13 de maio e a perseguição às religiões de matriz africana

Violências direcionadas aos terreiros são expressão dos tempos do cativeiro no presente

“Vovó não quer casca de coco no terreiro. Para não lembrar os tempos do cativeiro”. Com esse ponto cantado pelas umbandas e rodas de jongo, eu saravo aos pretos e pretas-velhas, vovós e vovôs em referência ao 13 de maio. Adorei as almas!

Mas esta data também é ainda mais conhecida oficialmente como Dia da Abolição da Escravatura no Brasil, último país das Américas a realizá-la, em 1888. Entretanto, sabemos (ou deveríamos saber) que essa abolição segue como uma farsa.

Recordo que, no centenário da abolição, o movimento negro organizou a “marcha contra a falsa abolição”, levando milhares de pessoas negras às ruas no centro do Rio de Janeiro em 11 de maio de 1988. Lembro também do samba-enredo da Mangueira levado à avenida naquele mesmo ano: “será que já raiou a liberdade ou se foi tudo ilusão? […] Pergunte ao criador, pergunte ao criador quem pintou esta aquarela. Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”.

No batucar desta gira de palavras, o 13 de maio nos permite celebrar nossa ancestralidade por meio do culto aos pretos e pretas-velhas, e ao mesmo tempo denunciar que, mesmo 135 anos depois de decretado o fim da escravidão, o “terreiro-mundo” segue repleto de “casca de coco”. 135 anos se passaram e os tempos do cativeiro insistem em se manifestar, ora de forma escamoteada, ora escancarada, no hoje, no agora.

No cantar baixo e sereno de nossas pretas-velhas, sob o mascar do fumo e o baforar do seu pito, pérolas de sabedoria são ditas, entoadas e sentidas. E esse embalar de vovó e vovô que fala de casca de coco e terreiro, uma metáfora da vida de sofrimento e todo tipo de violência colonial-escravista, me faz reportar a violência direcionada às religiões de matriz africana, os nossos terreiros-quilombo de ontem e hoje.

As cascas de coco ainda marcam nossos terreiros de candomblé, umbanda, tambor de mina, batuque, jurema, etc. Isto é, as múltiplas violências direcionadas aos terreiros e aos vivenciadores dessas tradições culturais-religiosas são a expressão dos tempos do cativeiro no presente. Um passado que se presentifica.

ALÉM DA INTOLERÂNCIA

“Filhos do demônio”; “Cultos afro-brasileiros não constituem uma religião”; “Aluno é barrado em escola por usar guias de candomblé”; “Mãe perde a guarda da filha após iniciá-la no candomblé”. Essas são algumas manchetes de casos que materializam o cenário histórico de agressão e perseguição aos terreiros.

Além das violências em supermercados, ônibus, hospitais, locais de trabalho e dos casos de depredação e incêndio em terreiros, as mortes de ialorixás em decorrência de agressões por motivação religiosa nos dão o tom da gravidade do que compreendo como racismo religioso, e não apenas como intolerância religiosa.

Essa afirmativa é importante por vários motivos, dentre os quais a necessidade de se racializar o debate sobre intolerância religiosa no Brasil. Compreender as agressões aos povos e comunidades de terreiro dentro da chave do racismo religioso nos conecta de maneira mais intensa e profunda aos debates suscitados em torno do 13 de maio. Ele nos coloca diante do mundo colonial-escravista que a gente herdou e que ainda hoje não deixou de produzir seus tentáculos nas diversas esferas sociais.

Segundo pesquisa sobre o racismo religioso no Brasil realizada em 2022 pela Renafro (Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras), mais de 90% das 255 lideranças de terreiro consultadas informaram que ouvem regularmente suas filhas e filhos de santo relatarem que sofreram alguma forma de violência por motivação religiosa.

135 anos e a mentalidade dos tempos do cativeiro —que demoniza e desumaniza, persegue, encarcera e visa matar pessoas e culturas negras— continua presente e criando formas de se atualizar. Abolição para quem?

Assim como nossos ancestrais lutaram, resistiram e criaram formas de se manterem vivos durante a escravidão e o pós-escravidão, nós seguimos esse legado. As comunidades-terreiro de ontem e de hoje seguem preservando e transmitindo aos seus toda a herança cultural, filosófica, espiritual e política negro-africana. Enquanto alvos da violência, continuamos criando nossas próprias análises, interpretações e estratégias de enfrentamento ao racismo religioso. Os terreiros reafirmam seus modos de ser, existir e sentir inventando formas de re-encantar esse mundo em completo desencanto.

Que os pretos e pretas-velhas, que as santas almas, que todos os nossos ancestrais nos concedam força, sabedoria, orientações, acalanto e ervas de encanamento para que efetivamente não haja mais nenhuma casca de coco no terreiro, e assim a verdadeira abolição se concretize!

“Vovó não quer casca de coco no terreiro. Para não lembrar os tempos do cativeiro.”


Lucas Obalerá

Homem negro de candomblé, filho de Omolu. Cientista social pela PUC-Rio e mestrando em filosofia na UFRRJ, é pesquisador-ativista na área de relações raciais, direitos humanos, filosofia africana e de terreiro

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