Uma pioneira da dança afro-brasileira

Marlene Silva fala de sua trajetória de talento, luta e resistência

Marlene Silva, mais de quatro décadas de dança, luta e resistência (Reprodução do site O Tempo)

“Marlene Silva” são as primeiras palavras pronunciadas ao atender o telefone. Ela faz um “s” com som de “X” enquanto fala, fruto dos anos vividos no Rio de Janeiro, mas alerta: “O pessoal que não me conhece tão bem até acha que sou carioca, mas sou mineira, de Belo Horizonte, nascida no bairro Concórdia”. Depois de saber que a reportagem é sobre sua trajetória de mais de 40 anos dedicados à dança e à cultura afro, ela começa uma narrativa bem-humorada calcada em sua memória, nos espetáculos que montou, nas viagens que fez e em muito preconceito. “Sim, nós vamos falar sobre o preconceito”, ela me diz mais de uma vez, durante nossa conversa.

Marlene foi a homenageada da Mostra Benjamin de Oliveira e, assim como o palhaço negro (o primeiro do Brasil), que dá nome à programação, também ela é importante para a cultura afro-brasileira por seu caráter precursor e inovador. “Marlene tem uma importância para a cidade e uma relevância nacional, no tanto que ela se dedica a ser uma multiplicadora de uma forma de dançar, a dança afro-brasileira”, pontua Rui Moreira, dançarino, coreógrafo e um dos curadores da mostra.

Ainda criança, Marlene se mudou para o Rio com a mãe, que foi trabalhar como cabeleireira. Por sugestão da matriarca, ela começou a fazer aulas de balé clássico, numa escola de dança, no bairro do Catete. “Eu era a única aluna negra da classe. Durante seis meses, a professora me ignorou completamente. Minha mãe foi perguntar se tinha algum problema comigo, e a professora disse que eu tinha o bumbum muito empinado e ele não caberia dentro do tule. Minha mãe me tirou do balé na hora”, relembra.

Verve. A primeira experiência malsucedida com a dança serviu apenas para adiar a relação de Marlene com os ritmos e coreografias, mas sua verve artística se manteve. Ela aprendeu a tocar acordeom – instrumento deveras complexo – no curso de Mário Mascarenhas. Habilitou-se, inclusive, como professora de teoria musical. Aos 21 anos, finalmente, ela assistiu, pela primeira vez, a uma apresentação de dança afro-brasileira, com o balé folclórico de Mercedes Baptista – outra figura fundamental para as expressões artísticas afro-brasileiras. “Eu sempre fui muito boa de história e quis estudar nosso folclore; quem dera todos tivessem a oportunidade de estudar o folclore brasileiro. No Rio de Janeiro, tinha orquestras em todos os teatros públicos e também as companhias de dança. Na primeira vez que eu vi o balé de Mercedes Baptista, pensei comigo: é isso que eu quero”, relembra.

No importante e aclamado “Xica da Silva” (1976), de Cacá Diegues, com Zezé Motta, Walmor Chagas e José Wilker no elenco, Marlene foi convidada para trabalhar os ritmos e a coreografia presentes em uma das cenas do filme. Ficou em Diamantina por cinco meses e conheceu Dulce Beltrão, que tinha uma escola de dança em Belo Horizonte. Ali, a jovem coreógrafa viu a possibilidade de voltar à capital mineira para desenvolver seu trabalho. “A escola tinha duas salas bem pequenas, e nós abrimos as turmas, que logo ficaram lotadas. Não tinha ninguém fazendo dança afro na cidade, costumava ter somente capoeira”, relembra Marlene.

Dali em diante, Marlene seguiu sua prolífica saga criativa na cidade. Em 1980, ela abriu sua própria academia, na rua Carangola, no bairro Santo Antônio, na zona sul da capital. Fez diversas coreografias e espetáculos, vistos por milhares de pessoas. O primeiro deles, “Raízes da Nossa Terra”, estreou, inclusive, no Teatro Francisco Nunes, mesmo palco onde Marlene foi homenageada na última terça-feira.

Conta que foi muito emocionante voltar ao Chico Nunes. “Eu me segurei para não chorar, porque, se eu choro, eu não consigo falar”, comenta ela, pelo telefone, já com a voz embargada. “Quando Marlene Silva vem a BH, ela cria um coletivo que coloca bailarinos negros para dançar e faz uma ponte entre a periferia e o centro. Como ocupação artística, ela leva os dançarinos de dança moderna para a periferia, como também a dança afro para o centro, em espaços mais reconhecidos e consagrados, como o Palácio das Artes”, pontua Rui Moreira.

Marlene e sua companhia conseguiram – algo difícil até hoje – apresentar seus trabalhos no Grande Teatro do Palácio das Artes, talvez o palco mais nobre e elitista da cidade, onde não se costuma ver espetáculos de dança dessa origem. “Eu queria muito apresentar no Palácio das Artes. Eu fazia questão disso!”, ressalta.

Evento aposta em caminhos para a visibilidade

A edição 2018 da Mostra Benjamin de Oliveira – que se encerra hoje (confira programação na página) – se coloca como mais um lugar de representatividade e de visibilidade para artistas negros de Belo Horizonte e também do Brasil. “O pensamento da mostra é trazer luz para essa invisibilidade de muitas produções e artistas negros”, pontua Rui Moreira, curador da mostra ao lado de Mayra Motta.
Com foco na dança, a Benjamim de Oliveira, segundo seu curador, dialoga com os tempos vividos hoje no país, na esperança de um futuro mais otimista. “Não se trata de um otimismo abstrato, eu tenho esse olhar por conhecer o movimento das coisas em diversas áreas: educação, saúde, cultura. Vejo um empreendedorismo negro de várias iniciativas e existe uma série de movimentos que convergem, como o Festival de Arte Negra (FAN), o Polifônica Negra, a Segunda Preta, por exemplo”, reflete Moreira.

E continua: “Não podemos deixar de pensar no quadro histórico do país, já que as desigualdades não são apenas artísticas. Temos problemas também de paridade na política, na educação, em cargos de chefia. Por outro lado, seja na cultura ou nas áreas sociais, temos a possibilidade de levantar a visibilidade para essa cultura afro, na tentativa de construção de um país mais equilibrado”, ressalta.

Programe-se

O quê. Oficinas infantis gratuitas

Danças urbanas para crianças, Breaking no Asfalto (MG), a partir de 9 anos, às 10h

Fuzuêzinho d’Aruanda, Companhia de Aruanda (RJ), às 17h

Onde. Em frente ao Teatro Francisco Nunes, Bar da Mostra – Barulhista, Sérgio Pererê e Richard Neves, às 20h, no Tambor Mineiro, ingresso – R$ 20

 

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