domingo, julho 3, 2022
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Uma análise do filme Judas e o Messias Negro

Segundo a Bíblia, Judas Iscariotes foi um dos doze discípulos que Jesus, o Messias, escolheu para acompanhá-lo em sua missão de levar ensinamentos e promover milagres, como a distribuição de comida, para o povo. Na história tradicional, Judas teria sido o responsável por trair Jesus e entregá-lo aos romanos para que fosse crucificado e morto, na intenção de enfraquecer a construção do poder popular entre os povos dominados pelo Império ao eliminar sua principal liderança. Sob essa premissa, o diretor estadunidense Shaka King traçou, de forma perspicaz, um paralelo entre o conto bíblico e uma história real que serviria de inspiração para seu segundo filme. Assim, Judas e o Messias Negro, dirigido e escrito por King, se tornou um dos lançamentos cinematográficos mais aguardados do ano, que, sob a luz dos recentes episódios da luta antirracista global, é um dos principais nomes da seleção do Oscar 2021.

O filme conta a história de William O’Neil (Lakeith Stanfield), um ex-assaltante que se torna um informante do FBI ao ser designado para se infiltrar no Partido dos Panteras Negras e fornecer informações sobre Fred Hampton (Daniel Kaluuya), uma das principais lideranças do partido nos EUA. A história é ambientada no final da década de 60, momento em que o mundo vivia o ponto mais “quente” da Guerra Fria, e a sociedade norte-americana passava por um dos períodos mais conflituosos de sua história. Em um cenário marcado pela Guerra do Vietnã, a crise econômica, o debate sobre a segregação racial e a perseguição do governo à grupos de esquerda, o país foi um terreno fértil para o surgimento de lideranças históricas como Martin Luther King Jr. e Malcolm X, ambos assinados por consequência de seu poder de mobilização das massas.

Em meio à isso, surge na Califórnia o Partido dos Panteras Negras, uma organização revolucionária socialista, inspirada pelos ideais do líder chinês Mao-Tsé Tung, que se caracterizou por promover a organização política das camadas pobres da população negra, através de programas de educação, autodefesa, alimentação e assistência médica para todos. O partido se espalhou pelos EUA, ganhando forte adesão nas principais cidades e provocando medo nas autoridades, que temiam que os Panteras seriam o princípio de uma revolução popular no país. A organização ficou particularmente forte em Chicago, devido à ascensão do jovem Fred Hampton como um notável líder, articulador e dono de uma oratória que fortaleceu as ideias do partido entre o povo. Hampton também foi responsável por costurar uma aliança com grupos revolucionários que representavam outros setores marginalizados da sociedade, como latinos, asiáticos, brancos pobres e gangues de rua, sendo o precursor da chamada “Coalizão Arco-Íris”, que defendia a união e solidariedade entre todos aqueles comprometidos com a luta popular, independente da etnia.

Hampton era, em suas próprias palavras, um revolucionário, uma figura que lutava por mudanças radicais na estrutura da sociedade, através do combate armado, em prol da libertação de todas as pessoas oprimidas no mundo. Em contrapartida, O’Neal era um jovem que se tornou informante do FBI após ter sido apreendido pelo agente Roy Mitchell por roubo de carro, como forma de evitar uma sentença longa na cadeia. Apesar de sua curta idade, O’Neal se provou ser perspicaz ao conseguir se filiar ao partido e em pouco tempo se tornar um dos homens de confiança de Hampton na segurança. Ele também foi uma peça importante ao participar de diversas ações dos Panteras, de distribuir café da manhã para crianças carentes, liderar a reforma da sede e até se envolver em um conflito armado contra a polícia. Assim, a dualidade entre os dois jovens negros de Chicago, muito diferentes entre si, é o motor que conduz a história.

As atuações de Daniel Kaluuya e Lakeith Stanfield, duas das maiores revelações recentes de Hollywood, são o ponto mais forte de toda a obra. Apesar de seu personagem ser coadjuvante, Kaluuya rouba a cena todas as vezes em que está nela apenas por sua presença. O ator de Corra! faz uma leitura brilhante da figura de Hampton como líder implacável, que dedica sua vida inteiramente aos estudos, à militância, à organização política e aos serviços sociais do partido. A voz em tom baixo, o olhar penetrante, o sotaque, as gesticulações, o interesse pelo estudo da oratória, foram alguns dos elementos que Kaluuya trouxe para a tela e que o fizeram exalar intensidade em todos os momentos, dando vida às palavras de Hampton e conquistando qualquer espectador. Logo, o ator entrega o melhor trabalho de sua já consagrada carreira, ao fazer jus à figura de um jovem sério e obstinado que, vítima de uma estrutura racista e classista, aprendeu desde cedo que ações radicais são a única forma de promover uma verdadeira mudança em problemas igualmente radicais.

Por outro lado, apesar da monstruosidade de Kaluuya, o trabalho de Stanfield consegue se destacar de forma (quase) equivalente. O ator da série Atlanta, sob o desafio de ser o protagonista de um filme que possui um coadjuvante como Hampton, entrega uma excelente interpretação de William O’Neal. O ex-informante, que segundo a história original tinha apenas 17 anos (!) quando foi preso pelo FBI e se tornou delator, é uma figura bastante sombria no conhecimento público. Após ter passado um tempo infiltrado no partido, ele foi o principal vetor da colheita de informações internas dos Panteras para o FBI, o que resultou no episódio trágico refeito pelo filme em seu final, sobre o qual ele falou publicamente em uma única entrevista, dada em 1989. Dessa forma, Stanfield é excelente ao retratar a figura de um jovem que, apesar de ser bastante esperto e sagaz, e agir sempre em prol de seu benefício próprio, é colocado em uma situação moralmente complexa para salvar o próprio pescoço, onde se mostra constantemente apavorado e atormentado pelo caos do ambiente que o cerca.

O (grande) erro do filme

No que diz respeito ao personagem de O’Neal no filme, apesar do grande trabalho de Stanfield, o mesmo não pode ser dito do roteiro. Assinado por King e Will Berson, e indicado ao Oscar da categoria, o texto do longa desenvolve a história de forma dinâmica, coesa e empolgante, sendo especialmente bem sucedido na representação fiel dos Panteras e sua ideologia e ao fazer o contraponto com a sujeira que rege o FBI e a política dos EUA. Porém, o roteiro apresenta seu ponto mais fraco justamente no desenvolvimento de seu personagem principal, que mesmo que seja o fio condutor dos acontecimentos, nunca parece que ele é, de fato, o centro da narrativa. Já nas primeiras cenas de O’Neal dentro do partido, é possível perceber o quanto a sua figura é ofuscada pela presença de Fred Hampton. Não é incomum ver, em filmes, coadjuvantes que roubam a cena do protagonista, mas quando a história é contada sob o ponto de vista do personagem principal, é uma falha notável quando o roteiro sequer mostra de forma clara qual é a real perspectiva desse personagem em relação aos acontecimentos da trama.

A decisão do diretor de desenvolver os dois personagens na mesma proporção poderia funcionar bem, especialmente se tratando de uma história sobre um infiltrado da polícia. No entanto, o que se vê é um cuidado maior com a construção da jornada do ativista em detrimento da do informante. Quando em cenas separadas, Stanfield e Kaluuya parecem atuar em dois filmes diferentes. A trajetória de Hampton é uma história trágica sobre o conflito entre a jornada dele como educador e líder popular, e sua vulnerabilidade, exposta tanto nas suas relações familiares e amorosas, quanto em seus traumas causados pelas desgraças que cercam a vida dos que são como ele. Já O’Neal possui uma trajetória que, apesar de inicialmente interessante tanto por sua atuação no partido quanto por sua relação com o agente Mitchell (Jesse Plemons) para quem trabalha, se torna repetitiva e vazia à medida que o filme progride.

Mesmo com alguns momentos de hesitação, pouco fica claro se o infiltrado tem a consciência limpa ao fazer seu trabalho. Da mesma forma, a obra não mostra se ele se sente atraído ou não pelas ideias do partido, se ele retribui o mesmo sentimento de respeito e amizade que Fred tem por ele, se em algum momento ele pensou em desistir ou até mesmo mudar de lado, tudo fica como incógnita. Além disso, essa sensação de vazio fica especialmente evidente quando se nota que O’Neal e Hampton tem poucos momentos de interação um com o outro , e nenhuma cena dos dois sozinhos, algo que poderia acrescentar mais conflito à situação de O’Neal. Essa falta de conexão entre os personagens que regem a trama faz com que o arco do protagonista pareça ausente, pois diferente do coadjuvante, a única relação construída que ele tem é com o agente Mitchell, que proporciona alguns dos poucos momentos em que o espectador consegue observar seus sentimentos. Assim, o personagem sobrevive graças ao talento de Stanfield, que utiliza expressões faciais e gestos para preencher as lacunas vazias deixadas pelo roteiro.

Apesar de o filme ter dificuldade em decidir se quer dar foco à história de Judas ou do Messias, ele também possui momentos de puro brilhantismo. King e Berson acertaram em cheio em seus comentários sociais e na crítica às instituições do país. Aqui, o Estado é personificado na figura do agente Mitchell, um homem amigável, carismático, progressista, que defende a luta pelos direitos civis dos negros mas que é contra “extremismos”. Inicialmente, ele representa a ideia do “salvador branco”, frequente em filmes sobre racismo, onde o branco é retratado como um ser sensato que é contra a opressão, mas que assume o protagonismo da luta para “salvar” o negro de sua radicalidade. Contudo, o roteiro brinca com esse estereótipo à medida que a história se intensifica, onde a faceta do bom policial norte-americano se desmonta gradualmente e mostra o que, de fato, está por trás deste tipo de pensamento. Além disso, vale destacar também a excelente participação de Martin Sheen como J. Edgar Hoover, diretor do FBI à época que, em uma ótima cena, explica para Mitchell o verdadeiro e cru motivo pelo qual os EUA querem destruir os Panteras Negras.

Os Panteras Negras e a indústria cultural

O Partido dos Panteras Negras viveu seu auge no final da década 60 e início da de 70. Durante esse período, J. Edgar Hoover definiu a organização como “a maior ameaça à segurança interna dos EUA”. Esse discurso ganhou força no país e no mundo capitalista, que vivia sob o medo de uma onda comunista tomar os países do ocidente, especialmente os periféricos. Sob esse contexto, a visão do partido como um grupo terrorista a ser destruído foi amplamente divulgada pela mídia e pela indústria cultural como parte de um esforço do sistema para combater ideais revolucionários de esquerda. Contudo, nos últimos anos, a luta antirracista ganhou o centro dos debates no mundo todo, onde pautas como a representatividade e a violência policial são algumas das mais relevantes discussões da atualidade – e têm sido intensamente absorvidas pelo mercado e pela mídia.

Dessa forma, com a alta no resgate de figuras negras históricas, especialmente na cultura popular, os Panteras Negras se tornam cada vez mais presentes na televisão, nos quadrinhos, no hip-hop e, claro, no cinema. No entanto, a forma como a organização é retratada pela indústria cultural norte-americana não é necessariamente uma leitura fiel dos ideais e do legado do partido. Um exemplo disso é o da cantora Beyoncé, símbolo do “capitalismo negro” que, no Super Bowl 2016, vestiu seus dançarinos com fantasias que simulavam as vestes dos Panteras para a performance de uma canção sobre a identidade afro-americana. É comum ver a representação do grupo ser esvaziada de sua natureza revolucionária marxista, sendo normalmente associada a questões identitárias e a uma representatividade vazia e distante da luta popular – e muito mais amigável ao mercado.

Se o capitalismo vende a “negritude” como uma marca, em Hollywood isso se faz especialmente presente. Na última década o cinema norte-americano viu surgir uma onda de produções com foco na temática racial dos mais variados gêneros e abordagens, renovando a saturada premissa do “racismo é ruim”, mas ainda com a limitação do debate racial majoritariamente na esfera da identidade. Logo, quando um filme como este foi anunciado, sob a promessa de contar uma história sobre a ação de combate dos EUA contra o poder popular revolucionário, deixando explícita a perversão do Estado ao fazer isso, sem dúvida era algo a se prestar atenção. Felizmente, o que torna Judas e o Messias Negro uma obra tão especial, além de sua sólida direção, texto e elenco, é justamente o compromisso da produção com a história da luta popular no país e com a memória de Fred Hampton.

Já em sua primeira cena, onde o personagem discursa para um coletivo negro universitário, ele deixa clara a diferença entre a reforma e a revolução, alerta sobre as limitações da identidade e avisa para o espectador que isso não é uma mera história sobre racismo. Através da montagem dinâmica, o filme cria sequências que levam o público a acompanhar a atuação dos Panteras nas mais diversas camadas de realidade em Chicago. As cenas mostram campanhas de alimentação gratuita, aulas de teoria política, panfletagem nas ruas, planejamento de clínicas médicas, a construção da aliança com grupos de latinos e brancos operários – revelando outras experiências de opressão para além da do povo preto -, e até mesmo a perspectiva revolucionária dentro das prisões dos EUA. King utiliza a linguagem cinematográfica com maestria para fazer jus a verdadeira filosofia do partido, que crê na paz entre os explorados e na guerra aos exploradores, para assim, libertar o povo de um sistema que lhes nega direitos fundamentais como comida, moradia, educação, segurança, tempo e liberdade.

É fato que Judas e o Messias Negro, uma produção hollywoodiana, não é uma obra educacional profunda sobre socialismo e revolução. O filme foi produzido e distribuído pela bilionária Warner Bros. Pictures, que assim como outros grandes estúdios, possui um forte poder de decisão sobre o conteúdo de suas obras e não financiaria um projeto que incitasse o público contra sua própria existência. Contudo, o triunfo de Judas, que deve se fortalecer ainda mais na premiação de domingo, pode abrir portas para uma nova onda de produções culturais de alcance mundial, a exemplo do sucesso de Parasita, que ampliem o debate sobre a luta de classes e as contradições do modelo capitalista, desconstruindo a herança anticomunista da Guerra Fria. Logo, em um momento onde a população mundial observa os índices de pobreza, fome, desemprego e informalização do trabalho crescerem diariamente sob os efeitos da pandemia, obras como essa se tornam indispensáveis.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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