sexta-feira, dezembro 2, 2022
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Vice da chapa favorita nas eleições da Colômbia, Francia Márquez vira alvo de fúria racista nas redes sociais

Ambientalista Francia Márquez, de 40 anos, compõe chapa com Gustavo Petro, candidato da coalizão de esquerda; desde sua nomeação, 'nunca houve tantos comentários racistas', diz pesquisadora

Fonte: O Globo

Do preconceito de classe à comparação a um macaco: o bom momento político da candidata e ambientalista Francia Márquez, de 40 anos, deflagrou uma fúria racista neste país historicamente governado por homens da elite branca.

Do preconceito de classe à comparação a um macaco: o bom momento político da candidata e ambientalista Francia Márquez, de 40 anos, deflagrou uma fúria racista neste país historicamente governado por homens da elite branca.

A candidata a vice-presidente pela coalizão de esquerda liderada pelo senador e ex-guerrilheiro Gustavo Petro, à frente nas pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial em maio, tem sido atacada por uma onda racista incitada pelas redes sociais.

Marbelle, famosa cantora colombiana, usou o Twitter para comparar Francia ao gorila King Kong, e daí se seguiu uma série de ataques.

Em um comentário igualmente infeliz, o senador Gustavo Bolívar postou — e depois apagou — uma imagem de King Kong segurando nas mãos a atriz Naomi Watts, no papel de Ann Darrow, com a seguinte mensagem: “Querida Marbelle, quando eu for vice-presidente, farei todos respeitarem você e lhe darem todo o amor que está faltando”. Detalhe: Bolívar é do mesmo movimento que Francia.

Dias antes, a jornalista Paola Ochoa soltou uma declaração de conteúdo semelhante em uma estação de rádio: “Qualquer pessoa vai ficar muito bonita, muito legal, muito rica em comparação com Francia”. Acabou se desculpando depois.

— Não me surpreenderam — respondeu a ativista na Rádio Caracol, ao comentar os ataques. — Pelo contrário, permitiram expor o racismo, escondido, mas que sempre esteve aí.

Ao obter a segunda melhor votação (785 mil votos) nas primárias do Pacto Histórico, a coalizão de oposição liderada por Petro (4,4 milhões de votos), Francia se tornou um fenômeno político.

Premiada em 2018 com o Prêmio Goldman — também conhecido como Prêmio Nobel do Meio Ambiente — por sua luta em defesa da água, a candidata pode se tornar a primeira vice-presidente afro-colombiana.

Francia Márquez (Foto: Natália Carneiro/Geledés)

Desde 23 de março, quando Márquez e Petro anunciaram sua chapa, há um “processo de exacerbação” da segregação nas redes sociais e na imprensa, afirma a diretora do Observatório de Discriminação Racial da Universidade de Los Andes, Amanda Hurtado.

— Nunca houve tantos comentários racistas — acrescenta Hurtado, que monitorou mais de cem agressões com milhares de retuítes.

Diante da enxurrada de insultos gerada por seu tuíte, o senador do Pacto Histórico Roy Barreras apresentou ações legais contra a cantora Marbelle por “assédio” e outros crimes. A lei pune com até três anos de prisão quem agredir uma pessoa física ou moralmente por sua raça ou etnia.

Com poucos sorrisos, Francia também atrai críticas por seu discurso revanchista e feminista, assim como por suas insistentes demandas por “justiça racial”.

Racismo estrutural

Em torno de 9,3% dos 50 milhões de habitantes da Colômbia se reconhecem como negros, uma das populações mais afetadas pela pobreza e pelo conflito interno. Segundo dados oficiais, 30,6% dos colombianos negros são pobres (de um universo de 42% em todo país), e 12% deles estão desempregados.

A Colômbia sofre um racismo “estrutural” e “historicamente naturalizado”, explica Cindy Hawkings, advogada do Instituto sobre Raça, Igualdade e Direitos Humanos, acrescentando que as comunidades negras têm pouca “participação na vida pública e política”.

Os recentes comentários contra Francia demonstram, claramente, “essas relações de poder e de privilégio”, enfatiza Cindy.

O gabinete ministerial do presidente em fim de mandato, Iván Duque, tem apenas uma pessoa negra, e o Congresso bicameral, com 280 assentos, tem 11. Além disso, governam apenas quatro dos 32 departamentos (estados) mais suas capitais.

Em meio à ascensão de Francia, outros três candidatos escolheram um colega de chapa negro para a corrida presidencial.

Em entrevista à AFP em fevereiro deste ano, ela declarou que busca o poder para representar “os menos favorecidos” e “aqueles que não têm os direitos reconhecidos”.

— Ou a política é antirracista, ou não é — proclamou esta líder que, muito jovem, teve de fugir de seu estado natal, Cauca, devido a ameaças de paramilitares. Em 2019, ela sobreviveu a um atentado com granadas.

Sempre de roupas coloridas de estampas africanas, Francia “enfrenta muitas relações de poder e de hierarquia baseadas em sexo, gênero, pertencimento étnico e raça” por parte da política tradicional, afirmou Hawkings.

Desde a abolição da escravidão no país, em 1851, em contraste com as “elites brancas esclarecidas” — acrescenta Hurtado —, as comunidades negras “subalternizadas” foram relegadas ao cuidado do lar, à cozinha e aos serviços domésticos.

Sua imagem “é uma ruptura e um marco”, porque ela “sai desse lugar (marginal)”, conclui.

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