sexta-feira, novembro 26, 2021
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Vendem-se limões; desejam-se morangos

Hoje sinto todo peso por ser quem sou. Sinto-me perdida, sem identidade, intimidada por minha própria força.

Tem uma força em mim que me impele a continuar; uma maldita força que não é só minha: é antes das minhas ancestrais, daquelas outras que vieram antes de mim e que também tiveram que continuar; tenho uma insustentável força que arrasta tudo dentro de mim, que me arrebenta e me arrebata que ao mesmo tempo me lança d’um penhasco sem precedentes. E eu vou caindo… caiiiindo…. caiiiiiiiiiiiiiiindooo feito chuva fina sobre o buraco da angústia.

Enquanto caio vejo rostos: todos femininos. Alguns rostos já viraram borrões e eu não consigo decifrar suas expressões, mas tenho certeza que choraram porque consigo sentir a umidade em cada face turva e, em cada rosto, me reconheço: são minhas iguais.

A sensação da queda até que é boa: soa como uma liberdade anunciada daquilo que não podemos controlar. Não há o que fazer: somente posso esperar que o corpo que agora cai encontre seu destino – que pode ser qualquer coisa, e tudo parece bom, porque a tal força parece não mais me acompanhar.

Sinto então a leveza do abandono das coisas: uma pluma que paira no nada e que somente espera o toque da brisa ou um sopro ou uma rajada de vento ou um furacão. Tanto faz! E assim é porque não importa o que vem depois se o futuro é só uma suposição e o passado não fez com que o presente fosse afável: as coisas simplesmente são e a gente é somente o que pode ser.

Eu sou aquela que só quer perceber as coisas como elas são. Me basta a análise e o justo sentimento dos fatos: não quero ser aquela de quem se espera a superação e a transformação das coisas. Gosto da franqueza que há em ver a vida tal como é e de pensar como ela poderia ter sido “se”.

Porque essa coisa de fazer a limonada com os limões que a vida dá é só uma forma de empurrarem mais culpa sobre a cabeça das crianças que estão nos sinais de trânsito equilibrando o azedume da fruta em troca de um prato de comida.

A vida me deu limões, mas eu também queria ter ganhado morangos com creme de leite no natal, numa mesa bem farta, rodeada de luzes que piscam ao infinito… mas eu ganhei… limões! E por isso sou obrigada a positivar este fato, a engolir minha insatisfação e revolta e disfarçar meus sentimentos em forma de limonada?

Eu não quero fazer limonada! Também não quero fazer malabarismos com os limões no sinal! Eu quero ter direito aos morangos! Porque morangos numa mesa de café da manhã são algo de lindo, algo de esperançoso, algo de pleno e, mais que isso: algo de justo!

Mas até aqui tem sido morango para alguns e “ao vencedor as batatas”, como diria Quincas Borba.

E a mulher ainda não venceu. Nem batatas, nem morangos, nem tese, nem tranquilidade: apenas rostos borrados e úmidos que emitem uma gargalhada uma vez ou outra para informar desta maldita força; uma força que hoje sei que é Vital e que aprendi a chamar “Axé”! Esta força que informa ao mundo que muito bem não tenha morangos, mas também não viveremos de limonada: vai ter luta e resistência! Vai ter quilombo e vai ter gira! Vai ter mais que transformação: vai ter alquimia.

Porque essa força maldita que carrego desde o ventre que me gerou, há um segundo de meu corpo tocar o solo do penhasco inesperado, abriu-se sobre mim com um paraquedas e me fez repousar sobre a escuridão do que ainda desconheço.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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