domingo, julho 3, 2022
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Universidade pública de boy pra boy?

Por Allan da Rosa, 

A Folha constata (ou será sugere) que 60% dos alunos da USP podem pagar para ali estudar. O jornal nem proseia sobre a deplorável administração do reitor ainda eleito indiretamente, autoritário gastador chancelado pelo governador. E nunca cabe uma vírgula nesse diário sobre barões pagarem impostos equivalentes ao seu butim, nem questionar obras bancadas por ‘parcerias’ que terceirizam e esbagaçam as mãos que mexem as colheres de pau e de cimento dentro da ilha universitária.

O que não esperar dessa mídia graúda? Quando não zoa pra privatizar barato, nivela por cima e em nome da justiça do bolso sugere na miúda um coador pelo avesso. Vem coçando nossas decepções e rancor, muito compreensíveis, de quem não consegue vaga no tabuleiro uspiano, marcado por movimentos de xadrez antigo estruturado pra nos repelir. Na alusão a justiça social, do pagar estudo ali, fica o aplique pra gente abraçar. Eles sabem que não é só no trem lotado que a gente pode pisar no nosso próprio pé e dar cabeçada em nós mesmos; sabem que não só na calada podemos ser jagunços de nós mesmos e manjam que escalpo de torcida organizada (Silvas matando Silvas) tem abestalhado sabor de gol de empate depois de derrota vexatória no estádio, quando boleiros e cartolas já voltam às suas limusines depois de arrearem contratos e caneleiras. Se fiando no nosso amém, vale nos tirar de cena pra beira da piscina quente seguir no seu sossego pálido.

Editoriais vem de leve, encourando um sapato até que ele nos chute de vez: que se pague tal mensalidade além dos impostos já pagos e direcionados à Educação. Mas quem pode bancar dois mil, três mil pra estudar na USP? E quem a quer cerrada, por carimbo ou cassetete, rapelando gente preta e pobre? A levada da matéria da Folha tem a PUC do Rio como referência monetária… Escabrosa referência. Lembro de escassa malungagem que penou suas dívidas na PUC de SP, diluídas em gastrites, insônia e tribunais. E também nos graduandos grã-finos que chapam no centro, escoltados toda tarde sem perigo nos bares da rua Maria Antônia. Talvez seja trabalho de campo… de quem os escolta.

Quem entra e como entra e segue na universidade pública? Como desempenham os cotistas Brasil adentro? Provou-se que até bem melhor que não-cotistas. Por que não perdem oportunidades? De onde vem a moeda pra bancar as fotocópias? Cai suada essa nota no balcão ou vem cheirando bombom de free shop? Lançar cotas para negros e indígenas, demonstrando que junto e além do funil espinhoso do prisma de classe há outros moedores no currículo, didática, despreparo e deformação de magistério pra lidar com corpos e culturas indesejadas e desprezadas pela escola… isso ainda afina o bochicho contrário vindo até mesmo de uma tida ‘esquerda’, essa que por cargo e mandato se presta a arrematar canetadas que nem mesmo a direitose mais safardana se encorajou.

A USP é muito mais que uma sala de aula. São laboratórios, intercâmbios, acesso a incubadoras, oportunidades de trabalho e pesquisa, seminários, museus, cinema, teatros, extensão universitária com movimentos sociais e coletividades de distintas atuações, possíveis viagens a regiões inóspitas ou centrais, condições tecnológicas singulares… e aulas. Tudo que a elite cagona e vampira, escudada também por seus embaixadores na mídia graúda, tenta manter aos poucos que desde os sete anos de idade já aprendem três ou quatro línguas europeias.

Há a mágoa popular, claro, compreensível diante de uma universidade tantas vezes servil aos ricaços paulistas, por planos bem traçados quase inalcançável à nossa maioria. Que dita conhecimento tantas vezes produzido apenas para seus pódios, alimentando seus talheres de prata. Ou é uma universidade que forma mesmo médicos incomodados com os pacientes fora do raio central do seu mapa de revista de avião? Será uma universidade pedante dos que conhecem o melhor escargot de Paris, o melhor brinquedo da Disney, mas nunca viram uma marmita de Itapecerica da Serra, nem um parquinho do Jardim Miriam?

Há muitas cirandas em que se envolve quem vem das quebradas, roçadinhos, mocambos, favelas, rincões, cortiços e subúrbios. Inclusive para muito além do engessado ‘movimento estudantil’. E esse ar fresco é ventania na janela, trazendo friagem pro casaco de pele de raposa, ao se empoderarem ali mulheres negras, a rapaziada humilde, indígenas e andinos migrantes, etc, gente lutando também contra o que infantiliza ou estereotipa suas tradições e balanços. Paga a universidade pública, nisso há relação com o passo e o ritmo que se ali se abrem a outras narrativas e enfoques? Para abordagens mais complexas das contradições humanas sem superficialidade interesseira? Críticas aos saques que há milianos nos põem na prateleira do fetiche ou do coitadismo, eternos objetos de pesquisa? Quantos rojões solta ainda a sugesta de uma tal ‘ciência neutra’?

Não é defender ninho da vampiragem da burguesia. Inclusive essa é uma trinca no crânio de vários que ali chegam das beiradas e respondem de formas distintas: desde a assimilação murcha de formas e conceitos, até o isolamento ou mesmo o suicídio (meu amigo Sérgio, dos que comigo passou no vestibular vindos do cursinho do Núcleo de Consciência Negra na USP em 1998, entrou em Geografia na ilha e depois de muito azedo e pira não guentou o arreio psico e se matou. Testemunhamos o processo espinhoso). Sim, quem chega das suas quebradas e ali não se reconhece, por vezes no mínimo se envergonha de estar na mesma maré que uma elite chupim que vive de mesada ou que tem até acesso a um currículo invisível que alivia a pisada nos pedregulhos do vestibular. Mesma maré mas não a mesma barca, porque entre Bateau Mouche e navio negreiro tem muita onda, entre iate cinco estrelas e canoa de córguinho há muitas braças de fundura.

Estudar. Intervenção e reflexão, sensibilidade e crescença. Sim, questionarmos até nossas próprias condições e estratégias… engajados que somos até à medula em causas por si também imperfeitas. Em todos os campos, quem pode gingar? Da engenharia de neurônios que pode levantar paralíticos (sem dízimo); da arquitetura matutando materiais e uma cidade pra além do pseudo-cidadão consumidor medroso e enjaulado; da filosofia da educação; da astronomia, da matemática aplicada; das letras clássicas ou vernáculas na apreciação e debate sobre os textos das literaturas das bordas e miolos secos do mundo, refinada, agressiva, serena ou crua, excluída dos currículos e editoras por ignorância ou pavor.

São várias as pessoas de profundo valor que conheci e conheço na universidade pública. Mestres que tive e tenho. Desde o cursinho feito em 98 no Núcleo de Consciência Negra na USP (sempre resistindo ao derrube), lembro nós os abelhudos frequentando a ilha sem carteirinha e o inestimável corpo de professores. Barracão insurgente hoje espalhado por cidades e empresas, universidades e movimentos sociais, mídias e bibliotecas, empedrando a botina dos vampiros.

Rodando como palestrante, oficineiro, versador ou educador, convidado em muitos centros culturais e universidades brasileiras e gringas, nos últimos anos percebi uma marginalia frutífera que já refaz a história. Mexe a poça estagnada, revira epistemologias e meritocracias, é ameaçada dentro e fora dos corredores pelos professores encastelados ou pelos vigias que desconfiam serem trombadinhas (e até são, mas as carteiras estão também dentro dos capítulos e teses). Muitas vezes dependem de moradia estudantil e bolsa de estudos, aquela merreca que sustenta às vezes até filhos e avós. Isso da UFAM à UFRGS, da URCA no Cariri às beiradas da UNEB e da UNICAMP, das frestas pretas na UFSCAR às reviravoltas da UNILAB. Em federais e estaduais de estruturas ainda coronelistas que recorrem volta e meia a mecanismos da ditadura oficial brasileira ou à sua atual democracia militar que rege a sombra das favelas da nação.

Que não sucateiem ou fechem mais as escolas existentes e que se abram mais universidades públicas – mas com viga mestra e água, rumo e remo, pra firmar com categoria e não pisar espanado, não vogar casa sem estrutura depois da faixa de inauguração, como hoje deixam sem guarida nossa gente na UNIFESP e na USP/Leste.

Já a profusão de Unipipocas e Unifezes privadas polifera vendendo canudo baratinho, mascando o chiclete do sonho do diploma pra um emprego seguro, estabilidade cada vez mais areia escoando nos dedos. Faculdades requenguela para quem acreditarmos que somos requenguela. Unipoeiras e Unibidês bancadas até federalmente, máfia da educação miliardária que enche o papo de negociatas e gráficos de lucros do diário de classe. Lambem o mercado do prézinho ou salivam pras pós e especializações movidas a mega-investimentos e franquias.

Por isso é importante pra mídia graúda fomentar e alastrar pra geral, inclusive pra nossa banca que há muitas luas rói beirada de pinico e vende fogão pra comprar botijão, que a universidade pública é apenas pros parasitas, empreendedores da carcaça alheia como são os que dominam a varanda dessa casa grande desde antes das universidades joaninas de 1808, os da gulodice de manter aos seus herdeiros o quinhão intacto. Afinal, questionando cânones e cadeiras, quem vai pilotar seus fogões e limpar seus tapetes e jardins se nos metermos a estudar seus radares e suas leis, suas próteses e seus divãs?

Começa junho. Volto pra quebrada com a minha véia, lá do SUS na Chacara Klabin. Dona Ana com seus 72 verões recomeça tratamento de mobilidade, ortopedia, que as dores e remédios acachapantes reinam. O PS público aqui do distrito deve ter vaga só pro dia da final da copa… de 2018. No caminho vou sacando cartazes de renomados colégios particulares. As propagandas com fotos dos guris garantem futuro fofo… parece a Noruega na fita anunciando matrículas, a marquetagem anuncia quanta cara pintada já saiu dali direto pro trote nas faculdades desejadas. Lastimo: se ali desde as fraldas se vêem como naturais paraninfos em bailes de formatura, há nada em comum com a molecada que aqui faz lição na viela, ao som da rádio A.M, ou que defronte meu portão descarrega, desbica e se joga entre as buzinas atrás do mandadão. Empinando pipa, estudando física e geografinta. Mãos pensantes, malícia e pureza ainda trançadas florescendo. A pele, o CEP e até o sotaque: tudo difere do cartaz do vestibular prometido. “Quem sabe vou sim entrar na USP, né, Allan? Diz aí tu que conhece lá: quando é a seleção pra segurança?”.

Lembro também quando subia pra estudar no apetite de vestibular, mais um prestes a ser indesejável contaminando a conceitolândia pálida, e rumo metrô Jabaquara passava pelas camaradas de infância na Vila do Beco, pelos boleiros do Chaparral na Guian cortando a Vila Campestre, pela patota ilícita na Rua do Céu, pelos manos de firma e de rolê da favela do Calipal, hoje derrubada. E a mesma turma que incentivava pra eu não desanimar da miragem era a que depois cabreira ou gozadora lançava: ‘E aí, mano? Entrou na Nasa memo? Virou boy?’

Allan da Rosa é escritor e angoleiro. Historiador e mestre em educação pela USP.

Fonte: Revista Fórum

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