A história de formação, o funcionamento das estruturas políticas e econômicas, o papel das mulheres na liderança do território, o uso de práticas de agricultura sustentável e outros aspectos importantes sobre o Quilombo dos Palmares são contados no podcast narrativo Vida Palmarina.
Ao ouvir o podcast, a pessoa que não conhece tanto sobre o maior e mais longevo quilombo do país descobre que Palmares chegou a ocupar uma área de 27 mil km², próximo ao tamanho de Alagoas. O ouvinte fica sabendo também que o território não era composto apenas por ex-escravizados, mas por brancos e indígenas.
São cinco episódios, com duração média de 30 minutos cada. A realização é da produtora Janga, em parceria com a Central 3. Tatiana Nascimento, pesquisadora e produtora cultural, é a idealizadora e apresentadora da série.
O podcast conta com a participação de acadêmicos, autores e especialistas, como os historiadores Danilo Marques e Zezito Araújo; a pesquisadora Mariléa de Almeida; o agricultor e ativista Joelson Ferreira e os jornalistas Marina Lourenço e Tayguara Ribeiro. A narrativa é ancorada também nos ensinamentos da historiadora Beatriz Nascimento, importante intelectual que se debruçou em ressignificar o conceito de quilombo.
O Portal Geledés conversou com Tatiana Nascimento sobre as motivações para criação do podcast e a relevância de se disseminar as contribuições históricas dos quilombos para a população brasileira.

Confira a entrevista completa!
Portal Geledés: Qual a motivação para a criação de um podcast sobre o Quilombo dos Palmares?
Tatiana Nascimento: Beatriz Nascimento. A voz e o texto dela no filme Orí e o conceito de paz quilombola. Quando estava discutindo com Caio Maia, dono da Central 3 e quem apostou nesse podcast, sobre fazermos um projeto juntos, começar por Palmares nos pareceu natural, uma vez que esse movimento de liberdade estava em terras brasileiras praticamente ao mesmo tempo em que começaram a chegar as primeiras pessoas escravizadas. Achei uma oportunidade perfeita para remontar a história que nos contaram desde que chamaram esse território de Brasil.
Portal Geledés: Como você define o Vida Palmarina? O que o ouvinte encontra ao acessar o podcast?
Tatiana Nascimento: Vou parafrasear nosso convidado do episódio 2, Zezito Araújo, “Palmares, pra mim, é vida”. Vi essa vida em Orí, vi essa vida nas palavras de Clóvis Moura e também de Beatriz e Lélia. Queria mostrar isso para cada habitante do Brasil porque, inclusive, o que parece ser uma utopia esteve aqui e foi real, concreto.
Acredito que o ouvinte vai encontrar o brilho que arrancaram de nossa história, vai encontrar esperança e mais do que isso, vai perceber como essa história faz muito mais sentido quando vamos juntando todas as peças. O ouvinte vai encontrar o Brasil. Deixamos ao final de cada episódio a bibliografia utilizada pelos convidados e por nós, pois esperamos que continuem lendo e pesquisando a partir dessa perspectiva.
Portal Geledés: Apesar da existência do Quilombo dos Palmares ser amplamente conhecida pela população, informações sobre seu funcionamento e dimensão, contadas no podcast, não são tão disseminadas. Como se deu o processo de pesquisa?
Tatiana Nascimento: Esse processo foi muito importante. Eu, como produtora, ando pensando muito em processos em geral e como eles determinam resultados e direcionamentos. A primeira informação relevante nesse sentido é a de que eu mesma já vinha estudando o tema há algum tempo, ou seja, tinha uma noção do caminho que me levaria à boas indicações e fui atrás do professor do Celacc/USP que mais me desafiou a pensar: o professor Salloma Salomão (Salomão Jovino) foi quem me apresentou “Orí”. E foi a ele que recorri para me indicar bons pesquisadores para esse assunto em específico.
Com isso, cheguei a Danilo Marques e Bebel Nepomuceno, com quem tive a felicidade de trabalhar e aprender ainda mais. Duas pessoas com experiência de vida e conhecimento empírico e acadêmico. Danilo é alagoano e professor de história da UFAL, cujo tema de doutorado foi Palmares. Bebel é doutora em história social com foco em história da África, o que daria à pesquisa essa visão do continente africano.
Portal Geledés: Por que é importante disseminar a história de Palmares e a relevância histórica dos quilombos para a população brasileira?
Tatiana Nascimento: Na minha visão não só é importante como é fundamental. Somos um país de 56% de pessoas negras para as quais foram contadas histórias irreais de fraqueza, de desumanização e de falta de conhecimento. As pessoas negras que foram trazidas à força de várias regiões do continente africano eram o contrário de toda essa história que nos foi contada por séculos.
Chegou a hora de virar de volta o espelho para aqueles que detinham o domínio e o controle do que era narrado e que colaram ao corpo negro o que não queriam ver neles mesmos. Contar o que realmente aconteceu em Palmares, trazer de volta o modo de viver, inspirado no povo Bantu e também na sabedoria dos povos originários desse território, trará coerência e força para o Brasil de hoje.
Contar a história de Palmares é reconstruir o passado que (também) nos foi roubado.
Os quilombos guardam, ainda nos dias de hoje, esse outro modo de estar no mundo e de se relacionar com ele.
Portal Geledés: Quer adicionar mais algum comentário?
Tatiana Nascimento: Gostaria de trazer aqui um trecho do livro de Rosane Borges, “Imaginários Emergentes e Mulheres Negras – representação, visibilidade e formas de gestar o impossível”, que também conversa com Beatriz Nascimento em muitos trechos.
“Decididamente, nós, mulheres negras, abdicamos da tarefa de remendar os buracos do mundo e nos engajamos na produção de outro manto, tecido por bordados e pontos de costura bem diferentes dos que foram manufaturados na usina do desenvolvimento cuja fiadora foi a modernidade ocidental. Munidas dos saberes e das tecnologias ancestrais, estamos aqui não somente para descolonizar o mundo (tarefa inegavelmente importante), mas também, como disse acertadamente Oyeronke Oyewumy, para exercer nossos hábitos de soberania”.
Diante disso, lembro que durante a realização do podcast uma notícia chamou minha atenção: um mapa de Palmares foi achado em Harvard. Esse fato confirma muitas coisas, entre elas: a importância do movimento palmarino/angolano, como ele ameaçava o sistema vigente e como é importante recontarmos essa história do nosso ponto de vista, antes que o colonizador o faça novamente.