Guest Post »

Uma análise sobre Corra! e o racismo velado

Sobre Corra!/Get Out (com spoilers)

A sinopse do longa Corra!, de Jordan Peele, a princípio, é bastante simples. Trata-se da narrativa dos fatos ocorridos com Chris (Daniel Kaluuya, indicado ao Oscar por sua atuação genial e despretensiosa), um fotógrafo bem sucedido, que viaja com sua namorada, Rose (Allison Williams) a fim de conhecer seus pais.

Por Natália Bocanera Monteiro Latorre, para o Portal Geledés 

 

Reprodução/Corra!

A complexidade da trama, no entanto, reside nas características biológicas do casal: Chris é negro, e Rose, bem como sua família, branca.

 

Mais do que um filme sobre racismo, como vagamente é descrito pelas mídias sociais, o diretor brilhantemente teve a proeza de refletir o drama do negro (não só americano, mas, no contexto do filme, principalmente) e seu tratamento pela sociedade branca, através do gênero terror/suspense, o que possibilita que o espectador, mediante o exercício da empatia, sinta e visualize as situações absurdas a que são submetidos em geral, ante a ainda tão racista sociedade em que vivemos.

 

Antes de iniciar a abordagem do filme propriamente dito, digno de se enfatizar o fato de que, ao buscar críticas e resenhas sobre o longa nas grandes mídias e meios de comunicação, não encontrei quaisquer escritas por pessoas negras. Portanto, em que pesem todos os objetivos e demonstrações do filme, é nítido que o negro ainda vem sendo retratado, majoritariamente, pelo branco. E tal, infelizmente, conduz a uma interpretação rasa do filme, ou ainda, em sua abordagem como tema de absurda ocorrência. Tendência que, com esta obra prima aqui discutida, bem como com o recente “Pantera Negra”, esperamos que se altere com o tempo.

 

Absurdos e ficção à parte, o filme não trata de situações de distante ocorrência. Muito pelo contrário.

 

O longa, de forma escancarada, nos traz situações facilmente vivenciadas no dia-a-dia. Se você não foi vítima de uma delas, por certo, foi espectador. E neste aspecto, Corra! é um filme que incomoda, porque denuncia como racistas (o conhecido e negado racismo velado) atitudes que ou aparentemente não o são, ou que querem ser entendidas com efeito contrário.

 

A atmosfera criada pelo diretor já deixa o telespectador amplamente desconfortável e com a impressão de que algo está fora de seus eixos, como toda produção do gênero. E numa introdução com referências no mínimo muito claras, coloca-nos a visualizar um negro, num bairro predominante e evidentemente branco, sendo perseguido por um veículo (branco, como o ku klux klan). O perseguido, notando que está sendo seguido, mostra-se bastante temeroso, afirmando-se para si mesmo: “hoje não, hoje não”. Mas mesmo mudando de direção, é abordado e agredido por brancos, confirmando seu temor.

 

A situação narrada pode ser vista como de absurda ocorrência por algumas pessoas. Entretanto, a situação inversa (um branco sendo perseguido por um negro), com certeza não o seria. Já se perguntou o motivo? Faça um exercício de empatia, se coloque na posição de ambas as pessoas retratadas, e tente visualizar os motivos da linha seguida por seu pensamento.

 

Após o prólogo, vemos o protagonista, que demonstra, logo no início do longa, receio em conhecer os pais de sua namorada, sem que estes tenham prévio conhecimento sobre sua cor. Rose, por sua vez, rechaça a ideia por entender como irrelevante tal informação, justificando seu argumento com a afirmativa: “inclusive, meu pai votaria em Obama pela terceira vez se fosse preciso”.

 

Aqui, o primeiro indício do racismo velado: a necessidade de justificar a ausência de racismo com escusas em outra relação tida com aquela raça ou cor, implica em automaticamente praticar discriminação velada, uma vez que você não pensou na pessoa como um ser humano, mas como ser humano negro.

 

A confirmação de um fim de semana sombrio ocorre na própria viagem: o veículo, dirigido por Rose, atropela um cervo. Posteriormente ao atropelamento, ao serem abordados pela autoridade policial que passa no local, muito embora haja confirmação veemente de Rose de que ela estaria dirigindo o veículo, Chris é interpelado a apresentar sua identidade.

 

As manifestações de racismo velado (e também escancarado) são vistas durante todo o longa. O que pode ser sutil no dia-a-dia de quem as vivencia de fato, aqui, é demonstrado como forte manifestação racista.

 

O relacionamento entre Chris e Rose não é visto com seriedade por seus pais, que os interpelam questionando a quanto tempo eles mantinham aquela “coisa”, referindo-se ao namoro como algo anormal, ou, podemos interpretar, meramente dotado de intenções sexuais.

 

Aliás, a erotização do negro, e sua objetificação sexual, são bastante abordados. Seja por meio da usual, invasiva e absurdamente desconfortável pergunta sobre suposta padronização dos membros íntimos dos negros do sexo masculino, seja pela necessidade de palpação da pessoa para “sentir” seu porte físico, é nítido que o pensamento de erotização prevalece. Aliás, a erotização parece ser a única justificativa plausível para a manutenção de um relacionamento sério entre o negro e uma pessoa de outra cor.

 

Fácil exercício de recordação: dificilmente você não terá presenciado alguma situação de “elogio” à uma pessoa de cor negra, sendo referida como portadora da “cor do pecado”. Foi, inclusive, nome de novela no Brasil. O nível de erotização do negro é escancarado, mas o racismo presente em tais comparativos recusa-se a ser visualizado pela maioria das pessoas.

 

Para dar relevância ao problema, o longa coloca um dos personagens negros da história como escravo sexual de uma senhora, nitidamente bem mais velha, branca. Para possibilitá-lo, e aqui é que reside o aspecto fictício do longa e a revelação do grande suspense da trama, negros são submetidos, pela família de Rose à uma cirurgia neurológica que coloca a personalidade da pessoa em segundo plano, no plano da hipnotização, como se estivesse assistindo, ao longe, a realidade dos fatos que vivencia, e os molda conforme a necessidade. Trata-se de uma tradição familiar, mantida de geração em geração, em proteção à hegemonia branca.

 

O porte da residência dos pais de Rose, a sua localidade, refletem características de fazendas escravistas americanas. A família branca que preza pela tradição de manter empregados negros, utilizados pelos seus “patrões” a bel prazer. Ignora-se a personalidade do negro como pessoa, para colocá-lo como mero possibilitador das vontades daquele que o emprega. Como, de fato, no regime de escravidão.

 

Como se descobre ao longo do projeto, a residência dos pais de Rose constitui um local conhecido pelo sumiço de pessoas negras, casos nunca solucionados pela polícia, nitidamente por falta de interesse. Não se trata, uma vez mais, de um fato de difícil palpabilidade. Os noticiários de qualidade estão repletos de casos não solucionados de desaparecimento de pessoas negras. Vide o já conhecidíssimo caso “Amarildo”. Trata-se de fato notório que não há interesse algum das autoridades em solucionar tais casos. A justificativa, incomodando tal fato ou não, está na cor da pele.

 

O protagonista descobre, no clímax da projeção, que foi levado propositalmente à fazenda dos pais de sua namorada, fazendo ela mesma parte do esquema escravocrata de sua família. Num evento de pessoas brancas, descobre-se que o personagem foi “leiloado” ou “vendido”, num bingo, à um senhor cego, que conhece o trabalho de fotografia de Chris e o inveja. Desconsiderando a pessoa humana de Chris, se verá ele submisso ao procedimento neurológico para realização da transição da mente daquele que o comprou em seu corpo. E sua personalidade, fica em um plano remoto da consciência, visualizando tudo que acontece, sem, porém, poder manifestar-se de qualquer forma.

 

Essa, inclusive, é uma das cenas mais marcantes dos projetos cinematográficos que acompanhei em 2017. O mencionado evento é tratado quase como um funeral, numa atmosfera bizarra,  proporcionada pelas inúmeras limusines enfileiradas que trazem os brancos participantes, retratando as diferenças pelos figurinos, pelos olhares dos figurantes e personagens secundários, todos observando com curiosidade o protagonista, e ressaltando, a cada questionamento, a cor de sua pele. Claro, com referências múltiplas à suposta simpatia por outras figuras negras.

 

A abordagem do plano mental que aprisiona o personagem é propositalmente sufocante e claustrofóbica, sendo fantástica a capacidade do diretor em fazer com que o espectador sinta em sua pele o desespero da ficção.

 

O absurdo, aqui, é encontrado no procedimento neurológico. Porém, trata-se de uma referência analógica nítida ao próprio ato de escravidão propriamente dito. Em ambos os casos, há prevalência da vontade do branco em detrimento da personalidade, das vontades e anseios da pessoa negra.

 

A trilha sonora do filme acompanha a genialidade do seu roteiro, introduzindo, além dos elementos de terror e suspense, que propiciam ao espectador o susto e o medo, o blues em sua origem e raiz, tal como cantado pelos negros escravizados, retrato que vemos em filmes do gênero, nas plantações de algodão.

 

O diretor Jordan Peele nos presenteou, em sua condução, tendente, com absoluta certeza, a se tornar um clássico cult do gênero terror, com uma finalização inesquecível. No ápice da fuga do protagonista, quando o espectador acredita que, finalmente, haverá liberdade, vemos a aproximação de um carro de polícia. O sentimento, porém, não é de alívio, mas sim de temor pela inversão do seu papel de vítima. Trata-se de um imenso soco estomacal no espectador, que, se não percebeu os indícios sutis de racismo e do sentimento do protagonista (e de todo negro) diante das situações a que foi submetido, pode, ao final, experimentar o “dilema” de ser negro em qualquer lugar do mundo.

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

Artigos relacionados