: “O que eu digo aos meus amigos que tem filhos meninos é o seguinte: se você quer que seu filho respeite uma mulher no futuro, você tem que ensinar a ele que não existe brinquedo de menino e de menina ou tarefa de menino e de menina. Do contrário, eles aprendem desde pequenos que são diferentes”. Cláudio é um ótimo exemplo de como um homem feminista pode gerar mudanças positivas em sua realidade, não apenas se limitando ao seu espaço individual e privado, mas estendendo o debate ao seu círculo social e conversando com quem mais precisa de conscientizar: os homens.

O curioso é que Cláudio não se define como feminista e, na verdade, conta que não tem conhecimento suficiente sobre o Feminismo como movimento social. Segundo ele, sua decisão não foi pautada por convicção política, mas por amor e vontade de apoiar sua família. “Mas é claro que essa experiência mudou minha visão das coisas. Hoje eu escrevo no meu blog e faço palestras sobre a igualdade entre os gêneros, até mesmo porque minha família é um grande exemplo de que hoje não existe mais espaço para papéis predefinidos. E eu tenho o maior orgulho de compartilhar a minha história, porque eu vejo o quanto minha esposa batalhou (e ainda precisa lutar demais) para alcançar um posto de liderança numa grande empresa. O caminho para as mulheres é sempre mais difícil e muitas delas não podem contar com o apoio dos maridos em casa. E quero contribuir para que a minha filha possa viver num mundo mais igual no futuro, sem preconceitos, para que ela tenha menos dificuldades do que a minha esposa. Quero que ela tenha todos as condições para ser uma líder no futuro. E que ela tenha a liberdade de escolher o que ela quiser. Até mesmo ser uma dona de casa e cuidar dos filhos, desde que seja uma opção e não uma imposição”.

Com bastante comunicação entre o casal e muita admiração por parte dos demais familiares, o preconceito não é preocupação. “Como homem, eu sofri muito com essa pressão de ter que trabalhar, por parte das pessoas que não faziam parte do meu círculo de amizades. A sociedade espera isso um homem. No começo, eu me incomodava demais com isso. Mas hoje eu entendo que o mais importante é que minha esposa esteja tranquila com isso e não me importo com o que os outros pensam. Além disso, sei que estou sendo útil, faço parte de uma equipe e faço o melhor que posso. Aliás, o que me ajudou muito a superar isso foi quando comecei a encarar realmente como uma profissão o fato de ficar em casa. Cuidar de uma casa e dos filhos não é menos complexo do que ser um executivo numa empresa”. O que este dono de casa consegue racionalizar ainda é uma lógica extremamente difícil para a maioria das pessoas, que consideram os afazeres domésticos como um trabalho inferior e menos relevante socialmente.

Há muito a ser refletido sobre a misoginia nessa significação do trabalho doméstico. Será que as funções do lar seriam tão desvalorizadas caso fossem consideradas uma função do homem de classe média e alta? Com a fala de Cláudio, é perceptível que a coisa pode mudar de peso a depender de quem desempenha esse papel. Nesse sentido, há muito para ser transformado e melhorado. Por enquanto, a batalha continua sendo pela participação efetiva dos homens, que devem reconhecer que o ambiente doméstico é responsabilidade de todas as pessoas que moram em uma residência. Para Cláudio, no futuro essa ideia será mais aceita: “Esse ainda é um tema que muitos homens não gostam de discutir. Alguns dos meus amigos talvez não consigam se projetar no meu lugar, mas tenho certeza que muitos deles admiram minha decisão. Até mesmo porque hoje eu encaro isso com muita naturalidade. Além disso, acho que a reação entre os mais jovens principalmente é mais positiva. Alguns amigos, principalemente os mais jovens, acredito que topariam ficar em casa se a mulher pudesse sustentar a casa sozinha”.

De certo ponto de vista, talvez nem homens e nem mulheres devam abrir mão de possibilidades profissionais para além do cuidado do lar. Em caso de divórcio e crise conjugal, é importante ter planos de emergência para que nenhum dos lados acabe desamparado. Cláudio parece ter entendido isso, mesmo que a responsabilidade dessa conclusão seja do seu inconsciente, pois já desenvolve uma carreira paralela, dando palestras sobre o protagonismo masculino nos afazeres domésticos. Ao contrário da maioria das donas de casa, Cláudio teve outras experiências profissionais, e quando decidiu se tornar dono de casa, estava desenvolvendo um empreendimento próprio. Além disso, ele possui curso superior, tendo se formado em Jornalismo pela Cásper Líbero. Esse é o ponto mais relevante de sua decisão, pois não é possível afirmar que houve escolha quando não existem alternativas.

Ao final da entrevista, Cláudio conclui: “Acredito que o mais importante é o entendimento e a compreensão mútua. Muito se fala sobre o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, mas a verdade é que como indivíduos, este equilíbrio está cada vez mais difícil. Cada vez trabalha-se mais horas, perdemos um tempo enorme nos nossos deslocamentos nas grandes cidades, cada vez sobre menos tempo para dedicar aos filhos ou conosco mesmo. Por isso, o ideal é que as pessoas tenham um objetivo em comum e que se ajudem em casa. No século XXI não existe mais espaço para estereótipos e papéis predefinidos. Aqueles que encontrarem esse balanço e estiverem abertos para quebrarem barreiras e romperem velhos costumes, certamente serão mais felizes”.

Para os homens que se engajam no movimento feminista ou em outros segmentos de esquerda, o exemplo de Cláudio funciona como uma convocação. É preciso muito mais do que discurso para garantir a coerência de um posicionamento político, assim como sua efetividade no mundo real e suas demandas urgentes. Cláudio, sem dúvida alguma, merece ser chamado de “pai de família”.

 

 

Fonte: Fórum

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