sábado, setembro 18, 2021

A minha dor você não quer

(Crônica)

Às 7h45 acordo depois de uma noite mal dormida. Minha cabeça não para. O azar é todo meu. Memórias, dores e sabores são revividos a cada minuto que permaneço deitada. Uma lembrança é inevitável: a época da escola e o que eu poderia ter feito de diferente se eu soubesse a potência da minha cor.

As dores e os traumas não teriam me feito passar por anos de silenciamento. Confesso! Até hoje luto contra isso. Pretendo superar, mas tendo consciência de que tudo é um processo. Doloroso!

Lábios grossos e nariz achatado. Me lembro como se fosse hoje:

– Nariz que o boi pisou!!!

Depois de tanto tempo ainda me lembro…e a dor não é diminuta. Me recordo como se fosse agora;

– Por que você não alisa esse cabelo? Nem tem como usar solto!

Ou

Por que você não faz as sobrancelhas?

Frases ditas a uma criança de 11 anos na escola. Sozinha e tímida.

Depois de me embriagar com as lembranças difíceis, percebi que, durante a madrugada, tive um sonho um tanto…curioso! Ninguém vai acreditar, mas vou contar assim mesmo.

Sonhei que uma mulher branca e de olhos azuis, falava em rede nacional que queria ter nascido preta. O motivo? Onde já se viu!? Ela queria ser preta porque a cor é bonita.

Bonita, minha senhora, são as marcas que carrego até hoje. Lindas e exuberantes cicatrizes. Herança de dor, morte, prisão e desemprego. E aí, vai encarar? Quer sentir o negro drama e tentar ser feliz? Boa sorte! Você vai precisar.

Eu? Eu vou tomar um café, colocar a armadura e sair pra trabalhar. Ah! Não vou esquecer a minha coroa porque eu mereço. Rainha das dores e não há quem duvide disso.

Enquanto levanto, paro e penso, ainda sem resposta: será que ela queria um pouco mais de melanina ou ser tratada como preto no Brasil?

Deixa pra lá! Foi só um sonho. Onde já se viu branco querendo ser preto!?

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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