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Uma festa que faz blackface coletivo na Espanha quer se tornar Patrimônio Cultural da Humanidade
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Uma festa que faz blackface coletivo na Espanha quer se tornar Patrimônio Cultural da Humanidade

Um “blackface” coletivo *no município de Alcoy, em Valência (Espanha), pode ser considerado um patrimônio cultural imaterial?

Por Antoinette Torres Soler enviado para o Portal Geledés 

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O Natal em Alcoy, tem como destaque na sua programação os chamados “patges” ou “negrets” em Valenciano. Se trata de um “blackface” coletivo que insulta toda a nossa comunidade. Esses personagens, evidentemente anônimos, se dedicam a distribuir presentes. Batem de porta em porta e até entram em algumas casas. Até aqui tudo perfeito… Mas… Porque pintar a cara de preto? Esse negócio de “tradição” é um assunto delicado, mas não podemos nos esconder atrás de um ato anacrônico que ofende a um setor da população.

Nos surpreende que uma prefeitura dita progressista não tenha visto nada inoportuno na foto do cartaz. Nos surpreende tal miopia. Entendemos o silêncio. Não há muito o que dizer sobre o fato. Isso ofende. E ofende muito. Ofende porque estereotipa, ridiculariza, invisibiliza e falsifica nossa verdadeira imagem. Somos reais. Não somos personagens de fantasia que não se encontram nas ruas de Alcoy ou no resto da Espanha. Não podemos acudir ao passado para evitar as mudanças. Estamos aqui. E nos dói muito que exista essa representação onde os negros são vistos como “palhaços” sem personalidade, sem matrizes e sem humanidade. As tradições são mutantes e devem adaptar-se ao tempo. Isso é vital para a convivência, onde ofensas a setores da população são eliminadas. Alcoy não pode ser uma exceção.

O município de Alcoy quer que a UNESCO dê ao seu Natal o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Não creio que um “blackface” coletivo ajude (em nosso país isso deveria ser visto como uma barbaridade). Nós, por nossa conta, enviamos, através de instituições amigas de caráter internacional, uma carta à UNESCO para que não o conceda enquanto perdure esse “blackface”. Os participantes podem ir perfeitamente sem pintar a cara de negro e ninguém se sentirá ofendido. Não temos muita fé que alguém da prefeitura irá se retratar. De fato somos conscientes que receberemos duros ataques por isso, de maneira que subimos as mangas e estamos preparadas para a luta.

Falamos alto para que fique claro: nós negros não somos seres de fantasia. Nós negros temos dignidade e estamos aqui para sermos ouvidos.

Se você quer apoiar nossa comunidade que vive aqui, por favor, firme nossa petição em Change.org para que o governo Espanhol se dê conta de que não pode mais normalizar o blackface (link: https://www.change.org/p/stop-blackface-in-spain). De momento, estamos sendo completamente ignorados pela prefeitura.

Autora: Antoinette Torres Soler
Tradução: Roddy Calo
Revisão: Mariana Olisa
Texto original: https://afrofeminas.com/2017/12/07/un-blackface-masivo-en-alcoy-puede-ser-patrimonio-inmaterial-de-la-humanidade/

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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