A Branquitude pode tudo? Uma breve reflexão sobre a consolidação do nazifacismo no Brasil

O atentado contra a democracia, contra o resultado das urnas (2 e 31 de outubro de 2022) realizado no dia 08 de janeiro de 2023 em Brasília por terroristas, mostra ao Brasil e ao mundo que não se pode compactuar, ou se calar diante da construção facista-nazista que vinha/vêm ocorrendo contra o Estado Democrático de Direito há pelo menos 5 anos.  Depois do Impeachment em 2016 já podíamos ouvir expressões e xingamentos contra os três poderes. Esses discursos tomaram força nas redes e na mídia, a medida que um governo antidemocrático estava no poder, inflando ataques visando enfraquecer as bases democráticas e, consequentemente agir contra a Constituição Cidadã de 1988. 

Considerei o dia 08 de janeiro de 2023, um dia de consolidação, de ápice; um dia de ver explicitamente a manifestação física do facismo no Brasil. Entre quebra de patrimônio, quebra dos prédios representantes dos três poderes, palavras de ordem contra o presidente e outros agentes públicos, os terroristas foram escoltados, acompanhados para fazer tais violações pelo próprio poder de força do Estado brasileiro – a polícia. Ao ver as terríveis cenas, duas perguntas me ocorreram: E se fossem pessoas negras que estivessem ali? A branquitude nazifacista pode fazer tudo?

A primeira questão me traz à memória os vários casos acontecidos que envolvem esta força abusando de seu poder e matando o povo preto, seja por “confundir” uma sombrinha com um fuzil, por suspeitar que um cantor seja um bandido dentre vários outros casos sabemos, há um genocídio negro no Brasil instaurado por necropolíticas, epistemicídios, prisões em massa, chacinas e assassinatos da população negra. Sueli Carneiro também denunciou utilizando dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Evaldos, Genivaldos, Rodrigos, Adalbertos, Kathlens, Ágathas etc. Sendo assim, é gritante a diferença do tratamento dado pela polícia à branquitude nazifacista e à população negra. Nós morremos por muito menos, por menos, por nada, por existir. 

Se fossem pessoas negras, indígenas, estudantes, professores dentre outras e outros que estivessem ali e não fazendo metade do que foi feito, diga-se depredado, violado, neste dia (08/01/2022), a punição,  o tratamento seria outro¹; teríamos bombas de gás lacrimogênio, surras de cassetetes, balas de borracha ou pior dentre outras formas de “contenção”. Diante do infeliz acontecido e da rápida discussão aqui feita a pergunta sobre a branquitude nazifacista entra em evidência.  Eles podem fazer tudo?

A questão surge como uma maneira de chamar atenção para quais serão as providências tomadas daqui em diante, como serão tratados judicialmente cada indivíduo terrorista que agiu de má fé contra o Estado Democrático de Direto. Se dentro de determinada situação pessoas negras não tem direto a um tribunal ou corte por serem executadas e julgadas no instante do acontecimento, a branquitude tem essa garantia, e pelo menos judicialmente aguardamos as punições cabíveis.


¹ Disponível em: <https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2021/06/22/video-pm-e-indigenas-entram-em-confronto-durante-protesto-em-brasilia.ghtml>. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2023/01/policiais-aparecem-filmando-vandalismo-em-brasilia-e-conversando-com-manifestantes.shtml>. Disponível em:  <https://negre.com.br/em-2020-a-cada-15-minutos-uma-pessoa-negra-foi-assassinada-no-brasil/>.

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