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Você se sentiu representada (o) no casório da família real britânica?

A família real britânica não exerce poder político definidor há tempos. Mas seu simbolismo e tradição são pontos caros aos ingleses e deveriam ser caros ao resto do mundo também. Em especial aos descendentes de africanos e, sobretudo em países vítimas da colonização pelo mundo afora. A família do noivo ruivinho tem uma tradição de cerca de mil anos. Atravessou, portanto, o antes, o durante e o depois dos quase quatro séculos de escravidão mercantil, que devastou a África e assolou o chamado novo mundo.

Por Douglas Belchior e, seu blog 

(Ben STANSALL- WPA Pool//Getty Images)

O tráfico de pessoas escravizadas se estendeu por esse período e vitimou, por baixo, cerca de 12 milhões de seres humanos africanos. A riqueza gerada pela escravidão rendeu à Inglaterra o acúmulo primitivo de capital suficiente ao advento da primeira Revolução Industrial e manteve o este país como a grande potência mundial nos séculos XVIII e XIX. Isso mesmo, o sangue do parto do capitalismo mundial é de africanos escravizados, indígenas e seus descendentes.

Por todo o século XX, a Inglaterra manteve colonizações violentas em dezenas de países da África e de outros continentes, promoveu apartheid na África do Sul e liderou, ao lado dos EUA, o avanço do capitalismo mundial em seu formato neoliberal por meio de Margareth Thatcher, nos anos 70 e 80, sempre com as honras da Coroa. Hoje a família real ainda detém, além do financiamento do governo/estado inglês, o patrimônio de terras e negócios na Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte e uma fortuna imensa não revelada.

Todo o glamour, a elegância e a riqueza do casamento dos pombinhos, tem essa origem aí… sacou?

É até bonito ver uma neo-princess-afro sorrindo na tela, uma mãe preta super elegante e emocionada, um coral black super afinado e um pastor preto simpático citando Luther King. Mas comemorar um casamento real em um país imperialista, colonial e escravocrata como um ganho para a comunidade negra ou para o povo negro, aí não. Por favor! É preocupante a adesão, em especial pela negrada, ao crescente discurso de valorização de uma representatividade vazia de significado, legitimidade e preocupação com a coletividade, cada vez mais liberal e individualista. Será que não aparecemos ali exatamente no lugar de sempre? Servindo, cuidando, cantando, orando e embelezando a vida deles?

Será essa a representação que precisamos alimentar?

Príncipe Willian sendo carregado por homens negros durante uma visita à Ilha de Tuvalu. (Foto: The Superfcial)

 

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